Isabela Narrando
Peguei o aparelho e vi a primeira manchete:
“Acidente grave com o CEO do Grupo Montezano deixa mercado em choque.” Logo embaixo, a foto dele. Terno escuro, relógio caríssimo, aquele olhar de quem sabe que o mundo gira na palma da mão.
— Então é esse o tal? — perguntei, rolando a tela. — Não tem cara de rabugento, não.
— É bonito, né? Bonito é apelido, o cara é um gostoso — Kely se jogou ao meu lado, mastigando um biscoito. — Gostoso, rico e quebrado. O combo perfeito pra tu dar um jeito nele, mulher.
Revirei os olhos.
— Para com isso, Kely. Eu vou lá trabalhar, não fazer milagre.
— Tu vai é entrar num campo minado. — ela riu. — Já passaram umas cinco cuidadoras por lá e ele botou todas pra correr. Dizem que ele é impossível, grosso, se acha Deus. A mãe dele que tá desesperada atrás de alguém que não saia chorando da casa dele.
— Ótimo, comecei a semana com tudo. — falei, sarcástica. — Um emprego que pode durar menos que um pote de manteiga aberto fora da geladeira.
— Ah, mas pensa no currículo, mulher. — ela riu, pegando o celular de volta. — Trabalhou com o Davi Montezano! É chique até pra colocar no status do w******p.
Eu dei uma risada sem vontade e puxei o cobertor pra perto, mas a Kely não parava de falar.
— Olha isso aqui, Belinha. — ela rolava a tela, empolgada. — Tem foto dele com a esposa, essa tal de Bianca, vish, parece boneca de luxo. Olha o vestido! Deve custar o preço da minha moto.
Peguei o celular de novo e fiquei olhando a imagem. Ele e ela, em algum evento cheio de flashes, ela sorrindo demais, ele com aquele sorriso meio de canto, como se fosse uma pose automática. Tinha alguma coisa estranha naquela foto. Tipo… tudo certo demais. E o olhar dele frio, distante, meio vazio. Não era o tipo de homem que sorria com o corpo, só com o rosto.
— Parece que ele tá cansado até de respirar — comentei.
— Dizem que o acidente foi feio, né? — Kely respondeu, tirando o cigarro do maço. — Ele tava voltando de um bar com os amigos, se achando o rei da pista, e deu r**m. Desde então, o cara virou outro.
— Outro tipo o quê?
— Tipo o inferno em forma de patrão. — ela gargalhou. — A mãe dele já contratou de tudo: cuidadora, enfermeira, fisioterapeuta, acompanhante. Nenhuma durou mais de uma semana. Dizem que ele não deixa ninguém nem chegar perto, vive mandando todo mundo embora.
Suspirei, passando a mão no cabelo.
— Kely, e se eu não der conta?
— Tu dá. — ela respondeu sem hesitar. — Tu tem paciência e já entende um pouco da área, né? Fez Fisio, lembra? Isso pode até ajudar.
— É, até lembro… — murmurei. — Mas uma coisa é atender paciente em estágio, outra é lidar com bilionário quebrado que acha que o mundo deve continuar girando em volta dele.
— Pois é — ela sorriu de canto. — E adivinha quem vai fazer o mundo dele girar de novo?
Joguei uma almofada nela.
— Kely, tu é doida.
— Sou, mas sou doida útil. — ela levantou, pegando o celular. — Já mandei teu nome e teu contato pra mãe dele. Se ela gostar, tu vai fazer a entrevista lá na mansão dos Montezano. É coisa grande, tipo filme.
— Mansão… — repeti, sentindo o peso da palavra. — Kely, e se eu chegar lá e parecer uma mendiga? Eu só tenho uma calça jeans boa e uma blusa que não desbota.
— Tu vai pegar uma roupa minha, arrumar o cabelo e bota fé. O resto é carisma.
Ela falava com tanta certeza que parecia fácil. Mas dentro de mim, o medo já tinha aberto espaço.
Eu não sabia o que me esperava, só sabia que não podia recusar.
— Tá, mas e se ele não gostar de mim?
— Acho impossível alguém não gostar de você. Eu nunca tive reclamação de você em todos os lugares que te coloquei — ela respondeu rindo. — Mas, mulher, escuta o que eu tô te dizendo: esse homem vai precisar de alguém que não trate ele como um monstro, e tu tem esse dom de olhar pros outros com humanidade. Vai ser tua chance, Belinha.
Eu fiquei quieta, observando a tela do celular ainda aberta na foto dele, Davi Montezano. O homem que mandava e o mundo obedecia. Agora preso numa cadeira, cercado de gente que o temia e de uma mulher que só parecia amar o sobrenome. E eu ali, no meu colchão murcho, prestes a entrar num universo que não fazia ideia de como funcionava.
Talvez a vida estivesse brincando comigo de novo.
Ou talvez, dessa vez, ela tivesse preparando a maior virada da minha história.