Capítulo 6

1456 Palavras
Algumas horas se passaram e eu me encontro na varanda, apreciando o pôr do sol enquanto saboreio um charuto e um bom whisky ao lado de Bernardo. — Por que está rindo, Donatello? – Bernardo pergunta, curioso com meu riso. Dou uma risada desgostosa, pensando em como minha vida virou de cabeça para baixo nos últimos meses. — Parece que alguém rogou uma praga para mim. Minha vida está um verdadeiro caos. – Respondo, balançando a cabeça com ironia. Bernardo ri concordando. — Realmente está um caos. Quem quer que tenha feito isso deve ser muito bom no que faz. – Ele comenta, sua sinceridade me fazendo rir. Reviro os olhos em resposta ao comentário direto de Bernardo. — Você não tem jeito, Bernardo. – Digo, ainda sorrindo. Me levanto da cadeira, sentindo o peso do dia nas minhas costas. — Vou dormir, tenho que passar na empresa amanhã antes de ir visitar Ellen no hospital. – Anuncio, me despedindo de Bernardo e me dirigindo para dentro da cobertura. (...) Ao sair do elevador, percebo os funcionários me olhando fixamente, alguns até cochichando quando passo por eles. Cumprimento alguns com um aceno de cabeça, mas noto que estão visivelmente envergonhados. Algo estranho estava acontecendo ali, e eu precisava descobrir o que era. Caminho em direção à minha sala e vejo Carmen em sua mesa. Com um sorriso gentil, entrego-lhe uma bandeja com café e um croissant, como fazia habitualmente. No entanto, Carmen não retribui o sorriso, e sua expressão é sombria. Estranho sua atitude e decido questioná-la. — O que está acontecendo, Carmen? – Pergunto, em um tom preocupado. Ela olha para os lados como se estivesse se verificando se estavam nos espiando. — Um senhor chegou aqui dizendo ser o novo CEO e está usando sua sala, senhor Miller. – Carmen murmura, sua voz carregada de desconforto. Meus olhos se arregalam de surpresa e raiva. Como assim alguém estava se passando por mim na empresa? — Como os seguranças permitiram isso? – Minha voz sai carregada de irritação. Carmen baixa o olhar, uma expressão de choro aparecendo em seu rosto. — Ele disse aos seguranças que o nome dele era Enzo Miller. – Ela murmura, evitando meu olhar. Uma mistura de emoções toma conta de mim. Por que meu irmão estaria aqui e como ele ousaria invadir minha sala dessa forma? Carmen me olha como se estivesse prestes a chorar, seus olhos estavam vermelhos e arregalados. — Eu tentei impedi-lo, mas ele me ameaçou dizendo que acabaria com minha carreira e eu nunca mais trabalharia no país. – Sua voz é embargada e trêmula. Desgraçado! Como ousava ameaçar a Carmen? Ela era uma mulher tão doce e gentil. Eu iria acabar com esse infeliz! Suspiro profundamente em busca de controlar meus nervos e coloco a mão em seu ombro, tentando confortá-la. — Está tudo bem, Carmen. Eu vou resolver isso. – Prometo, minha mente já planejando como lidar com a situação. Com passos firmes, avanço até minha sala, a raiva borbulhando dentro de mim. Empurro a porta com força, a fazendo bater contra a parede. A entrada repentina assusta Enzo, que pula na cadeira e me olha atordoado. Ignorando sua reação, avanço em passos largos até sua mesa e bato na madeira com fúria, questionando o que diabos ele estava fazendo. — O que pensa que está fazendo, Enzo? Não pode simplesmente usurpar meu cargo na empresa e ameaçar minha secretária! – Grito furioso, a indignação borbulhando dentro de mim. Enzo se recupera do susto e ajeita sua gravata, um sorriso sínico brincando em seus lábios. — Ah, mas eu posso fazer o que quiser. – Ele responde, seu tom de voz carregado de arrogância. Sinto a raiva pulsar em minhas veias enquanto o encaro. — Por que está agindo feito um i****a? Somos irmãos, Enzo! – Questiono, tentando apelar para o vínculo familiar. Ele ri com desgosto, seu olhar de desprezo cortando-me profundamente. — Não me lembro de você, Donatello. Mas soube que você foi o motivo de eu levar um tiro e ter amnésia. Não sinto nada por alguém tão ridículo e egoísta como você. – Ele dispara suas palavras com crueldade, fazendo-me recuar um passo, uma dor aguda em meu peito. — Você não sabe do que está falando, Enzo. Eu... – Começo a protestar, mas ele me interrompe com um movimento de mão displicente. — Não importa. Agora eu sou o CEO da empresa, e você deveria sair. – Ele ordena com frieza. — Isso é impossível! Eu tenho uma procuração do nosso pai me dando o controle total da empresa! – Retruco, lutando para manter minha compostura. Enzo ri, sua expressão de desdém tornando-se mais intensa. — Ao contrário de você, eu não sou um criminoso. Tudo o que fiz foi dentro da lei. – Ele responde, provocando-me ainda mais. Sinto-me magoado e confuso diante de suas acusações. — O que quer dizer com isso? – Pergunto, minha voz carregada de decepção. Enzo explica com um sorriso sarcástico. — A mãe assinou um documento me dando o direito de assumir o cargo. Ela tinha plenos poderes sobre a Miller Company e decidiu que você não era competente o suficiente para estar à frente da empresa. – Ele revela, seu olhar desafiador. Rindo incrédulo, balanço a cabeça em negação. — Isso é absurdo! Eu tenho controle total das empresas da família! – Protesto, incapaz de aceitar a realidade que se desenrolava diante de mim. Enzo ri, sua risada ecoando pela sala. — A incompetência e a inutilidade de você foram o suficiente para nossa mãe tomar essa decisão. – Ele zomba, sua voz carregada de desprezo. – Um rombo de milhões foi detectado por nossos contadores, parece que você além de um completo lunático, é um ladrão! Sinto a fúria queimar dentro de mim enquanto encaro meu irmão. — Maria é a culpada por esse rombo na empresa! – Rosno entre dentes, meu desprezo por ela transparecendo em minha voz. Enzo dá de ombros e volta sua atenção ao computador, ignorando-me completamente. — Isso não importa agora. Você será investigado minuciosamente, e até que tudo seja esclarecido, está proibido de se aproximar das propriedades da Miller Company. – Ele decreta com frieza. Sinto a decepção pesar em meu peito enquanto ele me encara com indiferença, deixando claro que não havia espaço para discussão. Enquanto Enzo continuava a digitar em seu computador, ignorando-me por completo, senti meu peito se apertar com uma mistura de tristeza e nostalgia. Um rápido filme das memórias de nossa infância juntos passou pela minha mente: Enzo rindo enquanto eu o ensinava a andar de bicicleta, eu o protegendo dos valentões na escola, as vezes em que o consolei nas noites em que ele tinha pesadelos. Eu sempre fui seu protetor, seu guia, seu pai. Depois da morte de nosso pai, tive que amadurecer rapidamente para assumir o controle da família, da máfia, e de Enzo. Mas agora, vê-lo agindo assim, como se eu fosse um estranho, doía mais do que qualquer tiro que já levei. Suspirando profundamente, finalmente quebro o silêncio tenso. — Eu esperava que você se recuperasse logo da amnésia, Enzo. Que percebesse como éramos unidos antes de Maria entrar em nossas vidas e estragar tudo. – Desabafei, meu tom carregado de tristeza e desapontamento. Enzo me olha em silêncio, seu rosto exibindo um lampejo de tristeza e confusão. Continuo, sentindo um nó se formar em minha garganta. — Nossa mãe estava usando você para me atingir. Ela nunca nos amou o suficiente, nunca se preocupou conosco. – Revelo, minha voz soando rouca de emoção. – Mas, independente de tudo, eu ainda te amo, Enzo. Desejo que você volte a ser meu irmãozinho. Há um breve momento de silêncio antes de Enzo o quebrar. — Por gentileza, saia da minha sala e respeite a investigação. – Ele murmurou, quase inaudível. Sua voz estava estranhamente gentil e cordial. Suspiro profundamente e me viro para sair da sala. Ao passar por Carmen, ela me olha com expectativa, seus olhos úmidos de lágrimas. — Donatello... – Ela começa, mas antes que pudesse terminar, dou-lhe um sorriso cansado e murmuro: — Terei que me afastar da empresa por enquanto, Carmen. – Minha voz soa pesarosa. Ela não consegue segurar suas lágrimas e se levanta, envolvendo-me em um abraço apertado. Ela soluça contra meu peito, e eu tento acalmá-la, acariciando suas costas. — Você foi o melhor chefe que já tive, Donatello. Sentirei sua falta. – Ela diz entre soluços. Sorrio cansado enquanto me afasto dela. Enzo chama Carmen pelo interfone em sua mesa, e ela se afasta de mim com desgosto. Assentindo, faço meu caminho em direção ao elevador, os ombros pesados com o peso de minhas emoções tumultuadas.
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