Acordei com a sensação de ter dormido pouco, embora não me lembrasse de ter pregado os olhos por mais de alguns minutos. O grito da noite anterior ainda ecoava na minha mente, como se tivesse ficado preso nas paredes do quarto.
Minha mãe estava de bom humor naquela manhã — o que, no vocabulário dela, significava apenas menos c***l do que de costume. Falou sobre a igreja, sobre como as outras garotas “sabiam se portar”, sobre como a filha da vizinha arrumara um bom emprego. Eu apenas mexia a colher dentro da xícara de chá, tentando não levantar os olhos, tentando não mostrar nada.
Porque se ela percebesse a minha inquietação, se desconfiasse que eu estava pensando em qualquer coisa além da sua voz, ela me esmagaria ainda mais.
Mas eu não conseguia pensar em outra coisa além dele.
Aidan.
O som da dor dele preso no porão. O modo como o grito parecia engasgado, como se tivesse atravessado ferro e sangue antes de chegar à superfície. Eu queria saber o que o fazia gritar. E, ao mesmo tempo, queria nunca descobrir.
À tarde, quando minha mãe saiu para “visitar uma amiga”, aproveitei. Segurei a bandeja com café, mãos trêmulas, e caminhei até a porta do porão. O corredor estava vazio, mas minha respiração não. Eu ofegava como se fosse ser pega a qualquer instante.
Toquei a madeira.
— Está tudo bem? — sussurrei.
Nenhuma resposta.
O silêncio do outro lado era ainda mais pesado do que de costume. Abaixei-me e deixei o café no degrau. Meus dedos hesitaram antes de largar a xícara, como se eu esperasse que a porta se abrisse de repente e ele estivesse ali, diante de mim.
Mas nada aconteceu.
Subi correndo, o coração disparado.
Horas depois, quando voltei, a bandeja estava vazia. No lugar, um bilhete.
“Não entre.”
Foi a primeira vez que ele me deu uma ordem. E foi justamente o que fez meu corpo arder em contradição. Porque eu quis entrar mais do que nunca.
Nos dias seguintes, tentei me distrair. Lavei roupas, cozinhei, cumpri as tarefas que minha mãe me jogava com a frieza de sempre. Mas tudo parecia mecânico, distante. Minha mente ficava presa naqueles dois verbos: “Não entre.”
Ele não queria que eu me aproximasse. Não queria que eu soubesse. Mas, ainda assim, continuava respondendo aos cafés.
E cada palavra dele, por mais curta, era como gasolina jogada no fogo que crescia dentro de mim.
Foi numa noite chuvosa que o vi pela terceira vez. Eu estava na sala, arrumando os livros de minha mãe, quando ouvi passos vindos do corredor. Olhei rápido — e lá estava ele.
Aidan caminhava com uma toalha no ombro, o cabelo úmido, como se tivesse acabado de se lavar. A luz fraca do corredor desenhava seus ombros largos, as linhas do peito visíveis sob a camisa gasta.
Eu não devia olhar. Mas olhei.
E, pela primeira vez, ele falou meu nome.
—Ivy.
Minha garganta secou.
— Sim? — respondi, a voz tão baixa que m*l reconheci como minha.
Ele me encarou, sério, olhos cinzentos fixos nos meus. Houve um instante de silêncio em que senti como se ele pudesse ouvir todos os meus pensamentos. Depois, apenas balançou a cabeça, como se tivesse se arrependido de ter me chamado.
— Nada. — E seguiu.
Fiquei parada, o corpo inteiro tremendo, o coração se debatendo contra as costelas.
Era como se cada encontro fosse uma corda puxando mais fundo para dentro de um lugar perigoso. E eu não queria resistir.
Na madrugada, não consegui dormir. Levantei e sentei perto da janela, observando a chuva escorrer pelo vidro. E, no meio do barulho da tempestade, ouvi de novo.
Dessa vez não era um grito. Era um murmúrio. Um nome, talvez. Uma súplica. E, por um segundo, imaginei que fosse o meu nome.
A partir daquela noite, comecei a colecionar pequenas provas de sua existência. Guardava cada bilhete como se fosse uma joia. Lembrava de cada olhar, de cada palavra curta que saía de sua boca.
E, ao mesmo tempo, me sentia envergonhada. Porque sabia que não era apenas curiosidade. Não era apenas compaixão. Era desejo.
Um desejo perigoso, errado. Mas que me fazia sentir viva como nunca.
No domingo seguinte, minha mãe me levou à igreja. Enquanto o pastor falava sobre pecado, eu só conseguia pensar em Aidan. As mãos dele, grandes, fortes, calejadas. A boca dura, que eu imaginava contra a minha pele. O silêncio dele, que gritava mais do que qualquer palavra.
Meus joelhos tremeram durante a oração. Não pelo medo de Deus, mas pelo medo de mim mesma.
E, ainda assim, quando voltei para casa, deixei café na porta do porão.
No dia seguinte, encontrei outro bilhete. “Pare.”
Eu deveria ter parado. Mas a cada ordem dele, a cada barreira que erguia, mais eu queria atravessar.