Fiel como um cão a sua dona

1964 Palavras
Era tarde da noite, aproximadamente nove horas, quando meu celular vibrou em uma mensagem enquanto eu me deliciava assistindo mais um episódio da Brooklyn 99 — o sexto episódio do dia, após transmitir os trabalhos pendentes para as pessoas que trabalhavam comigo. Já tinha resolvido alguns antes de ir para a academia e voltar pra casa, deixei o resto com os demais. Com preguiça peguei meu celular e no mesmo instante pausei a série ao ver que se tratava de uma mensagem da Verena: Desculpa não te responder antes... Era a única coisa que ela tinha me enviado e eu não pensei em duas vezes em ligar para a mesma que atendeu a chamada no primeiro toque. — Não me importo que não ou demore para me responder, mas me importo se não estiver bem. — Exclamei ouvindo a sua respiração profunda na linha. — Onde está? — Indaguei levantando-me do sofá com a chave de casa em mãos. — Em casa... — Respondeu-me com a voz rouca e triste. — Estou indo aí, avise os seguranças. — Sai de casa. — Quer algo pra comer ou beber? — Porque está sendo fofo comigo? — Sua pergunta me pegou completamente desprevenido. — Bem, você sabe que eu gosto de você, acredito que isso já é o suficiente pra te tratar com fofura e se preocupar com você o suficiente pra sair de casa a esse horário após ouvir sua voz triste. — Adentrei o carro e cliquei no botão, ligando-o. — Vai querer algo? — Coloquei o carro em movimento. — E se eu engordar? — Murmurou fazendo-me rir. — Eu engordo com você! — Não estava mentindo quando disse aquilo, mesmo após todo o meu trauma com peso. — Sorvete e um whisky. — Me respondeu e eu sorri concordando mesmo sem ela ver. — Estou a caminho, só me aguardar! — Desliguei a chamada e me concentrei totalmente no trânsito. Passei no mercado e comprei o que ela pediu e um fardo de cerveja, mesmo sem saber se ela bebia aquele tipo de bebida alcoólica ou não. Não sabia o que tinha acontecido durante a reunião, mas pela a maneira que ela estava agindo, não ocorreu nada bem, e por mencionar engordar, sabia que haviam falado do seu peso. Com o aviso da minha chegada na entrada do prédio, fui rápido, para não dizer desesperado, pra entrar estacionar meu carro na única vaga livre que encontrei. Joguei meu celular e carteira dentro do bolso da frente da minha blusa de frio e me inclinei para trás pegando as sacolas. Sai do carro e com as chaves na minha mão livre, ativei o alarme do veículo e joguei-as no mesmo lugar que estava meu celular e a carteira. Ergui a cabeça e encontrei a Verena saindo do elevador no mesmo instante. Nossos olhos se encontraram e eu pude ver que seu rosto estava vermelho como se estivesse chorado bastante e só conseguiu parar a pouco tempo. Aproximei-me dela e me surpreendi quando ela segurou meu ombro e deu impulso pra cima. Rapidamente envolvi sua b***a com a minha mão livre enquanto ela em abraçava com força e entrelaçava suas pernas em meu quadril. Só espero que não tenha ninguém da empresa nesse prédio. Não falei absolutamente nada enquanto caminhava até o elevador. Dentro dele, cliquei para ir no andar em que ela morava, e por alguns segundos pensei que ninguém iria solicitar o elevador, mas me enganei profundamente, o mesmo parou três vezes e todas as pessoas que entraram olharam surpreso em nossa direção. As portas se abriram e eu sai indo em direção ao número do seu apartamento. Não fazia a mínima ideia de qual era a senha e nem sabia se ela tinha trazido o seu cartão. — Senha, minha Afrodite. — Murmurei. — 0606... — Respondeu-me com a voz rouca e eu digitei escutando o cliquei da porta se destrancando. Era uma coincidência ou não, mas a sua senha é o mesmo dia e mês que comecei a trabalhar na empresa, exatamente no dia seis de junho. Entrei em seu apartamento e retirei meu tênis, ficando apenas de meia. Coloquei as sacolas em cima da bancada que dividia a sala da cozinha, e com cuidado, sentei-me no sofá com a Verena ainda em meu colo. Tirei minha carteira, as chaves e meu celular do bolso, pousando-os ao meu lado no sofá. Suspirei retirando a sapatilha que usava, colocando no chão próximo do sofá, antes de envolvê-la em um abraço na mesma intensidade que ela me envolvia. Ficamos naquela posição por longos minutos até que ela finalmente resolveu se afastar me permitindo olhar com mais atenção seu rosto. Queria tanto que esse nosso relacionamento não fosse secreto, pois assim eu teria a liberdade pra ir atrás das pessoas que a fizeram chorar. Arrancar unha, por unha de cada mão e pé da pessoa, até ela implorar por piedade. — Desculpa, eu sou pesada. — Tentou sair do meu colo, mas no mesmo instante segurei a sua coxa mantendo-a firme em meu colo. — Ares! — Quem falou que você é pesada ou gorda? — Devia ter pensado duas vezes antes de tocar no assunto com direto, ainda mais olhando fixamente em seus olhos. — N-Não... Ninguém... — Desviou o olhar dos meus. — Você não é pesada! — Olhei para o seu corpo. — Muito menos gorda! — Verena não era magra, mas também não era gorda, era o famoso meio termo com o corpo cheio de curvas e carne o suficiente para que minha mão pudesse apertar sem problemas. — V-Você acha? — Olhou para o seu corpo e eu concordei. — Pego o dobro do seu peso na academia todos os dias quando saio do trabalho. — Seus olhos se arregalaram e eu soltei uma risada baixa concordando. — Quem te chamou de gorda? Quero nomes! — Eu não sei o nome deles... Hoje foi a primeira vez que vi eles nas reuniões. — Suspirou e eu concordei enquanto tirava a Verena do meu colo e me surpreendi ao ver que meu p4u não estava duro. “Parece que terei que fazer minhas pesquisas para resolver esse problema”, pensei caminhando em direção as sacolas com o que eu havia comprado. Coloquei na mesa de centro me sentando ao lado daquela maravilhosa mulher que não hesitou em pegar a garrafa de whisky e a abrir. — Sabe, eu tenho fobia social e um baita medo de falar em públicos... — Ela começou a falar e eu me mantive quieto e calado enquanto ela dava um longo gole na bebida pelo o gargalo mesmo. — É irônico ser a herdeira de um império de cosméticos e ter essa fobia e esse medo i****a, mas devo ressaltar que noventa e nove porcento é culpa da minha mãe, do meu pai e da minha falecia avó. — Entregou-me a garrafa. — Eles não facilitaram a minha criação! Peguei a garrafa percebendo que ela não esperava que eu contasse algo pra ela a respeito de mim ou da minha criação enquanto pegava os doces que havia comprado, mas ela revelou algo e é justo que eu revele algo também a ela. — Eu sempre fui uma sombra dos meus pais. — Ela me olhou antes de encostar o rosto no encosto do sofá com um pacote de jujuba em mãos. — Eles não me criaram pra ser eu mesmo, pra crescer e ter minha própria identidade, pensamentos e assim em diante. — Sorri triste. — Eles me criaram para que eu fosse uma cópia deles e repetissem o que fizeram no passado e assim em diante. Acho que isso me fez e me faz ter um conflito de personalidade ao decorrer dos anos. — Por isso que você foi pra mesma empresa que eles trabalharam por anos? — Indagou e eu concordei, soltando um breve suspiro. — Tinha acabado de sair da faculdade, estava desempregado e eles não paravam de me culpar e me chamar de inútil por causa disso, e eu não queria decepcionar eles... — Dei três longos goles. — Se arrepende de ter entrado na empresa? Olhei-a intensamente e tive que arquear minha sobrancelha debochando da sua pergunta. — Não me arrependo nenhum pouco, se eu pudesse, repetiria o mesmo erro apenas para te conhecer e me apaixonar por você novamente. — Entreguei a garrafa pra ela. — Vai sair com a Jennifer? — Desviou seus olhos de mim enquanto dava outro gole na garrafa. — Por que a pergunta? — Porque se você quiser sair com ela não tem problemas... — Me olhou rapidamente e eu tive que revirar os olhos. — Ela é bonita, inteligente e essas coisas, mas não, não irei sair com ela. — Seus olhos se viraram pra mim surpresos. — Porque? — Ergueu o dedo antes que eu pudesse responder. — Deixa eu adivinhar, você foi adestrado pra ser fiel também? — Bingo! — Ela riu e eu me deliciei com o som. — Vai ser fiel a mim então? — Arqueou uma sobrancelha brincalhona. — Da mesma maneira que um cão é fiel a sua dona. — Encarei-a intensamente e pude ver seu rosto corar. Depois de confessarmos apenas uma coisa de nossas vidas e dela ter a confirmação de que não iria sair com a Jennifer, não mencionamos em absolutamente nada de nossos passados nada felizes, apenas ficamos comendo o que comprei, bebemos todo o whisky e as cervejas. ••• Não fazia a mínima ideia de quando adormeci, mas acordei no dia seguinte com a claridade em meu rosto, deitado no chão com a Verena, também adormecida, em meus braços. Podia ter sido tudo que bebemos ou também por que a conversa estava tão tranquila e gostosa que relaxou a gente ao máximo. Não fazia a mínima ideia de que horas era, mas a julgar a cor laranjada das nuvens no céu, o dia ainda estava amanhecendo. Inspirei fundo o cheiro de pêssego que emanava dos cabelos da Verena antes de a envolver com meu outro braço, abraçando-a e a puxando pra mais perto de mim, arrancando um breve resmungo dela. — Eu tenho que ir pra casa. — Murmurei com a voz rouca vendo a cabeça dela se erguer de súbito e olhar para a janela. — Droga, quando foi que dormirmos? Ainda mais no chão assim. — Sentei-me dando de ombros. Aquilo seria um mistério pra nós dois por toda a nossa vida. — Não quer banhar antes de ir não? — Indagou assim que eu me levantei e me espreguicei, sentindo meu corpo todo tenso e um pouco dolorido. — Por mais que eu goste do seu cheiro, não seria o ideal de aparecer na empresa com o mesmo cheiro que você. — Encarei-a vendo a sua cabeça se mover de um lado para o outro. — Tem razão. — Levantou-se e me olhou atentamente antes de olhar para o lado e abrir os lábios, porém ela não falou nada. — Verena, diga o que quer falar. — Aproximei-me dela, puxando para mais perto de mim. — Obrigada por ter vindo até a mim no meio da noite após ouvir a minha voz. — Murmurou abraçando a minha cintura. “Sou capaz de matar alguém por você”, pensei e optei em deixar no pensamento mesmo. — Não precisa me agradecer. — Retribui o abraço e fechei os olhos, inspirando fundo. — E não se esqueça que você não é gorda e muito menos pesada, você, Verena, é maravilhosa! — Ela riu. — Manterei isso em mente. — Sorri inconscientemente depositando um selar no topo de sua cabeça. — Boa garota... — Sussurrei próximo de seu ouvido, vendo os pelos do seu braço se arrepiarem.
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