Capítulo 5

1301 Palavras
Uma semana se passou desde a cirurgia de Ellen. Eu e Bernardo estamos aqui na cobertura, preparando tudo para recebê-la. Carregamos uma poltrona pesada para o quarto de hóspedes, tentando deixar o espaço mais acolhedor para ela. — Ellen não deveria dormir no mesmo quarto que você? – Bernardo pergunta, levantando uma sobrancelha com curiosidade. Suspiro, sentindo a tensão pesar em meus ombros. — Não quero apressar as coisas, Bernardo. Ela precisa de espaço e tempo para se adaptar. – Respondo, minha voz carregada de incerteza.– Além do mais, ela me odeia. Esqueceu? Bernardo franze o cenho, confuso com minha resposta. — Mas por que estamos carregando essa poltrona? O quarto de hóspedes já está mobiliado. – Ele questiona, olhando para a poltrona com perplexidade. Acabo batendo meu dedo mindinho na quina da parede, soltando um gemido de dor. Bernardo não consegue conter o riso, e a poltrona escorrega de suas mãos, caindo no meu pé. Meus olhos se enchem de lágrimas enquanto o encaro com seriedade. Tento segurar meu instinto de soltar um grito de dor. Bernardo me olha sem reação por um momento, mas então começa a gargalhar. Eu o encaro com firmeza e acabo socando de leve seu braço. Ele resmunga, mas logo volta a segurar a poltrona, ajudando-me a levá-la para o quarto de hóspedes. — Esta poltrona é mais larga, Ellen poderá se sentir mais confortável enquanto lê seus livros aqui. – Comento, tentando amenizar a situação. Entramos no quarto de hóspedes e posicionamos cuidadosamente a poltrona, preparando o espaço para Ellen se sentir em casa. — Ainda pretende ajustar a biblioteca e colocar berços no outro quarto? Trouxe minha furadeira! – Bernado esfrega as mãos com animação. – Me sinto em um programa do Discovery H&H. Dou uma risada com sua animação, o dando um leve tapa na nuca. Bernardo podia ser bem maluco e as vezes infantil, mas ainda era meu melhor amigo, a pessoa que sempre estaria comigo nos momentos difíceis. — Temos muitas coisas pra resolver antes que a Ellen chegue aqui... Aposto que ela vai surtar quando souber que fiz um quarto para os gêmeos. – Digo levando as mãos a cintura. — Vocês dois são cabeças duras... essas crianças vão ter personalidades fortes! – Bernardo diz observando a paisagem através da grande janela de vidro. — Muito engraçado! Pelo menos eu não... – Minha fala é interrompida pelo toque do meu celular criptografado. Bernardo me olha provocativamente enquanto atendo a ligação, e em resposta, mostro-lhe o dedo do meio antes de me concentrar na chamada. Do outro lado da linha, ouço um grito de dor masculino seguido por uma voz ameaçadora falando em japonês. Fico momentaneamente confuso, mas logo reconheço a voz de Hector quando ele diz "Alô". — Alô? – Digo, minha voz soando firme apesar da agitação interna. — Desculpe pela gritaria, Donatello. – Hector responde do outro lado da linha. — O que está acontecendo? – Pergunto, minha preocupação aumentando. — Encontramos o homem que feriu Ellen. Estamos lidando com ele agora. – Explica Hector com seriedade. – Estou mandando meus homens torturá-lo até que confesse totalmente seu plano. Meu coração dispara ao ouvir que pegaram o responsável pelo ataque a Ellen. Bernardo me olha curioso enquanto seguro o celular com força contra o ouvido, esperando por mais informações. — Façam esse desgraçado sofrer. – Digo com firmeza, minha voz carregada de raiva e determinação. Outro grito de agonia ecoa pela chamada, mas agora estava distante, como se Hector tivesse se afastado. Outra voz se aproxima falando em japonês, sua voz era séria e grave, mais rouca que a de Hector. Escuto Hector responder o homem na mesma língua e depois suspirar xingando em inglês. — O que está acontecendo? Ele disse alguma coisa? – Pergunto, minha preocupação aumentando. Hector ri baixo, seus xingamentos ecoando na ligação. — O homem já está implorando pela morte.... Ele está tendo uma hemorragia, não durará muito. Mas meus homens conseguiram arrancar uma confissão parcial dele, e eu sei que você não vai gostar do que ele disse. – Hector adverte. Fico em silêncio por alguns segundos antes de responder hesitante. — Diga... o que ele confessou? – Minha voz sai baixa, minha mente girando com as possibilidades. Hector respira fundo antes de revelar a verdade chocante. — Ele confessou que trabalha para Maria e que tudo foi parte de um plano dela. – Ele diz, sua voz séria refletindo seus pensamentos obscuros. Um turbilhão de emoções me atinge de uma só vez. A raiva, a impotência, a incredulidade. Maria... ela estava por trás do ataque a Ellen. Minha mente começa a fervilhar com pensamentos violentos enquanto seguro o celular com força, minha fúria mais forte do que nunca. Essa mulher nunca desistiria de acabar comigo, sua obsessão beirava a loucura. Atacar uma mulher grávida? Infelizmente isso não me surpreendia, depois das revelações feitas por Victoria, sabia do que Maria era capaz. — Donatello, seu outro celular está tocando... Está escrito que é a detetive Lins. – Bernardo diz segurando o aparelho. Meu coração acelera, olho para Bernardo sem reação. Ele me encarava ansioso, esperando minha resposta. — Hector, preciso desligar... Algo urgente. – Digo entre um suspiro cansado. — Donatello... Se eu fosse você, não ficaria longe da Ellen. A Maria não está brincando, ela realmente é capaz de qualquer coisa. – Hector alerta antes de desligar a chamada. Um pressentimento r**m toma conta de mim, como se tempos difíceis estivessem se aproximando. Sem dar tempo a esses pensamentos, pego o celular da mão de Bernardo e o coloco no viva voz. — Boa tarde, senhorita Lins. – Digo cordial. — Boa tarde, senhor Miller. – Sua voz é séria. – Trago notícias a respeito da Giulia. Bernardo me olha com animação, seu rosto estava esperançoso. — Recebemos uma caixa em nosso escritório com informações importantes, não conseguimos identificar a sua origem... Mas as informações presentes nela são muito importantes para o caso. – A detetive Lins digita algo em seu computador. Seria a Victória que teria entregado essas informações? Não sabia ao certo, ela mesma disse que não queria envolver a polícia nesse caso. Mas, ainda não descartei essa possibilidade. De repente, a memória da conversa com a Victoria em meu escritório invade minha mente. Ela disse que apenas procuraria os meus detetives se algo acontecesse, seria disso que ela estava se referindo? Um arrepio percorreu minha coluna. Esperava que ela estivesse bem. — Como isso nos ajuda? – Bernardo pergunta aflito. — Nós conseguimos indentificar a localização de Giulia. Meus investigadores já estão a caminho de Veneza, mas tudo indica que as informações estão corretas. – A voz dela fica suave, empática. – Senhor Miller, você terá sua filha de volta. Meus olhos ficam marejados e um nó se forma em minha garganta. Finalmente eu poderia ver a minha filha, poderíamos ter uma relação familiar. — Eu preciso ir até ela! – Minha voz soa embargada. – Me diga a localização! — Senhor Miller, não acho que seja adequado. Prefiro deixar que meus investigadores cuidem disso, precisamos prezar pela sua segurança. – A cautela em sua voz me irrita. — Apenas me diga onde ela está, eu preciso vê-la! – Falo com impaciência. Bernardo toca em meu ombro me fazendo desviar o foco para o seu rosto. — Cara, muitas coisas estão acontecendo agora. Deixe a detetive cuidar disso, por enquanto apenas foque seus esforços em manter a Ellen e os gêmeos a salvo. – Sua voz é firme, mas calma. Suspiro observando seus olhos preocupados. Ele estava certo, eu não poderia largar tudo e ir atrás de uma pista que nem mesmo sabíamos se era verdadeira. Ellen precisava de mim, meus filhos precisavam de mim. — Me mantenha informado. – Digo antes de encerrar a ligação.
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