2. Morena

1035 Palavras
O Fúria tem esse jeito: ele não chega, ele ocupa. Alto, tatuagem subindo pelo pescoço, olhar sério que parece que tá julgando o mundo o tempo todo. Só que o mundo não liga. Quem liga é o morro. Ele me olhou e, por um segundo, eu vi no rosto dele a vontade de perguntar "tá tudo bem?" do jeito normal. Mas normal não mora ali. — Tu tá acordada por quê? — ele perguntou, voz baixa, mas carregada de comando. — Tá sabendo de alguma coisa? Eu segurei o dossiê atrás do corpo, por instinto. Não era medo dele. Era... proteção. Era meu segredo gritando. — Tô acordada porque eu não durmo cedo, não. Tu casou comigo e eu não tô sabendo? Ele deu um meio sorriso que não chegou nos olhos. — Não inventa, Morena. — Então não me enche. Ele caminhou até mim e ficou perto demais. Perto demais é um hábito dele, como se a distância fosse uma afronta. — Te falaram que vai ter movimentação amanhã? — ele insistiu. Eu senti o olhar dele descendo, atento. Fúria não lê livro, mas lê gente como se fosse. Eu engoli seco, escolhi a máscara que eu uso quando tô por dentro desmoronando: a de deboche. — Movimentação amanhã? Amor, aqui tem movimentação todo dia. Isso aqui é comunidade, não é spa. Ele me encarou. A tensão entre a gente tem mania de nascer antes da conversa. — Tu tá estranha. — Eu tô linda. Estranho é tu vindo na minha casa a essa hora sem pedir benção. Ele se aproximou mais um passo, e eu senti o cheiro dele: fumaça, perfume caro e problema. — O que tu tá escondendo? Eu levantei o queixo. — Eu escondo o mesmo que tu esconde: sentimentos e traumas. A diferença é que eu faço isso sem bancar o macho alfa. Ele soltou uma risada curta, sem alegria. — Tu gosta de me provocar. — Não. Eu gosto de viver. E tu vive tentando mandar em mim, então... a gente se diverte. Ele esticou a mão como se fosse pegar alguma coisa atrás de mim. Eu dei um passo pro lado, rápida. — Não encosta. O silêncio caiu pesado. O tipo de silêncio que vira briga com facilidade. Ele apertou a mandíbula, aquele músculo pulando na lateral do rosto. — Eu tô perguntando na moral. — E eu tô respondendo na moral: não é da tua conta. O olhar dele escureceu. Eu conheço esse olhar. É o olhar de quem quer controlar o mundo porque não consegue controlar o que sente. — Tu esquece que tu tá aqui por minha causa. Nossa. Aí ele pediu. Eu dei uma risada lenta, perigosa. — Eu tô aqui por tua causa? — eu repeti, como se estivesse degustando a burrice. — Fúria... tu é bom em muita coisa. Mas tu não é Deus não, tá? Ele avançou um pouco, e eu senti a energia mudar. Não era só discussão. Era desejo com raiva. Era aquela mistura que faz gente inteligente fazer besteira. — Eu tô tentando te proteger. — Proteger de quê? Do mundo? — eu abri os braços. — Olha ao redor, Fúria. O mundo tá aqui. Eu sou daqui. Eu não sou princesa pra tu guardar na torre. Ele ficou imóvel por um segundo. Depois o olhar dele desceu pro meu rosto, como se procurasse rachadura. — Morena... fala. Eu virei, abri a gaveta da cômoda e enfiei o dossiê no fundo, embaixo de um monte de coisa. Não porque papel se esconde assim, mas porque eu precisava fingir que dava pra guardar. Voltei pra ele com a cara mais debochada que eu tinha disponível. — Eu vou dormir. Tu também devia. Amanhã tu acorda com essa mania de dono do mundo mais descansada. Ele me encarou, sem piscar. — Tu tá mentindo pra mim. — Eu minto pra geral. Por que contigo ia ser diferente? Ele deu um passo e ficou na minha frente de novo, tão perto que eu senti a respiração dele bater na minha boca. Eu odiei. E gostei. Esse é o meu problema: eu tenho um gosto péssimo pra confusão. — Se eu descobrir que tu tá me colocando no escuro... — ele começou. Eu sorri, doce e venenosa. — Tu vai o quê? Me castigar? Vai me tirar da boca? Vai me botar de castigo igual criança? Ele travou por um milésimo de segundo. E eu sou rápida pra pegar fraqueza. — Ah... — eu falei baixinho. — Tá vendo? Tu nem sabe o que fazer comigo. A mão dele foi no batente da porta, como se ele precisasse de apoio pra não perder o controle. — Tu me testa. — Eu te ensino. É diferente. Ele soltou o ar devagar, um riso quase sem som. — Tu é um problema. — Eu sou solução, amor. Tu que insiste em usar errado. Ele ficou mais um tempo ali, me olhando como se quisesse dizer um milhão de coisas e só soubesse mandar. — Tranca a porta. — Eu tranco nada. Quem tem medo é tu. Ele não respondeu. Só me encarou uma última vez, e saiu. Quando a porta fechou, eu desabei por dentro do jeito que ninguém vê. Sentei na cama e peguei o travesseiro, abracei como se fosse gente. Eu abri a gaveta de novo, puxei o dossiê e fiquei olhando aquela palavra: FILHO Minha garganta queimou. Eu falei baixinho, como se ele pudesse me ouvir do outro lado da cidade. — Mãe tá aqui. E foi aí que eu entendi: esse papel não era só uma ameaça. Era um aviso. Porque se a polícia sabe, se alguém deixou isso cair... se isso chegou na minha mão... Então alguém quer que eu saiba que meu segredo não é mais meu, é quando segredo vira público, o morro inteiro sente o impacto. Eu respirei fundo, limpei o rosto com raiva, e sorri, não de felicidade. De decisão. — Tá bom — eu sussurrei. — Vocês querem me usar? Querem me provocar? Eu bati de leve no dossiê com o dedo. — Vocês escolheram a mulher errada. E, naquela madrugada, sem fogos, sem tiros, sem música... começou a minha guerra de verdade.
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