O Fúria tem esse jeito: ele não chega, ele ocupa. Alto, tatuagem subindo pelo pescoço, olhar sério que parece que tá julgando o mundo o tempo todo. Só que o mundo não liga. Quem liga é o morro.
Ele me olhou e, por um segundo, eu vi no rosto dele a vontade de perguntar "tá tudo bem?" do jeito normal.
Mas normal não mora ali.
— Tu tá acordada por quê? — ele perguntou, voz baixa, mas carregada de comando. — Tá sabendo de alguma coisa?
Eu segurei o dossiê atrás do corpo, por instinto. Não era medo dele. Era... proteção. Era meu segredo gritando.
— Tô acordada porque eu não durmo cedo, não. Tu casou comigo e eu não tô sabendo?
Ele deu um meio sorriso que não chegou nos olhos.
— Não inventa, Morena.
— Então não me enche.
Ele caminhou até mim e ficou perto demais. Perto demais é um hábito dele, como se a distância fosse uma afronta.
— Te falaram que vai ter movimentação amanhã? — ele insistiu.
Eu senti o olhar dele descendo, atento. Fúria não lê livro, mas lê gente como se fosse. Eu engoli seco, escolhi a máscara que eu uso quando tô por dentro desmoronando: a de deboche.
— Movimentação amanhã? Amor, aqui tem movimentação todo dia. Isso aqui é comunidade, não é spa.
Ele me encarou. A tensão entre a gente tem mania de nascer antes da conversa.
— Tu tá estranha.
— Eu tô linda. Estranho é tu vindo na minha casa a essa hora sem pedir benção.
Ele se aproximou mais um passo, e eu senti o cheiro dele: fumaça, perfume caro e problema.
— O que tu tá escondendo?
Eu levantei o queixo.
— Eu escondo o mesmo que tu esconde: sentimentos e traumas. A diferença é que eu faço isso sem bancar o macho alfa.
Ele soltou uma risada curta, sem alegria.
— Tu gosta de me provocar.
— Não. Eu gosto de viver. E tu vive tentando mandar em mim, então... a gente se diverte.
Ele esticou a mão como se fosse pegar alguma coisa atrás de mim. Eu dei um passo pro lado, rápida.
— Não encosta.
O silêncio caiu pesado. O tipo de silêncio que vira briga com facilidade. Ele apertou a mandíbula, aquele músculo pulando na lateral do rosto.
— Eu tô perguntando na moral.
— E eu tô respondendo na moral: não é da tua conta.
O olhar dele escureceu. Eu conheço esse olhar. É o olhar de quem quer controlar o mundo porque não consegue controlar o que sente.
— Tu esquece que tu tá aqui por minha causa.
Nossa. Aí ele pediu.
Eu dei uma risada lenta, perigosa.
— Eu tô aqui por tua causa? — eu repeti, como se estivesse degustando a burrice. — Fúria... tu é bom em muita coisa. Mas tu não é Deus não, tá?
Ele avançou um pouco, e eu senti a energia mudar. Não era só discussão. Era desejo com raiva. Era aquela mistura que faz gente inteligente fazer besteira.
— Eu tô tentando te proteger.
— Proteger de quê? Do mundo? — eu abri os braços. — Olha ao redor, Fúria. O mundo tá aqui. Eu sou daqui. Eu não sou princesa pra tu guardar na torre.
Ele ficou imóvel por um segundo. Depois o olhar dele desceu pro meu rosto, como se procurasse rachadura.
— Morena... fala.
Eu virei, abri a gaveta da cômoda e enfiei o dossiê no fundo, embaixo de um monte de coisa. Não porque papel se esconde assim, mas porque eu precisava fingir que dava pra guardar.
Voltei pra ele com a cara mais debochada que eu tinha disponível.
— Eu vou dormir. Tu também devia. Amanhã tu acorda com essa mania de dono do mundo mais descansada.
Ele me encarou, sem piscar.
— Tu tá mentindo pra mim.
— Eu minto pra geral. Por que contigo ia ser diferente?
Ele deu um passo e ficou na minha frente de novo, tão perto que eu senti a respiração dele bater na minha boca. Eu odiei. E gostei. Esse é o meu problema: eu tenho um gosto péssimo pra confusão.
— Se eu descobrir que tu tá me colocando no escuro... — ele começou.
Eu sorri, doce e venenosa.
— Tu vai o quê? Me castigar? Vai me tirar da boca? Vai me botar de castigo igual criança?
Ele travou por um milésimo de segundo. E eu sou rápida pra pegar fraqueza.
— Ah... — eu falei baixinho. — Tá vendo? Tu nem sabe o que fazer comigo.
A mão dele foi no batente da porta, como se ele precisasse de apoio pra não perder o controle.
— Tu me testa.
— Eu te ensino. É diferente.
Ele soltou o ar devagar, um riso quase sem som.
— Tu é um problema.
— Eu sou solução, amor. Tu que insiste em usar errado.
Ele ficou mais um tempo ali, me olhando como se quisesse dizer um milhão de coisas e só soubesse mandar.
— Tranca a porta.
— Eu tranco nada. Quem tem medo é tu.
Ele não respondeu. Só me encarou uma última vez, e saiu. Quando a porta fechou, eu desabei por dentro do jeito que ninguém vê.
Sentei na cama e peguei o travesseiro, abracei como se fosse gente. Eu abri a gaveta de novo, puxei o dossiê e fiquei olhando aquela palavra:
FILHO
Minha garganta queimou. Eu falei baixinho, como se ele pudesse me ouvir do outro lado da cidade.
— Mãe tá aqui.
E foi aí que eu entendi: esse papel não era só uma ameaça.
Era um aviso.
Porque se a polícia sabe, se alguém deixou isso cair...
se isso chegou na minha mão...
Então alguém quer que eu saiba que meu segredo não é mais meu, é quando segredo vira público, o morro inteiro sente o impacto.
Eu respirei fundo, limpei o rosto com raiva, e sorri, não de felicidade. De decisão.
— Tá bom — eu sussurrei. — Vocês querem me usar? Querem me provocar?
Eu bati de leve no dossiê com o dedo.
— Vocês escolheram a mulher errada.
E, naquela madrugada, sem fogos, sem tiros, sem música... começou a minha guerra de verdade.