Alessandro
Uma pirralhazinha tão atrevida. Uma risada baixa e divertida escapa dos meus lábios no exato momento em que as portas de metal cravejado do elevador se fecham com um baque suave. Aperto o botão para o décimo andar e, enquanto a máquina sobe silenciosamente, a voz dela ainda ecoa na minha cabeça — carregada de sarcasmo mordaz e uma audácia absurda.
A lembrança me faz sorrir.
Ainda posso ver os olhos dela — uma fusão hipnotizante de castanho e avelã — brilhando com desafio enquanto ela se mantinha firme diante de mim. Quem é ela?, pergunto-me, intrigado.
Ela é linda, sem dúvida. Os cabelos negros, grossos, presos em um r**o de cavalo; as maçãs do rosto altas, esculpidas como mármore; e a pele, tão pálida e suave que parecia feita de porcelana sob as luzes do prédio. Mas o que realmente me surpreendeu foi a ousadia.
A maioria das pessoas não ousaria me enfrentar daquele jeito. Mas havia algo nela — no jeito como falava, no tom despreocupado — que deixava claro que ela não dava a mínima para quem eu era. Na verdade, quase parecia que ela sabia exatamente quem eu era... e me desprezava por isso. O que, de maneira curiosa, só me fez sorrir ainda mais.
Normalmente, eu não permitiria que alguém falasse comigo assim sem sofrer as consequências. Mas hoje... digamos que estou de bom humor.
O barulho suave do elevador me arranca dos devaneios. As portas se abrem, revelando um saguão luxuoso. Lustres cintilantes lançam luz sobre o mármore impecavelmente polido, refletindo como espelhos. Uma música instrumental ecoa suavemente de algum lugar à frente.
Caminho pelo piso reluzente, os passos dos meus sapatos ressoando de forma sutil. À esquerda, portas duplas se abrem, oferecendo um vislumbre do mundo de luxo e fingimento do qual eu faço parte — convidados rindo falsamente, brindando com champanhe, como se suas vidas não estivessem se desintegrando por dentro.
Dou um leve ajuste no paletó e sigo em direção ao salão.
É extravagante. Como esperado. Cores vibrantes, luzes quentes, sorrisos falsos. Uma festa de aparências, de status ostentado com orgulho. Eu odeio esse tipo de evento.
É um poço de falsidade, onde as palavras gentis escondem punhais e a inveja dança entre brindes vazios. Mas, com o tempo, aprendi a navegar por isso. Minha fortuna, minhas conexões e — mais importante — meus laços com o submundo me ensinaram que festas como essa são armas. Ferramentas. Iscas.
E é exatamente por isso que estou aqui hoje.
Meus olhos percorrem a multidão enquanto um garçom passa com uma bandeja de taças. Pego uma. O champanhe borbulha contra os meus lábios enquanto observo... e o encontro não demora.
No centro da sala, junto a um piano de cauda, James Rodriguez faz seu teatro, cercado por quatro homens. Vestido com aquele terno escuro e caro que ele acha que mascara sua alma barata. Ele ri de algo, e uma onda de raiva me atinge com força. Aquele verme só está aqui por minha causa.
Me aproximo, sentindo alguns olhares acompanharem meus passos.
— Alessandro Salvatore — ele diz, tentando soar casual, a voz rouca como óleo queimado. — Não esperava te ver em um desses eventos.
Sorrio, mas sem calor.
— James Rodriguez . Não esperava que tivesse a coragem de me enganar. Especialmente depois do ano passado.
Ele força um sorriso. Convencido. Arrogante. Falso.
— Você não pode ficar preso ao passado, Alessandro. Claro, você me ajudou. Mas eram apenas negócios. Dias difíceis... eles vêm e vão.
— Eu salvei sua família da ruína — digo, aproximando-me até meu rosto estar a centímetros do dele. — E você teve a audácia de agir fora do nosso acordo nas minhas costas. Como um rato.
— Você investe apenas no que lhe serve a longo prazo. Não se faça de perseguido.
Ele tenta manter o tom, mas seu corpo o trai. Os ombros tensos, o olhar hesitante.
Pressiono sua clavícula com força, os dedos se enterrando no tecido de seu smoking.
— Você devia saber melhor do que brincar comigo, James . Eu te construí. E posso te destruir. Você sabe disso. Sabe exatamente do que sou capaz.
— O novo contrato já está em vigor. Não há nada que você possa fazer.
Rio. Ah, se ele soubesse.
Aperto mais, e vejo o medo piscar em seus olhos.
— Você tem até o fim da semana — murmuro, venenoso. — Ou vai implorar pra morrer.
Ele tenta manter a pose, mas o suor na testa o entrega. E então, com um sorrisinho desafiador, cospe:
— Faça o seu pior. Eu não vou recuar.
— Ótimo — respondo, recuando com um sorriso de predador. — Eu prefiro assim.
Viro-me para sair e então... meus olhos encontram Mateo. Ao lado dele, está ela.
Meu mundo para por um segundo.
Ela cresceu. Mas aqueles traços... são inconfundíveis. Madisson Bianchi. A irmãzinha de Mateo. A pequena Maddie.
Eu rio, surpreso.
A última vez que a vi, ela tinha cinco anos, correndo atrás de nós com laços no cabelo e vestidos rodados. Agora... agora ela é uma mulher feita. Vestido justo, curvas perigosas, cabelo n***o e sedoso até a cintura. Um anjo com olhos de tentação.
E está ali. Rindo polidamente. Com John García ao lado — a mão dele em sua cintura.
Algo dentro de mim se contrai. O toque dele parece deslocado, quase incômodo. O sorriso dela não combina com os olhos. Ela está entediada. Desconectada. E ele... ele não tem a menor ideia da joia que está ao lado.
Se eu tivesse uma mulher como Maddie...
Mas não. Não é isso. Não ainda. Ainda é cedo. Ainda é um jogo.
Nossos olhares se encontram.
O tempo congela.
Ela me reconhece. Ou, pelo menos, sente algo. Os olhos se arregalam, mas ela não desvia. Pelo contrário. Sustenta. Um brilho aparece ali — feroz, curioso, desafiador. Como se dissesse: eu não vou recuar.
Meu corpo inteiro responde a isso.
E é então que percebo: Madisson pode ser a chave. A peça perfeita no tabuleiro da minha vingança. E eu vou usá-la. Até Mateo cair de joelhos diante de mim.