Capítulo 4

849 Palavras
Acordei com a sensação de que algo me observava. Não era sonho. Era aquele silêncio pesado, diferente, como se a própria casa estivesse prendendo a respiração. Levantei devagar, os pés frios contra o chão de madeira. O corredor estava escuro, a porta do porão fechada como sempre. Mas havia algo no ar — uma presença invisível que fazia minha pele arrepiar. Quando desci para a cozinha, encontrei o café que havia deixado na noite anterior de volta no balcão. A xícara limpa, lavada. No pires, um guardanapo dobrado. “Você não entende.” Li aquelas palavras uma, duas, dez vezes. Meus dedos tremiam, e a letra firme de Aidan parecia gravada na minha pele. Eu não entendia. Não entendia por que ele aceitava meu café e, ao mesmo tempo, tentava me afastar. Não entendia por que dizia “não entre”, “pare”, e, mesmo assim, continuava respondendo. Mas eu queria entender. Queria mais do que tudo. Naquela tarde, fiquei sozinha em casa. Minha mãe tinha ido ao centro. O silêncio se estendia como uma teia em todos os cômodos. Eu vagava de um lado a outro, inquieta, tentando me ocupar com qualquer coisa, mas sempre acabava de volta no corredor. A porta do porão parecia me chamar. Não precisei pensar muito. Empurrei devagar, o coração batendo tão alto que me senti ridícula. A madeira rangeu, e o cheiro úmido de cimento e ferrugem escapou pela a******a. Desci dois degraus, só dois, antes de ouvir sua voz. — Saia. Congelei. Ele estava na penumbra, encostado na parede, sombras cobrindo parte de seu rosto. Os olhos cinzentos brilharam por um instante, como se fossem parte da própria escuridão. — Eu só… — minha voz falhou. — Não desça. — O tom era grave, firme, mas não exatamente raivoso. Mais como um aviso. — Aqui não é lugar para você. Senti o sangue pulsar nas têmporas. — Então por que continua aceitando o café? — perguntei, antes que pudesse me conter. Ele ficou em silêncio por alguns segundos longos, quase cruéis. Depois, desviou o olhar. — Porque você insiste. As palavras bateram em mim como uma confissão. Não tive coragem de responder. Apenas recuei, subindo as escadas rápido demais, o coração em chamas. Naquela noite, deitada na cama, fiquei repassando cada detalhe. O timbre da voz dele, rouco, como se cada palavra fosse arrastada por dentro de cicatrizes invisíveis. O jeito que me olhou, duro, mas com uma sombra de algo mais. E, quanto mais pensava, mais sentia o desejo crescer. Era errado. Mas era inevitável. Os dias seguintes foram de silêncio absoluto. Ele não devolveu a xícara. Não deixou bilhete. Nada. A ausência me corroía por dentro. Eu me pegava andando de um lado a outro, as mãos inquietas, o peito apertado. Minha mãe notou. Claro que notou. — Você anda distraída — disse, em tom acusador. — Com a cabeça sabe-se lá onde. — Só estou cansada — menti, desviando o olhar. Ela não acreditou, mas não insistiu. Guardava suas suspeitas como facas, afiando-as em silêncio até o momento de usá-las. No quarto dia, finalmente encontrei algo no corredor. Um bilhete. “Não me procure.” As letras eram duras, mais inclinadas do que antes, como se tivesse escrito rápido, com raiva. Meu peito ardeu ao ler. E, ainda assim, o que senti não foi desistência. Foi desafio. Eu não queria obedecer. Porque, no fundo, sabia que ele estava travando uma guerra contra si mesmo — e que, de algum modo, eu fazia parte dela. Naquela noite, sonhei com ele. Sonhei que descia até o porão e encontrava Aidan sentado no escuro, os braços apoiados nos joelhos, a respiração pesada. Quando me aproximei, ele ergueu os olhos, e havia dor ali. Mas também havia fome. No sonho, ele me puxou com força. E eu deixei. Acordei com o corpo suado, o coração descompassado e uma sensação estranha de vergonha misturada a desejo. Não consegui voltar a dormir. No dia seguinte, tomei uma decisão. Se ele não queria que eu descesse, que fosse. Mas eu não pararia de deixá-lo saber que estava ali. Preparei o café mais forte que consegui, adocei como achava que ele gostava e deixei diante da porta. Dessa vez, junto com um bilhete meu: “Você não precisa estar sozinho.” Escrevi e reescrevi aquela frase mil vezes antes de deixá-la lá. Era simples, mas verdadeira. Eu não sabia exatamente por que estava fazendo aquilo. Talvez porque, em algum nível, entendia o que era ser engolida pelo silêncio. Quando voltei horas depois, o café tinha sumido. O bilhete também. E, pela primeira vez em dias, sorri. Mais tarde, ao passar pelo corredor, percebi a porta entreaberta. Meu coração quase parou. Dei um passo, só um, antes que uma voz baixa, grave, soasse lá de dentro. — Não brinque com fogo, Ivy. E a porta se fechou. Fiquei parada, respirando fundo, sentindo minhas pernas tremerem. Ele tinha dito meu nome de novo. E, por mais que soasse como aviso, dentro de mim soou como promessa. Uma promessa de que algo estava prestes a acontecer.
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