Fantasma narrando
Ta f**a parceiro, eu não sei mas o quanto eu vou conseguir ficar aqui na favela…
Eu sou leal pra c*****o ao meu parceiro, eu sempre fechei com ele no claro e no escuro muito antes dele ser preso. Nós somos cria daqui, nós revolucionamos essa favela que era abandonada, nós construímos isso aqui no braço, na garra, na luta todo dia. Trocando tiro com muito filho da p**a que achava que ia tomar isso aqui da gente. Já demos muita fuga em polícia, já matamos muito x9 filho da p**a, nós começamos nos corres pequenos pra hoje ter tudo o que nós temos. Não foi fácil, nunca foi fácil, e agora parece estar impossível de continuar…
Todo mundo sempre dizia da dupla que eu e o meu parceiro fomos desde o início, leais, firmes, impiedosos, mas acima de tudo justos.
Lembro quando ele casou com a Adriana, ela cresceu aqui com a gente também, a história deles é desde que isso aqui era mato, já enfrentaram muita merda juntos, muito baile, muita coisa, ela sempre me colocou pilha que eu tinha que arrumar alguém logo pra poder parar de ficar chamando o marido dela pra beber e pra resenha, mas na real eu nunca achei alguém que mexesse comigo, como ela mexe com meu parceiro até hoje, já vi ele cometer muita loucura por ela, eles terem brigas do meu parceiro querer tirar a vida se ela o largasse, e nessa vida nunca apareceu ninguém que me despertasse isso, e eu sempre falei pra eles, eu só pararia o dia que achasse algo no mesmo patamar de loucura dos dois…
Adriana já me apresentou muita mulher e eu comia e botava pra ralar, não tinha sentimentos, não tinha química, não tinha nada além de desejo de uma noite…
Quando eles tiveram as crianças eu estava sempre ali, junto, ajudando, acalmando o meu parceiro, botando pilha, ensinando o moleque a fazer merda, sequestrando as crianças da escola pra levar pra praça e encher de bala, eu sabia que ela ia ficar p**a, mas aí o meu parceiro aproveitava esses momentos pra sequestrar a dona dele pra lá e ela voltava mansa
Quando ele foi preso foi o maior desespero, a favela ficou desesperada, mas antes dele sair daqui pra se entregar pra proteger ela e a Rafaela, ele me deixou com o menor e me fez um pedido, que eu protegesse a família dele como se fosse minha, que eu não era só padrinho, que eu era o melhor amigo, irmão dele, e a única pessoa que ele confiava pra proteger a família dele na sua ausência, e foi a isso que eu me dediquei desde que ele caiu na tranca.
A Adriana chegou aqui desesperada, ela não conseguiu nem dirigir, um dos menor que trouxe ela, eu fiz de tudo pra soltar ele, eu morei na boca por duas, meses, conversando com advogado, tentando corromper juiz, nós fizemos de tudo, mas tudo parecia só piorar a situação dele. Quando ele foi transferido e a Adriana foi pra Mato Grosso, ela ficou um mês lá, e as crianças ficaram comigo, e ela repetiu o mesmo que ele, que eu não era só padrinho dos dois, que eu sou a família deles, que somos só nós por nós, e eu estive ali, sempre, como uma rocha que a água bate, fura, mas permanece ali, firme, e pronta pra qualquer porrada.
Eu só vejo o meu parceiro por chamada de vídeo e ligação, eu não vejo a hora dessa p***a acabar e ele voltar pra pista, mas, ao mesmo tempo, tantas coisas aconteceram nesses anos que me fazem querer beirar a loucura…
No início era fácil, comandar o morro, ser o tio preferido das crianças, ajudar a Adriana com eles, principalmente com o Thor, quando ele decidiu assumir a frente da favela aqui do lado, numa operação que mataram o frente de lá foi o maior desenrolado que eu já tive na minha vida. Eu fui encarregado de treinar os dois, tanto o Thor, quanto a Rafaela, e não é por nada não, os dois são bons de porrada pra c*****o, de tiro então ? Entrar na frente não sobra nem o osso pro enterro, eu criei dois monstros, foi o treinamento mais sinistro que eu já dei pra alguém na vida, porque eles tinham que ser os melhores. Mas em um acordo nada amigável com a Rafaela, o meu parceiro conseguiu convencer ela de embarcar na faculdade e não na boca. Com o Thor não dava, desde 15 anos ele já andava armado, já ia pra outra favela, já ficava muito por lá, já dava dor de cabeça, então ele assumir lá foi inevitável.
Os anos passaram e eu me vejo hoje na posição mais difícil da minha vida… eu sou um cachorro da pior espécie, como o meu parceiro fala, ainda bem que ele casou, porque se não, não ia sobrar mulher nem pra ele, e não ia mesmo, eu não tenho preconceito e nem tempo r**m, loira, preta, morena, ruiva, japonesa, novinha, mulher madura, tem buraco eu tô metendo. Não ligo pra nada, tenho minhas casas, minhas lojas, meu dinheiro, tenho tudo, e to tranquilão com isso, já com 40 na pista, sem filhos, sem nada, vivendo a vida nas melhores resenhas, com as melhores bebidas e melhores mulheres, pra mim isso é a vida…
Na teoria… porque na real, desde que a Rafaela fez 15 anos eu não consigo mais vê-la como a minha afilhada, a minha bebê, a minha princesinha. Ela é um mulherão e eu não aceito que falem o contrário. Eu relutei muito quando percebi pela primeira vez que eu não estava vendo a minha afilhada na minha frente, eu estava vendo uma mulher, e isso não podia acontecer de forma alguma, aquilo era inadmissível, e quando eu fecho os olhos eu lembro exatamente do dia que isso aconteceu…