Capítulo 2

741 Palavras
Eu não deveria estar aqui. Essa frase ecoava na minha mente enquanto segurava a pequena xícara de café, quente demais para as minhas mãos frias. Eu estava parada no corredor, diante da porta do porão, e o coração batia tão forte que parecia querer despencar do peito. Era madrugada. Minha mãe dormia — ou fingia dormir, já que ela sempre parecia saber mais do que demonstrava. O resto da casa estava mergulhado em silêncio. Apenas eu, a porta e aquele café fumegante. Não havia motivo algum para aquilo. Eu poderia ter bebido sozinha. Poderia ter deixado sobre a pia, fingindo que nunca pensei nele. Mas a verdade é que pensei. E pensar já era perigoso demais. Inspirei fundo. O cheiro amargo do café se misturava ao da madeira velha, ao mofo impregnado que vinha das frestas da porta. Tive a sensação de que ele me observava dali de dentro, mesmo sem estar presente. Aidan sempre me dava essa impressão: a de que via mais do que deixava transparecer. Deixei a xícara no degrau, recuando rápido, como se tivesse acabado de cometer um crime. Subi as escadas em silêncio, o coração ainda acelerado. Na manhã seguinte, quando passei pelo corredor, a xícara já não estava lá. No lugar dela, repousava um guardanapo dobrado. Tremi antes de abrir. “Obrigado.” Só isso. Uma palavra seca, escrita em letras firmes e inclinadas. Mas, para mim, foi como se ele tivesse me entregado um segredo. Sorri sozinha. Talvez pela primeira vez em muito tempo. Os dias seguintes se tornaram um jogo silencioso. Eu deixava café, às vezes chá. Ele respondia com bilhetes curtos. “Está frio hoje.” “Não precisa.” “Bom.” Nunca mais que duas ou três palavras, mas sempre suficientes para manter meu coração em desordem. Cada resposta era como um sopro de ar em meio ao sufoco da minha vida. Minha mãe não percebia nada. Continuava sua rotina de críticas veladas, de olhares que me reduziam. Dizia que eu não deveria me vestir de determinadas formas, que não deveria rir alto, que deveria “me comportar como uma garota decente”. Decência. Silêncio. Castigo. Ela nunca percebeu o quanto suas palavras me esvaziavam. Ou, talvez, sempre soube e simplesmente gostava disso. Mas os bilhetes de Aidan me enchiam de algo que eu não sabia nomear. Talvez coragem. Talvez perigo. Talvez apenas vida. Foi em uma tarde de verão que o vi de novo. Eu estava estendendo roupas no quintal quando a porta do porão se abriu. Ele saiu, carregando uma caixa pesada. O sol, fraco e pálido, iluminava as cicatrizes que marcavam seus braços. Olhei rápido demais. E ele percebeu. Nossos olhos se encontraram por um instante longo, sufocante. Senti o rosto corar. Baixei os olhos para a roupa molhada em minhas mãos, mas era como se ainda estivesse presa naquele olhar cinzento. — Café — ele disse, a voz rouca, grave, cortando o silêncio. Demorei alguns segundos para entender que ele estava me lembrando de nosso pequeno ritual. Balancei a cabeça, sem conseguir responder. Quando ergui os olhos, ele já havia entrado de volta. Naquela noite, deixei não apenas café, mas também um pedaço de pão que havia escondido da minha mãe. Uma ousadia que me fez tremer inteira. De manhã, encontrei outro bilhete. “Não faça isso.” Não havia assinatura, não havia explicação. Mas eu sabia o que significava: ele não queria que eu me arriscasse. E foi justamente isso que me fez querer arriscar mais. As semanas passaram nesse ritmo. Aproximações discretas, trocas rápidas, silêncios cheios de palavras não ditas. Eu me acostumei a esperar pelo bilhete no degrau como quem espera uma confissão. Até que, certa noite, ao me deitar, ouvi de novo. Um grito. Vinha do porão, abafado, doloroso. Não era o tipo de som que se esquece. Era um grito de alguém que revive memórias que deveriam ter ficado enterradas. Sentei-me na cama, o corpo inteiro em alerta. A respiração curta, a pele arrepiada. Por um instante, pensei em levantar, atravessar o corredor e abrir a porta. Descer até ele. Mas o medo me paralisou. E, ainda assim, naquele exato momento, algo mudou em mim. Não era apenas curiosidade. Não era apenas atração. Era necessidade. Eu precisava saber quem era Aidan Blackwell. Precisava entender o que havia naquele homem que parecia carregar o mundo nas costas. E, no fundo, sabia que precisava dele tanto quanto ele parecia precisar de mim.
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