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Olívia
Dizem que todo homem tem seu preço, mas ninguém avisa que a pobreza reduz o seu a quase nada.
Três semanas atrás, se alguém me dissesse que eu aceitaria vender minha liberdade em um contrato de exclusividade para os dois homens mais perigosamente atraentes da cidade, eu teria rido. Mas o riso é um luxo de quem não tem uma pilha de avisos de despejo na mesa da cozinha e uma linha de crédito cortada. Eu não precisava apenas de um emprego; eu precisava de um milagre. Descobri bem cedo que as contas não se pegam sozinhas e que comida na mesa querer muito esforço.
E ali estava eu, prestes a assinar com os próprios demônios de terno sob medida.
Alisei minha saia lápis preta, adquirida em um brechô, pela décima vez, sentindo o tecido um pouco gasto sob meus dedos frios. O saguão monumental da King Holdings parecia projetado especificamente para fazer pessoas comuns como eu se sentirem insignificantes. O chão de mármore carrara brilhava tanto que refletia meu próprio reflexo tenso, e o teto alto, sustentado por pilares imponentes, ecoava o som dos meus saltos agulha baratos a cada passo. Todos os funcionários que passavam por mim pareciam saídos de uma revista de alta costura. Eu era um peixe fora d'água, e o oxigênio estava acabando.
Estava na Cara que eu no me enquadrava nesse lugar. Talvez seja por isso que eu esteja esperando um milagre. Preciso que o emprego de certo.
— Senhorita Olívia? — a voz da recepcionista da cobertura, uma mulher perfeitamente alinhada e sem um único fio de cabelo fora do lugar, cortou meus pensamentos. — Os irmãos King estão prontos para recebê-la. Pode entrar.
Engoli em seco, sentindo meu coração martelar contra as costelas. Eu achava que seria entrevistada pelo Diretor de Recursos Humanos, mas a ligação que recebi na noite anterior havia sido clara: a vaga era para assistente pessoal da diretoria executiva, e os próprios donos fariam a triagem final.
Me perguntei como competir com pessoas claramente mais refinadas do que eu, ainda mais quando são os próprios donos fazendo a avaliação final. Precisei controlar cada passada, para que meus pés no tropeçassem um no outro.
Aproximei-me das enormes portas duplas de madeira maciça escura. Segurei a maçaneta de metal pesado, respirei fundo e empurrei.
O escritório na cobertura do quadragésimo andar era uma obra-prima de opulência e poder. Uma parede inteira de vidro oferecia uma vista panorâmica e avassaladora de toda a linha do horizonte da cidade, mas o que realmente roubou meu fôlego não foi a paisagem. Foram os dois homens que comandavam aquele império.
Eles eram irmãos, mas a energia que emanavam era o completo oposto. Gelo e fogo.
O engraçado é que eles não precisavam ser apresentados, qualquer pessoa que vive nesse mundo, e talvez até fora dele, sabe quem são os irmãos King.
Atrás da imensa mesa de mogno esquadrinhada, estava Ethan King. O terno cinza-chumbo parecia moldado em seu corpo robusto, a gravata perfeitamente nodosa e os óculos de leitura de armação fina conferiam a ele um ar intelectual, quase c***l. Ele não sorriu. Quando passei pela porta, ele ergueu os olhos de um tom cinza-claro, tão frios e afiados quanto lâminas. Senti um calafrio instantâneo subir pela minha espinha. Aquele homem exalava controle absoluto e implacável.
— Senhorita Olívia. Sente-se, por favor — a voz de Ethan era um barítono calmo, polido, mas que carregava o peso de uma ordem inquestionável.
Antes que eu pudesse dar o primeiro passo, uma movimentação à minha direita chamou minha atenção. Encostado na mesa lateral de vidro, segurando um copo de cristal com dois dedos de uísque — apesar de ainda ser de manhã —, estava Christian King.
Ao contrário do irmão, Christian parecia a própria definição de uma tempestade indomável. As mangas de sua camisa branca estavam dobradas até os antebraços, revelando a pele bronzeada e o vislumbre de uma tatuagem escura que sumia sob o pulso. Ele tinha um sorriso de canto nos lábios, predatório, divertido e intensamente magnético. Seus olhos, mais escuros que os de Ethan, fixaram-se em mim com uma audácia selvagem que me fez queimar por dentro.
Eu estava encurralada entre o homem que parecia querer congelar minha alma e o que parecia pronto para me incendiar.
Caminhei até a cadeira de couro diante da mesa de Ethan, tentando manter minha postura firme e a voz sob controle. Eu não podia demonstrar fraqueza. Não quando o meu futuro dependia de impressioná-los.
— Obrigada pela oportunidade, senhores — eu disse, entregando a pasta com o meu currículo.
Ethan pegou o papel com dedos longos, sem desviar os olhos do meu rosto por um segundo sequer.
Sem que eu me desse conta, jogo havia começado. E eu ainda não tinha ideia de que, naquele tabuleiro, eu já tinha sido escolhida para ser a peça principal.