Visita à Casa de Natalie

1555 Palavras
- Não pai, por favor não faça isso, me deixa, me solta, eu não quero. Para, por favor. Nisso eu me acordei muito assustada, estava ofegante. Olhei para todos lados, notei que não havia ninguém ali e me senti um pouco mais aliviada. Ai, como eu odiava esses pesadelos, eu tinha eles desde pequena e sempre acordava m*l. Ah, esqueci de falar, nunca mais consegui dormir no escuro, só dormia de luz acesa ou abajur ligado, precisava ter alguma claridade para eu poder enxergar, odiava escuro, odiava tudo o que me fizesse lembrar dele. E sei lá, eu tinha pânico de escuro, uma vez quando eu tinha uns 10 anos faltou luz no nosso bairro, eu comecei a chorar de desespero, sai correndo e me batendo em tudo, era o Nick me olhando assustado sem entender nada e mamãe tentando me acalmar e querendo saber o que estava havendo, mas eu só conseguia olhar para os lados tentando ver onde papai estava e se estava perto ou longe de mim, tive medo que com tudo escuro ele se aproximasse e me tocasse sem ninguém perceber, mas graças a Deus a luz voltou depois de uns 10 minutos e não deu tempo dele fazer nada. Nicolá sentia muita falta de uma presença masculina, ele tinha convivido com nosso pai até os 11 anos e os dois eram super grudados, viviam jogando futebol e videogame juntos, e as vezes papai levava o meu irmão no estádio quando o time deles ia jogar, eu não culpava o meu irmão por sentir falta do nosso pai e nem por amá-lo, porque para Nicolá, aquele homem sempre foi um bom pai. Enquanto meu irmão ficou com as lembranças boas, eu fiquei com as ruins, não conseguia sentir nada pelo homem que havia me colocado no mundo a não ser um ódio imenso, confesso que se ele morresse eu ficaria muito feliz, como queria isso… E as vezes eu me sentia m*l por desejar isso, mas é que eu também tinha medo de um dia ele ressurgir das cinzas, não queria ter que vê-lo nunca mais na minha vida. Estava sentada em um banco de uma praça enquanto esperava por Naty. De repente duas mãos cobriram os meus olhos. - Quem é? - Perguntei já imaginando de quem se tratava. - O amor da tua vida. - Disse aquela doce voz. - Mentira, chocolate não fala. - Brinquei. - Como é? - Questionou Naty ao sentar do meu lado. - Tô brincando, amor. - Falei. Naty sorriu e me deu um selinho. Nisso, um casal (hétero) passou pela gente e ficaram nos encarando, não gostei do jeito que eles nos olharam, sei lá, me senti um pouco contrangida. - Estão olhando pra gente. - Falei meio aborrecida. - Estão admirando o nosso amor. - Falou. - Não gosto desse jeito que olham pra gente. - Ná dá bola, vidinha. - Pediu Naty. Natalie era uma das poucas pessoas que conseguia me acalmar e me deixar mais tranquila, como gostava de estar com ela, era tão bom ter tê-la por perto. Naty me convidou pra ir a sua casa, já que eu estava lhe devendo uma visita, pois ela havia ido por último à minha casa e agora eu tinha que retribuir. Entrei na casa da garota e logo cumprimentei sua mãe. Os pais dela haviam se separado quando Naty tinha uns 10 anos. Confesso que só assim pra eu ir à sua casa, pois se ela morasse com o pai nunca que eles me veriam lá. - Lunaaaa! - Falou Juan ao pular no meu colo. - Oi baixinho. - Falei ao fazer um leve cafuné no menino. Juan era o irmãozinho de Natalie. Ele tinha 7 anos e era muito fofo, um garoto esperto, educado e muito carinhoso. Sei que vocês devem estar pensando ''mas Luna, você não disse que não se dava com homens, além do seu irmão, que tinha medo dos garotos, e tal...'', sim, e é a mais pura verdade, porém com criança não tinha essa, pois eles são anjos de Deus, são seres iluminados, puros, ingênuos, pelo menos é assim que é pra ser. Criança não possui a maldade dos adultos e por isso que eu os amo tanto. - Então Luna, já sabe o que vai fazer na faculdade? - Perguntou dona Angelina, a mãe de Naty. - Sim senhora. - Falei. - Quero fazer Serviço Social pra trabalhar em abrigos e casas lares com crianças e adolescentes que foram vítimas de negligências, maus tratos ou abusos. - Uau, que lindo isso. - Ela disse. - Mas por qual motivo? Pensei por um momento e eu sabia qual era o real motivo, queria ajudar a criança que um dia eu fui, mas era óbvio que eu não podia e nem diria isso, até porque eu nunca consegui falar sobre isso com ninguém, e acho que nem me sentia pronta para isso. - Pra poder ajudá-los, mostrar que eu me importo, que eles não estão sozinhos, poder acolhê-los, porque infelizmente eu não posso impedir que essas coisas aconteçam, então se acontecer, eu quero estar lá para ajudar. Senti umas lágrimas escorrer pelo meu rosto, pois lembrei da minha história, lembrei de tudo o que eu sofri ao lado de quem era para me amar e me proteger. E eu queria poder fazer pelos outros aquilo que nunca fizeram por mim, saber ouvi -los, abraçá-los e mostrar que tem pessoas, como eu, que só querem ajudá-los. Naty me deu um selinho e a dona Angelina pegou em minhas mãos. Senti uma coisa tão boa nesse momento, sei lá, pode parecer um pouco estranho, mas me senti acolhida mesmo que elas não soubessem sobre tudo o que eu havia passado. Naty queria ser psicóloga, até nisso éramos meio parecidas, pois assim como eu, ela também queria ajudar outras pessoas. Ah, como eu adorava essa mulher! Só que... Eu não sei, as vezes eu sentia como se estivesse me enganando. Eu gostava da Naty e gostava muito, ela era minha namorada e minha melhor amiga, mas eu sentia que não a amava do mesmo modo que ela me amava, acho que eu sentia por ela um imenso carinho e gratidão por tudo o que ela já fez por mim, por estar comigo quando eu mais precisei, só que amor... Ah, amor eu acho que não era, não, mas claro que eu não diria isso a ela, não queria machucá-la, afinal, ela era uma das pessoas que eu mais amava na vida. Na segunda feira tive que ir pra escola, não gostava muito porque eu era obrigada a conviver com meus colegas, costumava sentar bem afastada deles em um canto e rodeada pelas minhas amigas. Nenhum menino da minha turma falava comigo, nem tentavam porque eles me conheciam há uns dois anos e sabiam que eu não me dava com garotos, só o que eles não sabiam era o porquê, mas isso eu nunca tinha contado nem pra Naty, e acho que assim seria pra sempre, eu morreria com meu segredo e minha dor. Estava chegando em casa quando avistei um homem alto, magro e de cabelo crespo perto de minha casa. Ele parecia muito com alguém que eu conhecia e que eu desejava nunca ter conhecido. ''Pai!'' - Pensei ao começar a chorar de tanto pavor. Fiquei muito nervosa e trêmula, comecei a chorar sem parar, minhas pernas ficaram bambas, entrei em desespero, minha respiração ficou ofegante, e acabei fazendo xixi na calça de tanto pavor. Acho que eu nunca tinha tinha ficado assim, pelo menos, não desde que eu me livrei dele, acontece que eu tinha tanto medo de encontrá-lo novamente, nem sei o que eu faria se isso acontecesse, entrava em desespero só de imaginar, eu só queria vê-lo de novo se fosse dentro de um caixão, torcia pra esse dia chegar em breve. Será que eu era uma pessoa má por pensar assim? Nisso o homem se virou na minha direção e eu respirei aliviada, pois não era ele. ''Graças a Deus.'' - Pensei. Eu entrei em casa, troquei de roupa e me joguei em minha cama. Desabei a chorar, as lágrimas não paravam de cair e eu não conseguia parar de chorar e chorar. Como queria sofrer uma grande pancada na cabeça pra ficar com amnésia e esquecer tudo o que havia acontecido comigo quando eu era criança, ah, seria tão bom se eu não me lembrasse de mais nada para assim não sofrer mais, eu só queria que essa dor acabasse, queria não sofrer mais por conta do meu maldito passado. Na época da depressão, eu vivia batendo minha cabeça contra a parede para ver se eu conseguia perder a memória, ou pra ver se eu morria pra parar de sofrer, pena que isso nunca havia acontecido, infelizmente. Não tinha um dia sequer que eu não sofresse com medo dele nos reencontrar e o pesadelo recomeçar, eu já não era mais criança, mas mesmo assim tinha medo dele querer ''relembrar'' os velhos tempos, pois daquele doente eu não duvidava de mais nada, se ele foi capaz de fazer isso com uma criança de 4 anos, ele seria bem capaz de fazer com uma garota de 16, até porque alguém desse nível não muda do dia pra noite, aliás, uma pessoa assim nunca muda, infelizmente.
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