Pré-visualização gratuita Capítulo 1 — O Homem dos Mapas
Madalena caminhava apressada em direção à biblioteca da universidade. Precisava com urgência de material para o seminário daquela semana — e o tempo estava curto demais para continuar improvisando.
Desde o terceiro período, Mada vinha sobrevivendo à faculdade do jeito que podia: resumos rápidos, pesquisas feitas às pressas e leituras incompletas. Às vezes, conseguia se aprofundar um pouco nos livros da Editora Mouras, mas sempre escondida. Se fosse pega por Fagundes lendo o acervo fora do horário de trabalho, podia dar adeus ao estágio.
Mesmo assim, ela arriscava.
Aproveitava o horário do almoço para escapar e se esconder no depósito, entre caixas recém-chegadas e pilhas de exemplares antigos. Ali, longe dos olhos atentos e da rotina barulhenta do escritório, ela conseguia finalmente respirar. E ler.
Literatura inglesa, italiana e francesa eram seus grandes refúgios. Obras que faziam seus olhos brilharem e a mente viajar, mesmo quando o corpo já estava exausto.
Mas, naquela semana, não haveria escapatória.
A editora estava em ritmo frenético: novos autores, apresentações de originais, lançamentos e reuniões intermináveis. Não haveria tempo para escapadas no depósito, pesquisas soltas ou resenhas improvisadas. E ela simplesmente não podia falhar no seminário.
Por isso, decidiu enfrentar a biblioteca da universidade.
No instante em que cruzou a porta de entrada, soube que deveria ter ido antes. O lugar parecia pertencer a outro mundo.
Assim que concluiu sua inscrição, a moça do balcão a alertou com tom solene:
— Atrasos geram multa. Se acumular pendências, pode ficar mais de três meses impedida de retirar livros.
Mada assentiu, concordando prontamente enquanto recebia o crachá em mãos.
Estudante de Literatura
Madalena Simões
Ela olhou para o cartão, encantada. Tinha até sua foto. Mas logo perdeu o interesse pela imagem pequena e sem graça; afinal, quem se importaria com uma foto de crachá estando diante de um templo daqueles?
A biblioteca era monumental. Dois andares de pé-direito alto, fileiras infinitas de estantes, corredores intermináveis e um silêncio tão denso e acolhedor que parecia abraçar quem entrava.
Uma bibliotecária caminhava entre as alamedas de livros, orientando os estudantes em tom brando, mas firme:
— Proibido consumir alimentos. Telefones desligados. E mantenham o silêncio, por favor.
Madalena sorriu para si mesma. Conhecia de cor aquele ritual. Na Editora Mouras havia um espaço semelhante dedicado a leitores, autores e autógrafos. Mas ali era diferente. Ali, o conhecimento parecia maior, mais solene, mais bonito.
O espaço de estudo era impressionante: sofás macios, mesas de madeira, cadeiras confortáveis e um piso acarpetado que abafava qualquer passo. Cantos de leitura espalhados por toda parte, como se aquele prédio inteiro tivesse sido projetado com o único propósito de acolher quem ama as palavras.
A funcionária a guiou até um dos terminais de consulta.
— É só digitar o nome do livro ou do autor. O sistema vai gerar um código de localização. Você anota o número e busca na estante correspondente.
Madalena já conhecia bem o sistema decimal de classificação, mas deixou a moça terminar. Não queria parecer arrogante ao mencionar que trabalhava em uma editora há quase quatro anos. Era estagiária, sim, mas fazia de tudo um pouco por lá.
Quando a bibliotecária se afastou para organizar uma pilha de devoluções, Madalena ficou finalmente sozinha.
Sozinha naquele paraíso.
Caminhou sem pressa entre as estantes, deslizando as pontas dos dedos pelas lombadas de pano e couro, sentindo as texturas, observando os códigos e os nomes gravados em dourado. Respirava fundo o cheiro de papel e tempo, como se estivesse explorando um solo sagrado.
Até que, sem perceber, dobrou uma esquina e pisou em uma seção diferente.
Mapas.
Geografia. Geologia. Oceanografia.
Aquele corredor parecia ainda mais calmo. Em uma das mesas grandes de madeira, alguns estudantes inclinavam-se sobre folhas enormes, apontando para detalhes e conversando em sussurros baixos, como se o mundo inteiro estivesse traçado ali sobre a mesa.
Foi então que ela o viu.
Sentado a poucas cadeiras de distância, concentrado, um rapaz folheava um atlas de formato imponente. Ele buscava algo específico. Virava as páginas com um cuidado quase reverente, fazia anotações breves em um bloco de papel e analisava as linhas de contorno do mapa como se decifrasse um código secreto.
Madalena diminuiu os passos.
Sem perceber, deixou-se ficar ali, parada, observando-o por tempo demais.
Ele tinha uma presença marcante. Uma calma firme, quase magnética. Algo nele capturava a atenção sem que precisasse fazer o menor esforço para isso.
E Mada simplesmente se perdeu.
Ficou observando aquele desconhecido de ombros largos e gestos precisos, tentando entender por que alguém conseguiria parecer tão fascinante no mais absoluto silêncio.
Até que, como se sentisse o peso daquele olhar, ele ergueu o rosto.
E seus olhos encontraram os dela.
O coração de Madalena deu um salto brusco no peito e travou.
A sensação imediata foi a de ter sido pega em flagrante. De ter sido descoberta no meio de um segredo.
Desviou o olhar no mesmo instante, pigarreando e fingindo prestar atenção em uma prateleira qualquer ao lado, tentando a todo custo demonstrar naturalidade. Esperou alguns segundos com o peito acelerado até tomar coragem para checar se ele ainda a observava.
Mas ele já tinha abaixado a cabeça, voltando a atenção para os mapas sobre a mesa, como se nada tivesse acontecido.
Incapaz de resistir, Madalena voltou a olhar para ele.
E naquele exato segundo — cercada por livros, mapas antigos e pelo silêncio suspenso da biblioteca —, algo começou a nascer dentro dela.
Algo que ela ainda não sabia dar nome.
Ele abaixou a cabeça e voltou a folhear o livro, como se nada tivesse acontecido.
Madalena sentiu o coração acelerar ainda mais.
Sem saber onde enfiar o rosto, saiu dali depressa e seguiu para a prateleira de Literatura, tentando se convencer de que estava ali apenas por causa do seminário. Apenas isso.
Encontrou três livros, cada um em um corredor diferente. Pegou todos, abraçando-os contra o peito como se aquilo pudesse proteger seu nervosismo, e caminhou até uma mesa de leitura.