Pré-visualização gratuita 1. Morena
Eu descobri que eu virei documento antes de virar lenda.
Foi numa madrugada dessas em que o morro não dorme, só cochila com um olho aberto. A rua tava com aquele cheiro de chuva velha misturado com fritura de bar e perfume barato. Eu tava de chinelo, short e paciência curta, porque minha paciência é que nem crédito em celular pré-pago: dura pouco e acaba do nada.
Aí o moleque apareceu.
Não vou dizer o nome dele aqui porque menino esperto que se mete onde não deve merece um apelido melhor, mas vou chamar de Tico, que é curto, feio e discreto, igual ele tentando ser.
Tico veio com a cara de quem viu assombração e decidiu negociar com ela.
— Morena... — ele falou baixinho, como se o morro tivesse ouvido absoluto. — Tem um bagulho pra tu.
— Se for áudio de vinte minuto eu te dou um tapa na testa e te boto pra trabalhar, Tico.
Ele engoliu seco e estendeu um envelope amassado, sujo de poeira, como se tivesse sido puxado do inferno pelo canto.
Eu peguei com dois dedos, tipo quem pega coisa suspeita no chão.
— Isso aqui é o quê? Conta de luz?
— Não... é... é da polícia.
Eu dei uma risada que saiu sem autorização.
— Da polícia? E tu tá vivo por quê?
— Eu não roubei, não! Eu... eu achei. Na confusão lá embaixo. Um cara deixou cair.
"Confusão lá embaixo" no nosso vocabulário é muita coisa: pode ser briga de bar, pode ser operação, pode ser só um PM tropeçando no próprio ego. Mas a palavra polícia tem um jeito especial de deixar o ar mais pesado.
Eu olhei o envelope. Não tinha selo, não tinha nome, só um carimbo meio torto e uma tarja preta como se alguém tivesse tentado esconder a própria vergonha.
— Tu achou... ou tu meteu a mão?
Ele fez cara de santo, mas santo no morro geralmente é só enfeite na parede.
— Achei, juro.
Eu respirei fundo, botei o envelope embaixo do braço e olhei pra ele.
— Vai embora. E se alguém perguntar, tu tava comigo carregando caixa de refrigerante. Entendeu?
— Mas eu não tava—
— Entendeu, Tico. Vai.
Ele foi. Correu bonito. Quando a pessoa aprende cedo que a vida é rápida, corre melhor.
Eu fiquei ali, no meio da viela, ouvindo o som da comunidade: uma moto passando devagar, uma música estourada numa caixa de som, risada longe, cachorro latindo pra nada. O morro sempre tem barulho de vida, mesmo quando a morte tá rondando.
Eu subi pro meu barraco e fui pro meu quartinho arrumado do meu jeito: uma cama bem feita (porque eu gosto de ordem), uma penteadeira cheia de coisa cara e barata misturada (porque eu não sou b***a), uma imagem de Nossa Senhora do lado de um batom vermelho (porque fé e vaidade podem morar juntas, sim).
Eu sentei na cama e abri o envelope.
E lá tava.
POLÍCIA CIVIL DO ESTADO — DEPARTAMENTO DE INTELIGÊNCIA
DOCUMENTO CONFIDENCIAL — ACESSO RESTRITO
Eu li e ri de novo. Porque "acesso restrito" no Rio é piada pronta. O que é restrito só é mais caro. Aí eu vi meu nome.
ALVO: MORENA
VULGO: Criminosa
STATUS: ATIVA — ALTA PERICULOSIDADE
Eu encostei a folha no peito, fingindo ofensa.
— Alta periculosidade é a tua mãe, querido.
Mas a risada morre rápido quando a gente continua lendo.
Porque ali, naquele papel, eu não era gente. Eu era alvo. Eu era ameaça. Eu era um resumo sem alma escrito por alguém que acha que entende a favela porque viu de longe, pela mira.
Eu fui passando o olho, e cada linha era um tapa educado.
"Personalidade dominante, confrontacional e debochada."
— Amei. Me descreveu igual horóscopo.
"Não demonstra medo de figuras de autoridade."
— E era pra demonstrar? Eu pago boleto igual.
"Forte liderança sobre outras mulheres da comunidade."
Aí eu parei. Essa parte me pegou num lugar que eu não gosto de mostrar.
Porque sim. Eu tenho moral. Eu não sou enfeite no braço de homem nenhum. Eu não sou "a amante do chefe". Eu sou a pessoa que outras mulheres procuram quando o marido bate, quando a polícia humilha, quando o filho some, quando a luz cortou e a criança tá com febre.
E isso não entra em dossiê.
No dossiê, eu sou só a vilã com delineado perfeito.
Eu continuei lendo, com o estômago virando um pouco. Cheguei na parte do envolvimento íntimo com o líder.
Eles escrevem isso com uma frieza... como se minha cama fosse uma extensão do mapa do crime. Como se eu fosse só um corredor entre a boca e o coração do morro.
Eu respirei e virei a página.
E aí veio.
FILHO
Eu juro que por um segundo eu não senti o morro. Não senti o barulho, não senti nada. Só senti a palavra pulando pra fora do papel e me acertando na cara.
Meu dedo tremeu. Eu apertei forte, como se amassar papel amassasse passado.
Aquele documento dizia, com letras limpas, aquilo que eu passo anos tentando manter sujo, escondido, enterrado:
Que eu tenho um filho.
Que eu não vejo meu filho.
Que meu filho foi arrancado de mim com uma caneta e um sorriso de gente "de bem".
Eu senti a garganta fechar, mas eu não chorei.
Eu não choro fácil. Não porque eu sou de ferro, eu sou de carne, sim, e às vezes dói até respirar. Mas eu aprendi cedo que chorar no lugar errado vira diversão pros outros.
Eu li a parte da guarda unilateral. Li a justificativa: "ambiente incompatível com o desenvolvimento da criança".
Eu ri. Só que dessa vez não tinha graça.
Ambiente incompatível.
Incompatível é a cara de p*u daquele homem. Incompatível é o jeito que ele me olhou quando tirou meu menino de mim como se estivesse pegando uma mochila esquecida.
Eu fechei o dossiê com um tapa na folha, como se assim eu fechasse também esse buraco que abre em mim toda vez que eu lembro do cheiro do meu filho, do peso dele no meu colo, das mãos pequenas agarrando meu dedo.
Eu fiquei de pé, andando de um lado pro outro no quarto, que nem bicho preso e foi aí que eu ouvi batida na porta.
Três toques.
Eu reconheço o som. Quem bate assim não pede. Anuncia.
— Entra, Fúria — eu gritei, sem tirar o olho da porta.
A porta abriu e ele entrou como se fosse dono do ar.