Rafaela narrando
Meu sangue ferveu de uma forma tão intensa que parecia que algo dentro de mim tinha finalmente estourado. Assim que ele entrou no meu carro e ameaçou ligar o motor, eu bati a mão com tanta força no painel que o barulho ecoou dentro do carro inteiro, fazendo ele travar na mesma hora e virar o rosto para mim com uma expressão surpresa que eu raramente tinha visto naquele homem. Meu peito subia e descia rápido, minha respiração pesada, e tudo o que eu tinha segurado durante anos parecia ter decidido sair de uma vez só naquele momento.
— PARA. CHEGA DISSO. — eu falei alto, irritada demais para me controlar, sentindo minhas mãos tremerem enquanto eu encarava os olhos dele. — Para de querer me controlar, para de querer agir como se eu fosse alguma coisa sua. Já deu. — minha voz saiu firme enquanto eu mantinha os olhos presos nos dele. — Volta a me tratar como se eu fosse invisível. Volta a me tratar como se eu nunca tivesse sido nada pra você. Volta a me excluir da sua vida… volta. Esquece que eu sou alguém com quem você se importe, ou que finge se importar.
Eu senti minha garganta apertar quando continuei falando, mas não parei.
— Você estava grudado naquela oxigenada ambulante, você vive cheio de mulheres ao seu redor, você vive como se fosse um rei. Meu irmão também. E mesmo assim vocês querem me prender numa jaula como se eu fosse intocável. — minha voz subiu no final da frase, carregada de indignação. — Mas eu sinto te dizer uma coisa… EU NÃO SOU.
Ele continuava me olhando em silêncio, o maxilar travado, o peito subindo e descendo pesado.
— Eu sou uma mulher, maior de idade, herdeira de tudo tanto quanto o meu irmão. Você não é meu dono. Para de querer agir dessa forma escrota.
Assim que terminei de falar, ele socou o volante com tanta força que o estalo seco ecoou dentro do carro e o volante do meu carro literalmente cedeu, tombando mole para o lado. O impacto foi tão brutal que eu fiquei alguns segundos olhando aquilo sem acreditar.
— Não é tão simples. As coisas não são como você pensa, p***a. — ele falou com a voz carregada de tensão.
Antes que eu pudesse responder, ele segurou meu rosto com as duas mãos, apertando com força enquanto me puxava para perto dele.
— O que não é tão simples, Fantasma? — eu falei mais baixo agora, olhando direto nos olhos dele. — Fala.
Ele respirou fundo, o olhar perdido por um segundo.
— Nada… — ele murmurou. — Nada é simples. Nada é como eu quero. Seria tão mais fácil…
Ele parou no meio da frase.
Aquilo me irritou ainda mais.
— FALA, p***a. — eu disse, a voz quase embargando, mas eu não deixei ele perceber. — Seja homem. O que seria mais simples? Fala ou me deixa sair daqui e sai do meu pé.
Ele me olhou como se estivesse travando uma guerra inteira dentro da própria cabeça antes de finalmente falar.
— Seria muito mais fácil se tu não fosses filha do meu melhor amigo. Se tu não fosses minha afilhada. Se tu não tivesses praticamente metade da minha idade. — ele falou com a voz carregada de raiva contida. — As coisas não são só como eu quero, não, Rafaela. A vida não é tão simples dessa forma.
As mãos dele apertaram mais meu rosto.
— Você acha que é fácil pra mim ver esse bando de vagabundo te olhando aí, te cobiçando? — ele continuou, a voz ficando mais tensa. — Ver aquela foto daquele moleque te beijando? Saber que o que eu mais quero não pode ser meu, p***a?
Ele apertou mais forte meu rosto, sacudindo meu pescoço.
Eu bati na mão dele imediatamente.
— Por quê? — eu falei indignada. — Por que não? Por que eu não posso? Por que você quer sempre dizer o que é certo e o que é errado? Pra que isso?
Ele balançou a cabeça, negando.
— Teu pai me matava, Rafaela. — ele falou com a voz grave. — Teu irmão ia me matar. Eu ia trair a confiança do meu irmão. Teu pai é um irmão pra mim. Como que eu vou fazer uma trairagem dessa? Nós é família.
Eu neguei imediatamente.
— Nós não somos família. — eu falei firme. — Nós não somos. Você não tem o meu sangue. Para de ser covarde e seja homem. Assume o que você sente… se é isso que você sente mesmo. Qual é o problema de assumir isso?
Ele passou a mão pelo meu rosto inteiro, os dedos descendo pela minha pele enquanto puxava meu cabelo para trás, e aquele gesto só fez o calor que já existia entre nós dois crescer ainda mais.
— Para de fazer isso — eu falei baixo, mas firme. — Se você não tem coragem pra me assumir… pra assumir o que você sente nem pra você mesmo… então você não tem porque ficar me regulando. Você não tem porque ficar tentando me controlar.
Meu peito subia e descia rápido enquanto eu falava.
— Eu não sou covarde como você. Eu não me escondo atrás do que os outros vão pensar ou do que pode acontecer comigo. Para de me regular. Para de querer agir como se fosse meu dono.
Ele negou com a cabeça, me puxando mais para perto.
— Tudo o que eu queria era te fazer minha mulher. — ele disse com a voz rouca. — Era te mostrar que as coisas não são como você pensa. Era matar aquele moleque por ter colocado as mãos em você. Mas a vida do crime não é assim, Rafaela. Eu prometi ao seu pai. Eu fiz uma promessa quando você tinha dois anos de idade… e eu não posso trair a confiança dele desse jeito.
Aquilo me atingiu como um tapa.
Eu empurrei as mãos dele do meu rosto com raiva.
— Você é um covarde, Fantasma. — eu falei com desprezo. — Um frouxo. É isso que você é. Você não tem coragem de assumir o que você sente pros outros, então fica aí igual um o****o. Porque eu não vou deixar de viver a minha vida porque você não sabe se impor como um homem.
Meu corpo inteiro tremia quando eu abri a porta do carro e pisei de volta no chão da praça, como se cada músculo estivesse reagindo ao que tinha acabado de acontecer ali dentro. O ar da noite bateu no meu rosto quente, mas não foi suficiente para diminuir a intensidade que ainda corria dentro de mim. Meu peito subia e descia rápido, e por um segundo eu precisei fechar os olhos e respirar fundo para conseguir organizar os pensamentos que pareciam bater uns contra os outros dentro da minha cabeça. A presença dele ainda estava ali, colada na minha pele, nas mãos que tinham apertado meu rosto, na voz rouca dizendo coisas que eu tinha esperado ouvir durante anos e que, mesmo assim, tinham vindo acompanhadas da mesma covardia que sempre tinha existido entre nós dois.
Eu voltei até a porta do motorista sem hesitar, abrindo-a novamente com um movimento firme enquanto ele ainda estava ali sentado, o corpo pesado encostado no banco, o olhar carregado daquela tensão que parecia nunca desaparecer completamente quando estávamos frente a frente. Estendi a mão na direção dele, sem baixar os olhos em nenhum momento, porque eu sabia que se eu demonstrasse qualquer fraqueza naquele instante ele ia perceber imediatamente.
— Me dá a chave da sua moto.
Ele franziu a testa, claramente confuso com a mudança repentina de direção da conversa, mas ainda assim continuou me olhando como se estivesse tentando entender o que se passava dentro da minha cabeça.
— Você vai arrumar o meu carro e vai deixar ele na porta da minha casa — eu continuei, mantendo o tom firme, deixando cada palavra sair lenta o suficiente para que ele entendesse exatamente o que eu estava dizendo. — E eu vou ficar com a sua moto.
Antes que ele tivesse tempo de reagir ou contestar qualquer coisa, eu puxei a chave que estava presa na cintura dele, sentindo os dedos dele tentarem segurar meu braço por reflexo. O toque dele ainda era quente, forte, carregado daquela mesma intensidade que sempre me deixava completamente fora de equilíbrio, mas dessa vez eu não deixei aquilo me afetar. Eu já tinha passado tempo demais tentando entender os limites que ele impunha para nós dois, tempo demais esperando que ele tivesse coragem de ultrapassar aquela linha que ele mesmo tinha desenhado.
— Rafaela… — ele começou a falar, a voz mais baixa agora, como se finalmente estivesse percebendo que a discussão não tinha terminado do jeito que ele imaginava.
Eu soltei meu braço da mão dele com um movimento seco, encarando aqueles olhos escuros que sempre pareceram enxergar muito mais do que eu gostaria.
— Você já disse tudo o que tinha pra dizer — respondi com frieza suficiente para esconder o turbilhão que ainda corria dentro de mim. — Agora sustenta.
Bati a porta do carro com força, e o impacto fez o veículo inteiro vibrar por um segundo antes de tudo voltar ao silêncio pesado da rua ao redor. Eu não olhei para trás enquanto me afastava, porque sabia que se olhasse talvez acabasse vendo alguma coisa no rosto dele que me faria hesitar, e hesitar era exatamente o que eu não podia fazer naquele momento.
A chave da moto dele pesava na minha mão enquanto eu caminhava de volta em direção à praça, e conforme a música do pagode voltava a se tornar mais alta a cada passo, a energia do lugar parecia me envolver novamente. O som do cavaquinho, as palmas marcando o ritmo, o coro de vozes acompanhando o cantor no refrão, tudo aquilo voltava a preencher o espaço ao meu redor como se nada tivesse acontecido.
Mas dentro de mim ainda estava tudo diferente.
A conversa dentro daquele carro tinha arrancado coisas de dentro dele que eu nunca tinha ouvido antes, coisas que sempre estiveram escondidas atrás das promessas, das regras e da lealdade que ele jurava ter ao meu pai. Saber que ele sentia aquilo, que ele queria aquilo, mas que ainda assim preferia se esconder atrás de um juramento antigo, fazia uma mistura absurda de raiva e frustração crescer dentro de mim.
Eu subi na moto dele com um movimento firme, sentindo o motor vibrar assim que dei a partida. A máquina respondeu com aquele ronco forte que eu já conhecia bem, e por um segundo eu fechei os olhos antes de acelerar, deixando o som da música e da multidão voltar a tomar conta da praça atrás de mim.
Eu não ia deixar ele estragar minha noite.
Se ele tinha escolhido viver preso dentro das próprias regras, então ele que lidasse com as consequências dessa escolha. Porque eu não ia viver a minha vida dentro de uma jaula só porque ele não tinha coragem de assumir aquilo que estava estampado nos olhos dele todas as vezes que ele olhava para mim.
— rafa ? — sinto alguém tocar no meu braço quando eu ainda estava completamente aérea a tudo e eu viro devagar ainda tentando me localizar porque minha cabeça ainda estava lá dentro daquele carro com ele…