Pré-visualização gratuita 1. Elisa
O cheiro de terra quente ainda estava no ar quando eu parei perto do poço da fazenda. O balde pesado batia devagar contra a pedra enquanto eu puxava a corda, e minhas mãos já estavam vermelhas de tanto trabalhar naquele dia.
O sol estava se pondo atrás das colinas, deixando tudo dourado.
Era a hora que a fazenda ficava mais bonita e também a hora que eu mais corria perigo.
Eu olhei por cima do ombro, me certificando de que ninguém estava por perto.
Meu pai ainda devia estar no curral com os outros homens, e a casa grande ficava longe o suficiente para ninguém ver o que acontecia ali atrás do estábulo.
Mesmo assim, meu coração estava batendo rápido.
Porque eu sabia que ele vinha.
Era sempre nessa hora.
O som dos cascos do cavalo apareceu primeiro.
Lento. Pesado. Familiar.
Meu estômago deu aquele frio estranho que sempre aparecia quando eu sabia que Vicente estava perto.
Eu tentei fingir que estava ocupada, puxando o balde com mais força, mas já era tarde.
— Você tá me evitando agora, Elisa?
A voz dele veio atrás de mim, baixa e divertida.
Eu fechei os olhos por um segundo antes de virar.
Vicente Montenegro estava parado a poucos metros, ainda montado no cavalo preto da família. O sol atrás dele fazia o cabelo castanho parecer mais claro, e a camisa branca dele estava aberta no pescoço, grudada no peito por causa do calor.
Ele parecia completamente à vontade.
Como sempre.
Como se aquela fazenda inteira não fosse dele.
Como se eu não fosse o maior erro que ele podia cometer.
— Eu tô trabalhando — respondi, tentando parecer irritada.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Engraçado.
Desceu do cavalo com um pulo fácil e começou a caminhar na minha direção.
— Porque toda vez que eu venho aqui... você também tá.
Meu rosto esquentou na mesma hora.
— Isso aqui é meu trabalho, Vicente.
Ele parou bem na minha frente.
Perto demais.
Eu conseguia sentir o cheiro dele: sol, couro e cavalo.
— Então é coincidência? — ele perguntou.
Eu tentei olhar para qualquer coisa que não fosse os olhos escuros dele.
— Você devia ir embora.
— Por quê?
Meu coração disparou quando ele deu mais um passo. Agora não tinha mais espaço entre nós.
— Porque... — minha voz saiu mais fraca do que eu queria — se alguém vê a gente...
Vicente soltou uma risada baixa.
— Você sempre fala isso.
— Porque é verdade.
Ele inclinou um pouco a cabeça, me observando como se estivesse tentando entender alguma coisa.
Então a mão dele subiu devagar até meu rosto.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Elisa — ele murmurou.
Eu devia me afastar.
Devia lembrar que ele era o filho do dono da fazenda e eu era só a filha de um empregado.
Devia lembrar de todas as histórias que já tinham terminado m*l daquele mesmo jeito.
Mas quando os dedos dele tocaram meu queixo e levantaram meu rosto...
Eu esqueci de tudo.
— Diz que você não quer — ele falou, a voz baixa.
Eu sabia o que ele queria dizer.
Sabia o que ele estava me pedindo.
Meu coração batia tão forte que parecia que ele podia ouvir.
— A gente não devia... — tentei dizer.
Mas Vicente já estava sorrindo daquele jeito que sempre desmontava qualquer defesa que eu tentasse ter.
— Você nunca termina essa frase.
Antes que eu pudesse responder, a mão dele deslizou para minha cintura.
E quando ele me puxou para perto...
Eu não resisti.
O beijo veio quente, urgente, como se nós dois já soubéssemos que aquilo era errado demais para durar.
Minhas mãos agarraram a camisa dele sem que eu percebesse. Quando ele se afastou, eu estava sem ar e completamente perdida.
— Isso vai dar problema — eu sussurrei.
Vicente passou o polegar devagar pela minha bochecha, afastando uma mecha de cabelo.
O olhar dele estava diferente agora.
Mais sério.
— Então deixa dar.
Meu estômago apertou.
— Você fala isso porque não é você que vai ouvir seu pai.
Por um segundo, o sorriso dele sumiu.
Vicente respirou fundo e aproximou o rosto do meu.
— Elisa... — a voz dele saiu firme. — Eu não ligo pro que meu pai pensa.
Eu queria acreditar de verdade. Mas todo mundo naquela região sabia de uma coisa: quando Augusto Montenegro decidia algo...
Nem o próprio filho tinha coragem de ir contra.
(…)
O sol já tinha se posto completamente, e a luz do lampião pendurado na viga do celeiro criava sombras que dançavam nas paredes de madeira. O cheiro do feno seco misturava-se ao suor da lida e ao perfume doce e almiscarado do cavalo de Vicente, que batia o casco de vez em quando no fundo da baia, alheio ao que estava prestes a se desenrolar.
Eu não sabia dizer como tinha ido parar ali.
Uma hora eu estava puxando água do poço, com o coração na boca depois do beijo roubado atrás do estábulo. Na seguinte, Vicente segurava minha mão e me guiava para dentro da penumbra quente do celeiro, com a desculpa esfarrapada de que precisava verificar o arreio novo.
— Aqui ninguém vem a essa hora — ele murmurou, a voz um pouco mais rouca do que antes.
O Vicente seguro de sempre parecia ter sumido. Agora, ele me olhava com uma expressão que eu nunca tinha visto. Uma mistura de medo e desejo que, eu suspeitava, estava estampada também no meu rosto.
— Vicente... — comecei, mas minha voz morreu na garganta quando ele se virou para mim.
Ele estava perto. Muito perto. Seu peito quase tocava o meu, e eu podia sentir o calor que irradiava do seu corpo. As mãos dele, que antes guiavam cavalos com tanta segurança, pairaram no ar perto dos meus braços, como se ele tivesse medo de tocar.
— Você já fez isso antes? — a pergunta saiu num sopro, tão baixa que por pouco não foi engolida pelo rangido do celeiro.
Eu neguei com a cabeça, sentindo o rosto queimar. O orgulho ferido doeu por um segundo, mas o medo nos olhos dele me fez perceber que não estava sozinha naquela insegurança.
Ele engoliu em seco, o pomo-de-adão subindo e descendo.
— Nem eu.