Brenda
Lágrimas embaçam minha visão enquanto observo o que deve ser uma das cenas mais lindas que já vi. A minha filha sorri abraçada ao presente que acaba de ganhar enquanto Nando segue de joelhos diante dela. Depois de mais um longo abraço Olívia vai brincar com a pelúcia que acaba de ganhar e Nando se aproxima carregando algumas sacolas.
_ Pode me ajudar. – Pede passando direto por mim em direção a cozinha. – Espero não ter exagerado. – Comenta quando o encontro retirando as compras das sacolas. – Como não o que a Olívia gosta de comer decidi trazer um pouco de tudo. A menos que ela seja alérgica a algo. – Desvia a sua atenção do que está fazendo para me olhar. – Ela tem alergia a alguma comida?
A sua preocupação pela minha filha me emociona mais uma vez. Não estou costumada a outra pessoa, que não seja eu, preocupada com o bem-estar da minha pequena.
_ Tudo bem? Eu disse alguma besteira? – Pergunta quando uma lágrima solitária escorre por meu rosto antes que consiga conter.
_ Sim. Não. – A voz trava um pouco na garganta e preciso respirar fundo buscando controle para falar. – Sim, está tudo bem. Não, você não disse nenhuma besteira. – Seco o rosto com o dorso da mão.
_ Por que está chorando, então?
_ Por nada. – Digo desviando os meus olhos dos dele.
_ Ninguém chora por nada. – Rebate apoiando o indicador em meu queixo fazendo o nosso olhar se encontrar novamente. – Qual o motivo das suas lágrimas? – Insiste com a voz mansa.
_ Você. – Ele ergue uma das sobrancelhas com um meio sorriso.
_ Eu? – Assinto com um leve maneio de cabeça. – E o que eu fiz?
_ Você pensou na minha filha quando estava fora. Até comprou um presente para ela. E agora... se preocupou por ela. Algo que ninguém além de mim fez. Nem mesmo o pai dela. – Sinto um gosto r**m na boca pela simples menção aquele homem. – Obrigada.
Ele fica um tempo me olhando. Parece estar travando uma batalha consigo mesmo. Imagino que deva estar cheio de perguntas, mas prefere guardar para si.
_ Não precisa agradecer. – Diz dando um passo para trás colocando alguma distância entre nós. – Bem. Vamos terminar de guardar essas coisas e preparar o café da manhã.
Me ocupo de lavar e picar frutas enquanto ele guarda tudo em seu devido lugar. Depois se junta a mim na preparação do dejejum. É a primeira vez que faço algo parecido e a comida não saí muito bonita, mas parece estar com um gosto bom. O deixo terminando de arrumar a mesa e vou buscar Olívia.
Ela me acompanha sem deixar sua nova companheira de lado. Sorridente e falante como nunca tinha visto antes. Seus comentários entre uma garfada e outra provocam risos em Nando. O clima leve me faz esquecer por algum tempo a tempestade que ainda ronda a minha vida.
_ Você brinca um pouco comigo, Nando? – Olívia convida colocando o copo na ponta da mesa, que caí derramando o que suco restante causando uma grande bagunça.
Me apresso em limpar a bagunça enquanto Olívia chora encolhida na cadeira. Ouço quando Nando levanta arrastando a cadeira e me preparo para os gritos de repreensão.
_ Desculpa. – Olívia balbucia em meio aos soluços. – Foi sem querer.
_ Eu sei que foi sem querer. – Diz calmo. – Acidentes acontecem. – Pelo canto dos olhos o vejo beijando seu rostinho marcado pelas lágrimas. – Sujou um pouco, mas eu cuido disso enquanto a sua mamãe te leva lá para cima para mudar essa roupa molhada.
_ Já estou limpando. – Volto a esfregar a mesa com um guardanapo.
_ Deixe isso comigo. – Sua mão cobre a minha e o simples toque faz o meu corpo reagir. – Cuida da Olívia. – Me entrega a pequena no colo. – Quando descerem já vai estar tudo perfeito.
_ E a gente vai brincar? – Olívia pergunta num tom manhoso, mas já não está chorando.
_ Sim.
_ Lá fora na praia?
_ Onde você quiser.
Não acho uma boa ideia ficarmos andando por aí. Ainda tenho medo de encontrar com Thomás virando a esquina. Mas depois de seis anos presas em uma jaula de ouro não posso prendê-la novamente quando finalmente estamos livres daquele carrasco.
A cozinha está realmente limpa quando retornamos. Olívia e sua abelha de pelúcia vão parar no colo de Nando quando deixamos a casa e atravessamos uma alameda de pedras que nos levam até uma parte isolada da praia. Tem uma tenda e duas espreguiçadeiras na areia deixando o ambiente mais íntimo.
Fico responsável por cuidar da senhora abelha enquanto Olívia e Nando correm em direção ao mar. Mas não entram. Ficam um tempo no raso esperando as ondas molharem seus pés. Depois começam a brincar de molhar um ao outro. Quando se aproximam estão completamente ensopados e Olívia tem o mais lindo sorriso estampado em seu rosto.
_ Olha o estado de vocês. – Reclamo com as mãos apoiadas na cintura. – Vão acabar ficando doentes.
_ Não se fica doente depois de um banho de mar. – Nando rebate dando uma piscadela para Olívia que sorri sapeca.
_ Foi muito divertido, mamãe. – Olívia fala com os lábios trêmulos pelo frio.
_ Vou levar vocês para passear de barco e vamos poder nadar no mar.
_ Pode ser amanhã, Nando? – Pergunta animada.
_ Só se a sua mãe deixar. – Joga a responsabilidade para mim porque já percebeu que não consigo negar nada para minha filha.
_ Podemos ir, mas só se o tempo estiver bom. – Os dois comemoram com um toque de mão. – Agora vamos voltar para casa e trocar essa roupa molhada.
Pego Olívia no colo tentando passar o calor do meu corpo para ela, mas acabo toda molhada também. Percorrer a pequena distância entre a praia e a casa com ela nos braços me deixa fadigada. Sei que esse é um péssimo sinal. É o efeito da falta dos meus medicamentos e do estresse da última semana, mas não posso fazer nada a respeito. Procurar um hospital traria Thomás direto para nós. Então apenas ignoro o m*l-estar e cuido de Olívia.
Cansada da manhã agitada Olívia cochila no sofá enquanto assiste a um desenho qualquer abraçada a sua abelha de pelúcia. Uso a manta que está no sofá para cobri-la. Fico um tempo a observando dormir.
_ É quase impossível parar de olhar, não é? – Nando sussurra ao se aproximar agora usando um par de roupas que devem ser do seu amigo. – Ela sorrio. – Diz completamente encantado. – Está tendo bons sonhos.
_ Graças a você. – Respondo no mesmo tom para não a acordar.
_ Não fiz nada. – Senta na mesinha de centro sem tirar os olhos de Olívia. – Ela sempre foi assim? Falante e carinhosa.
_ Apenas comigo. – Seu que está me olhando, mas mantenho o meu olhar em Olívia. – Ela geralmente calada e retraída com estranhos. Mas com você foi diferente. – Ergo os meus olhos e encontro os dele a me analisar. – Acho que ela confia em você.
_ E você? Confia em mim?
_ Acho que é a única pessoa em que ainda confio.
_ Então me conta o que está acontecendo. – Pede segurando minhas mãos entre as suas. – Por que está fugindo de Thomás depois de ter largado tudo para se casar com ele? Por que tanto medo?
_ Acha mesmo que larguei tudo para ir embora com ele? – Pergunto recolhendo minhas mãos ofendida pela insinuação. – Nunca teria ido embora se fosse uma escolha minha, mas acontece que não foi.
_ Está dizendo que foi obrigada?
_ Não. Eu teria que estar minimamente consciente do que estava me passando para ter sido obrigada a algo.
_ Não estou entendendo nada. – Diz com o cenho franzido.
_ Quando me deixou no hospital naquele dia precisei passar por uma cirurgia cardíaca de emergência. Fiquei debilitada e eles se aproveitaram disso para me fazer de fantoche. – Cravo os meus olhos nos dele. – Os remédios me deixavam grogue. Estava quase sempre dormindo. Quando finalmente me recuperei por completo tudo já havia acontecido. O meu pai tinha me casado com Thomás para manter as aparências de um homem rico e eu estava presa aquele homem asqueroso.
Desvio os meus olhos do dele e volto a olhar para a minha pequena em busca de paz para o meu coração angustiado.
_ Vivi o inferno nas mãos daquele projeto de ser humano. – As lágrimas escorrem por meu rosto e não tento contê-las. – Já tinha decidido acabar com tudo especialmente depois de descobrir que carregava um filho daquele monstro em meu ventre. Mas as coisas mudaram quando ouvi o seu coração pela primeira vez. – Sorrio com a lembrança. – Por ela e para ela me fiz forte. Olívia é a minha luz em meio a escuridão.