CAPITULO 1 ANTES DO INFERNO

1738 Palavras
SARA O som do grave batendo nas paredes da boate era a única batida que importava. Se você fechasse os olhos, sentia o concreto do chão vibrar sob as solas dos sapatos, um ritmo que subia pelas pernas, invadia o quadril e explodia no peito. Mas eu não queria fechar os olhos. Eu queria que todos os olhos estivessem em mim. Eu nunca fui de pedir licença. Naquela época, eu era a joia lapidada do Complexo da Muralha. Meu pai, com suas mãos calejadas de tanto carregar saco de cimento na obra, fazia questão que eu não soubesse o que era dificuldade. "Você vai ser doutora, Sara", ele dizia, e eu acreditava. Eu era mimada, sim. Mimada pelo amor dele e pela certeza de que eu era intocável. Eu era a garota prodígio, a estudiosa que passava as tardes entre livros de biologia, mas que nas noites de sexta transformava o asfalto em passarela. Naquela noite, o "Hype" — a boate mais badalada do asfalto, onde o cheiro de perfume importado se misturava ao de energético e gelo seco era o meu reino. Eu estava usando um vestido que era quase um insulto. Uma seda vermelha tão fina que parecia que eu tinha sido pintada. Era curto, curtíssimo, terminando exatamente onde as minhas coxas, firmes de tanto subir ladeira, começavam a se destacar. O decote em "V" ia até quase o umbigo, sustentado por alças que pareciam fios de teia de aranha. Eu sabia que estava provocando. Eu via os olhares dos caras do camarote, via a inveja das meninas na pista, e aquilo me alimentava. Eu me sentia poderosa. Eu me sentia imortal. — Sara, olha ali! O grupo do camarote 5 não para de mandar espumante pra nossa mesa — gritou minha amiga Júlia, tentando ser ouvida acima do remix de funk que estourava nos falantes. Eu dei um sorriso de lado, jogando meu cabelo longo, que batia na cintura, para trás. O brilho do gloss nos meus lábios refletia as luzes estroboscópicas. — Deixa eles mandarem, Juh. Eles pagam o brilho, mas quem escolhe onde ele vai cair sou eu. Eu peguei o copo de cristal, sentindo o gelo estalar. Tomei um gole longo, a queimação do álcool descendo suave, me deixando leve. Eu era a "Doutorinha do Morro", a menina que tinha o futuro garantido na Federal, a virgem que todos queriam ser o primeiro a conquistar. Mas eu não tinha pressa. Eu gostava do jogo. Gostava de dançar até o suor fazer o vestido grudar no meu corpo, evidenciando cada curva que eu cuidava com tanto zelo. Eu fui para o meio da pista. Eu não dançava para ninguém, eu dançava para mim. Meus movimentos eram fluidos, meus pés de salto agulha pareciam nem tocar o chão. Eu girava, sentindo o ar condicionado gelado bater na pele quente. Eu não tinha uma preocupação no mundo. Naquela noite, a maior dúvida da minha vida era se eu ia querer Medicina Intensiva ou Neuro. O resto? O resto era cenário. Eu era arrogante? Talvez. Mas como não ser, quando a vida só te dava sim? Eu não sabia o que era um "não". Eu não sabia o que era dor. Eu não sabia o que era o cheiro de borracha queimada ou o som de ossos partindo. Para mim, a única coisa que podia quebrar naquela noite era o gelo no meu copo. — Vamos embora, Sara? Já tá ficando tarde e o motorista da Uber tá chegando — chamou Marcos, meu vizinho que me protegia como um irmão. Eu bufei, terminando o meu drink. — Só mais uma música, Marcos. O mundo não vai acabar hoje. — Sara, vamos, você já passou da conta! — Marcos segurou meu braço com força, a expressão dele era um misto de preocupação e irritação. — Você tá bêbada, tá cambaleando nesse salto. Se o seu pai sonha que você tá nesse estado, ele infarta. Ele te criou num pedestal, você sabe que pra ele você ainda é aquela menininha que ele precisa proteger de tudo. Eu puxei meu braço com um solavanco, sentindo o sangue ferver. A menção ao meu pai era o único golpe baixo que ele podia usar, mas naquela noite, nem isso me parava. Eu olhei para o Marcos com um desprezo que eu não costumava sentir, mas o álcool e a sensação de onipotência falavam mais alto. — Me solta, Marcos! Que saco, você parece meu carrasco, não meu amigo — disparei, a voz saindo um pouco arrastada, mas carregada de veneno. — Meu pai me ama, ele não me controla. Ele me dá tudo porque ele sabe que eu mereço. E se eu tô bêbada, o problema é meu. O corpo é meu, a noite é minha. Marcos respirou fundo, tentando manter a calma enquanto o som da boate parecia querer rachar o teto. — O seu pai te cria sozinho desde que você deu o primeiro suspiro, Sara! Ele deu a vida por você porque a sua mãe morreu pra te colocar no mundo. Ele não tem mais ninguém, p***a! Se acontece alguma coisa com você, ele morre junto. Tenha um pouco de consideração por quem se mata de trabalhar pra você usar esse vestido que custa o mês dele na obra. Aquelas palavras deveriam ter doído. A história da minha mãe era o fantasma que rondava a nossa casa. Eu nunca conheci o rosto dela, a não ser por fotos amareladas. Ela morreu no parto, me dando a vida em troca da dela, e meu pai nunca me deixou esquecer que eu era o seu único tesouro, o motivo de ele ainda estar de pé. Ele me tratava como porcelana fina porque eu era o pedaço vivo da mulher que ele amou. Mas no meio daquela pista, sob as luzes de neon, eu me sentia grande demais para ser porcelana. Eu queria ser diamante. — Então para de me lembrar disso! — gritei, aproximando meu rosto do dele, sentindo o hálito quente de quem estava na defensiva. — Eu sei da história, eu vivo ela todo dia. Mas eu não sou o fantasma da minha mãe, Marcos. Eu sou a Sara. E a Sara quer dançar. Se você tá com medo, pega o seu Uber e vai embora. Eu não preciso de babá. Eu sou a futura neurocirurgiã, eu sei exatamente o que eu tô fazendo com o meu cérebro e com o meu fígado. Eu dei as costas para ele, ignorando o olhar de decepção que ele me lançou. Eu sabia que estava sendo injusta, sabia que o Marcos era o cara que me defendia dos moleques do morro desde que eu era pequena, mas eu estava sufocada por tanta proteção. Eu queria sentir o perigo, queria sentir que eu podia errar e que o mundo não ia acabar. Voltei para o centro da pista e comecei a descer até o chão, sentindo os olhares de desejo me queimarem. Eu ria sozinha, bebendo o resto do líquido quente no meu copo, desafiando a gravidade e o bom senso. Eu era a rainha daquela zona. Cada movimento meu era calculado para mostrar que eu estava no controle, mesmo que o mundo ao meu redor estivesse começando a girar rápido demais. Marcos ainda estava lá no canto, de braços cruzados, a mandíbula travada. Ele não ia embora sem mim, ele nunca ia. E eu usava isso a meu favor, pisando na lealdade dele como se fosse um tapete vermelho. Eu era c***l porque podia ser. Eu era arrogante porque a vida nunca tinha me dado um soco na cara. — Bebe mais um pouco, Sara! — Júlia apareceu com um shot de tequila, rindo com os olhos brilhando de loucura. — A noite é nossa! — Vira, Sara! Sem fazer careta! — Júlia gritou, empurrando o copinho contra a minha mão. Eu não pensei. Eu simplesmente virei. O líquido desceu queimando tudo, rasgando a garganta e explodindo no estômago como uma granada de euforia. A pista girou. As luzes ficaram mais fortes, as cores se misturaram e a música parecia entrar pelos meus poros. Eu ri alto, uma risada de quem achava que tinha o destino na palma da mão. O tempo virou um borrão. Lembro-me de flashes: eu dançando com um cara cujo rosto eu nem via, Júlia tropeçando em alguém, o som abafado de copos quebrando. Quando finalmente saímos da boate, o ar frio da madrugada me deu um soco. Eu cambaleei no salto agulha, sentindo o asfalto sob os meus pés como se fosse um barco em plena tempestade. Marcos não estava lá. Ele tinha ido embora. Pela primeira vez na vida, a paciência dele tinha estourado. — Aquele... aquele chato foi embora, Juh — eu balbuciei, rindo e me apoiando no ombro dela enquanto subíamos a ladeira que dava acesso à Muralha. O morro estava silencioso, aquele silêncio tenso que precede o amanhecer, quebrado apenas pelos nossos passos desajeitados e as risadinhas contidas. Júlia estava tão r**m quanto eu, o cabelo desgrenhado e a maquiagem borrada. — Sara, fala baixo, p***a! — Júlia sussurrou, olhando para os lados com medo, as mãos tremendo. — A gente tá subindo o morro parecendo duas viciadas. Imagina se o dono do morro, o tal do Golias, pega a gente nesse estado? Dizem que o cara é um monstro, que não tolera bagunça na área dele. Eu parei no meio da subida, soltando um suspiro dramático e revirando os olhos. O álcool me dava uma coragem estúpida, uma audácia que beirava o suicídio. — Ai, Júlia, para de ser medrosa! — falei alto, minha voz ecoando nos becos estreitos. — Golias? Eu nunca nem vi esse cara. Para mim, ele é tipo o Bicho-Papão: só história pra morador dormir cedo. Só ouvi boatos de que ele é um chifrudo amargurado que matou a mulher porque não aguentou o peso dos chifres. Júlia arregalou os olhos, a sobriedade voltando pelo puro pavor. Ela tentou tapar a minha boca com a mão. — Cala a boca, Sara! Você tá louca? Se os vapores ouvem isso, a gente tá morta! — Que morta o quê! — puxei a mão dela, rindo com deboche. — Eu sou a protegida da Muralha. Todo mundo me conhece. O tal do Golias deve estar lá no topo, escondido, cuidando do chifre dele enquanto eu tô aqui, vivendo. Ele que mande em quem tem medo. Eu não tenho patrão.
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