CAPÍTULO UM-2

2148 Palavras
Tenho de me libertar. E depressa. Sei que sobreviverei, custe o que custar. Não descansarei enquanto não acabar com a raça do Governador. Pode ser da minha estirpe, mas ele não é anil como todos nós. Se existe um Psoc, podem existir muitos mais como ele. Essas sanguessugas podem ainda controlar-nos como o seu pomar pessoal. Podem julgar-nos gado. Fracos. Patéticos. Insetos aos seus pés. Que idiotas. Não sabem que acabaram de se meter com um lobo com pele de ovelha. Penso em June e nos restantes anis, vagueando por aqui. Alguns deles podem já ter-se encontrado. Outros, de certeza, estarão sozinhos e amedrontados. June tem apenas cinco anos, e, apesar de ter sido abandonada pelos pais biológicos, Alya sempre esteve com ela. Nunca se teve de preocupar com sobreviver. Os seus instintos de luta podem ter sido afinados com os treinos de Félix e os seus poderes espantosos para uma criança da sua idade. Mas, no final do dia, não deixa de ser apenas uma criança. Uma criança da estirpe anil – uma impossibilidade em carne e osso –, mas apenas uma criança. Tremo, quando o pensamento do Governador perto dela me assola a mente. Flashes de memórias deslocam-se aleatoriamente, relembrando-me de mais e mais irmãos e irmãs de estirpe. Kendall, que deve estar tão desorientada quanto eu. A última memória que tenho de Alya é a da sua voz, movida a ódio e a desespero. Tento lembrar-me das suas feições, mas, por alguma razão, é o seu timbre que me ecoa no crânio, acompanhado de um pedaço das suas últimas palavras. Libertar Arstrik. Não me lembro de ver os gémeos – Aaron e Theo – nem Alice uma última vez. E, dentre todos os demais anis, William é o que tem mais vantagem neste terreno hostil. Com a sua habilidade, poderá encontrar-nos a todos num abrir e piscar de olhos. O Governador pode controlar este jogo, mas ele não é o único que pode mover as peças do tabuleiro. Se William nos conseguir encontrar, poderemos vencer este monte de paredes de vidro n***o e chegar ao seu mestre. Não sei qual o formato ou quão extensa é esta prisão. A única coisa que sinto é que estamos aqui. Todos e cada um de nós. As paredes estão pouco pulsantes, mas sinto que este sítio tem algo de diferente. Estamos a navegar em águas desconhecidas, com nada mais do que um barco e um remo partido em dois. Podemos não ser marinheiros experientes, mas também não somos náufragos. Sobressalto-me, quando desço as mãos pelas pernas e sinto algo no meu bolso. Os meus olhos abrem-se de imediato, e acordo do meu transe. As minhas mãos falam por si, e dou por mim a tocar em algo que pode ser a minha boia de salvação. O diário da sensorial. Pego no caderno o mais cuidadosamente que posso. Além das minhas roupas, nada mais me faz companhia do que estas páginas com séculos de existência. Folheio o diário e recordo-me de cada palavra que decorei. A pequena brisa que as páginas levantam tem o aroma do sangue derramado em batalha. Algumas delas, até manchas de sangue fresco têm. Entre tanto escarlate, não sei qual destas marcas são do meu sangue ou dos cães raivosos que sucumbiram ao meu poder. A tinta esbatida acompanhada das manchas avermelhadas torna a leitura muito mais difícil do que já era. Algumas destas palavras estão escritas numa linguagem antiga, apenas algumas palavras se mantiveram na língua em que falamos hoje. Não existe nenhuma página em que não tenha posto a vista. Salto por cada página uma e outra vez, na tentativa de encontrar algo de que me possa servir agora. A descrição do nome das capacidades dos anis está toda aqui, bem como as suas forças e fraquezas. Sei cada uma delas de cor. No entanto, o que ficámos a saber sobre a nossa estirpe não nos ajuda, quando o assunto é o vigésimo anil. Em todos os pergaminhos, anotações e livros, deixados pelos antecessores dos nossos Agnei, não encontrámos nada de informativo sobre ele. A única informação que se revelou útil passou pela sua revelação, assim que todos nós nos juntássemos na vigésima região – a Capital. Para além disto, apenas tínhamos um nome que nunca percebi, mas que agora entendo na perfeição: quimera. O Governador é o anil híbrido, erguendo o seu nome até ao cerne. Parte anil, parte Psoc – duas raças julgadas extintas. A estirpe anil pode fazer apenas parte do folclore de Arstrik, mas todo o povo se lembra dos Psoc e da destruição que nos causaram. Não vou permitir que Sua Graça leve a sua avante, seja o que for que quer fazer. Entre tanta informação e algumas palavras que nunca consegui decifrar, a única página que me serve de algo agora é uma quase no final do caderno. Uma página com apenas alguns rabiscos e umas palavras que não fazem sentido de todo. Parede. Fonte. Disruptor. A sensorial era da geração passada da estirpe anil e ascendente de Martin – o anil sensorial da minha geração. O seu poder pode consistir em ver o futuro próximo, num intervalo de horas ou até dias. As visões mais longas vêm esporadicamente e são incontroláveis, ou seja, não as podem provocar. Com a sua habilidade, ela conseguiu juntar informação sobre todos os outros anis e as suas capacidades. Melhor para a geração seguinte. Melhor para nós. Melhor para mim. Passa-me pela cabeça tudo o que descobrimos sobre a nossa estirpe. Eles também se encontravam, se reuniam. Também eles se preparavam para o seu destino. Utilizavam os Agnei para se reunirem e para descobrirem os portadores da luz violeta, entre a nossa estirpe. Os cinco anis que carregam a chama de vida da nossa estirpe. Caso todos eles sejam mortos por algum outro anil, a nossa estirpe extinguir-se-á. Nunca mais renascerá, e o ciclo de aparecimento de novos anis acabará. Decerto terão morrido pela insuficiência de energia mística ou então de causas naturais. Pelo menos, é no que quero acreditar. Tenho de arranjar uma saída daqui. Quanto mais, encontrar os restantes anis e voltarmos para onde estávamos. Do lado de fora destas paredes, uma batalha estava em andamento. Não sei o que se terá passado depois de termos aparecido aqui. Tudo é uma incógnita. Tudo menos o que me lembro. Um mar de observadores contra um exército condensado e bem oleado de anis. Não só de anis. De anis e de grandes aliados. Tanto pelo que sei, Zun Lin e Félix podem estar à nossa procura – isto se tiverem dado conta do pirocinético e do blaster, já para não falar do regente que matou Ilda e Zho. Eles atacaram-nos pela retaguarda. Estávamos encurralados. De um lado, tínhamos os montes de observadores que se ativaram para cima de nós. Do outro, tínhamos o regente e os seus lacaios. Se Zun Lin e Félix não tivessem tomado essa frente de batalha, não sei se teríamos chegado ao Governador. Não sei onde ou como estão. Apesar da sua grande coragem, nenhum deles chega ao nível de poder dos lacaios do regente, muito menos ao do seu mestre. Já para não dizer que o pirocinético teria vantagem sobre os poderes de controlo de ar de Zun Lin. Com um eclipse em cima de nós, eles estariam enfraquecidos. Os pirocinéticos alimentam-se do calor para controlarem o fogo e as massas de combustão. O mesmo acontece com os blasters, que se alimentam de fontes de calor para manterem o seu toque explosivo bem acutilado. Tal como os luminocinéticos, eles vão buscar forças ao sol. Com ele tapado pela lua, calculo que os seus poderes devessem estar reduzidos. Mas, mesmo assim, eles são de nível laranja. A sua estirpe é bastante poderosa. Suposições não adiantam de nada, se eles conseguirem utilizar a sua quantidade de energia mística para alimentarem as suas capacidades. Sei porque Zun Lin e Félix o fizeram. Ainda assim, custa-me não saber como estão. Só espero que eles estejam bem. Fecho o caderno, afastando todos os pensamentos. Parede. Fonte. Disruptor. Faço acompanhar-me apenas destas palavras, enquanto cesso a meditação de vez. Recolho o diário para o bolso das calças novamente, e os meus olhos divagam por todos os cortes que tenho na roupa. Outrora, foi o meu próprio Agnei que me concedeu estas vestes. Outrora, eram flexíveis e adaptáveis. Agora, estão quebradiças e engelhadas. Mais uma coisa que o Governador e as suas tropas roubaram de mim. Levanto-me. Ainda não sinto as pernas ou até o resto do meu corpo. Algo me palpita no peito, além do coração. Quando respiro fundo, sei que não é apenas o sangue que o percorre agitado. Cambaleio para trás, zonzo. Uma tontura atinge-me, mas algo mais puxa por mim. Algo me chama. Algo me atrai. Uma mão encontra as paredes de cristal fumado, na tentativa de não me deixar cair redondo no chão. E, então, sei o que me provoca tais tonturas. Os meus ouvidos zumbem ao som do meu sentido energético, pulsante, vivo, que me pede que o siga. Ele faz do meu peito algo que ressoa por entre as paredes silenciosas deste sítio. Não resisto e deixo que ele me conduza. Afinal, ainda estou suficientemente forte para continuar a caminhar. Estar no mesmo lugar não me vai levar a lado algum. Se quero sair deste sítio, tenho de confiar na minha única habilidade funcional agora. Se tivesse mais alguém comigo, podia copiar a sua habilidade para sair deste monte de paredes negras. Qualquer uma que fosse, podia acalmar o que sinto e tornar-me um pouco mais livre do que sou, neste momento. Mas, agora, o que tenho de mais precioso é isto que sinto no peito. É esta sensação que me guia para nenhum sítio em específico. Esta sensação que ainda me faz sentir vivo. Todas as paredes parecem iguais. Todas me refletem numa imagem cansada e meio esbatida. Quando me aproximo de qualquer parede que seja, mais o meu reflexo ganha forma. Ao longe, pareço apenas uma mancha de gente – o que não deixa de ser verdade. Sou apenas um rapaz, uma criança com um poder enorme nas mãos. Um poder que não me serve de nada, porque eu próprio não sirvo para nada, aqui preso. Mesmo em Arstrik, de pouco ou nada servia. Entre todos os anis e todos os que nos acompanhavam, era apenas mais um empecilho que outra coisa. Não sou tão poderoso quanto os outos anis, ou tão corajoso quanto Félix, Zun Lin ou Chase. Ao menos em Arstrik sempre podia causar dores de cabeça ao Governador, destruindo os seus brinquedos a quem chama de tropas. Direita, esquerda, frente. Uma e outra vez, mas nunca para trás. Se existe algo que aprendi com o meu falecido mestre – John – foi a nunca caminhar para trás. Com sorte, o que encontrámos não é nada mais do que conhecemos, o que não me ajudará a resolver o problema. John sabia disso. Eu poderia tê-lo sabido mais cedo, se decidisse ouvi-lo. Félix não parava de o repetir nos treinos. Gostava de poder voltar àqueles dias em que tudo o que me preocupava era treinar uma habilidade desconhecida e encontrar todos os meus irmãos de estirpe. Podemos estar longe, mas se há algo que nos une são os ensinamentos do nosso mestre. Félix. Mesmo que provavelmente faça companhia a John neste momento, não posso deixar de pensar nele e de me relembrar, também, dos seus ensinamentos. Não deixo de sentir ânsia, e os meus pés correm sobre o que sinto. Navego por entre este mar de sombra sem bússola. Apenas tenho tudo o que aprendi comigo e um monte de lições de alguém que pode já nem estar vivo. Tudo, porque o levei comigo para a sua cova. Porque confiei numa visão parcial do futuro. Tudo porque confiei numa habilidade que nunca detive, ou controlei. Respiro fundo. Paro a minha caminhada, enquanto não consigo afastar Félix da minha cabeça. O meu corpo faz por andar e responder aos meus instintos, por responder ao meu sentido energético. Mas travo-o, quando uma das suas lições se abate sobre mim. A sua face na minha memória é uma excelente âncora. És tu que controlas a aptidão, e não o contrário. Deixo que as suas palavras me invadam a mente. A sua voz está bem presente na minha cabeça e quase consigo senti-lo perto de mim. Consigo imaginar o fumegar da sua respiração fugir-lhe do pano que lhe cobre a cara e os seus olhos avelã toldarem-me o foco. Os seus cabelos ondulam ao sabor de um vento inexistente, tal como a ilusão que crio na cabeça. A vontade de continuar a andar urge no meu peito, mas a sua voz prende-me os pés. Palavras que ficaram gravadas na minha mente são as correntes que me mantêm são. Tenho de me manter calmo.
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