Há dias em que sinto que minha vida inteira cabe entre aquelas quatro paredes: o quarto abafado, o corredor que leva ao porão, a cozinha onde minha mãe dita suas ordens como uma rainha entediada. E, mesmo assim, é como se todo o resto da minha existência se resumisse a ele.
Aidan.
Os bilhetes sumiram depois do último aviso. Eu continuava deixando café, e ele continuava levando. Mas nenhuma palavra vinha de volta. Era como falar com uma sombra. E ainda assim, não consegui parar.
Minha mãe notou de novo. — Você anda pálida — comentou, enquanto me observava arrumar a mesa. — Está com a cabeça em outro lugar. Uma moça decente não se perde em devaneios.
Mordi a língua para não responder. Se soubesse em quais devaneios eu me perdia, talvez me trancasse no quarto para sempre.
À noite, a tempestade caiu com força. O vento batia nas janelas, fazendo a casa ranger como se estivesse prestes a desmoronar. Minha mãe já dormia, mas eu não conseguia. Andava pelo quarto como um animal preso.
Então ouvi.
Passos no corredor. Pesados, lentos. Meu coração acelerou.
Abri a porta com cuidado e vi a sombra dele projetada contra a parede. Ele passava em silêncio, indo em direção à cozinha. Não pensei. Apenas segui.
Quando cheguei, ele estava de costas, mexendo em uma das gavetas, procurando algo. A luz fraca da lâmpada balançava com o vento, iluminando os músculos de suas costas sob a camisa molhada pela chuva.
Engoli seco. — Está procurando o quê? — perguntei, sem pensar.
Ele parou, os ombros tensos. Virou-se devagar. Os olhos cinzentos me atingiram como uma lâmina.
— Você deveria estar dormindo. — A voz era grave, cansada.
— Não consigo. — dei de ombros. — O barulho da tempestade…
Ele me observou por alguns segundos longos demais. Então, sem dizer nada, pegou uma vela da gaveta e riscou um fósforo. A chama iluminou seu rosto, revelando cicatrizes discretas próximas ao maxilar, o olhar sombrio, a barba por fazer.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
Ele colocou a vela sobre a mesa e suspirou. — Não deveria estar aqui.
— Já disse isso antes. — Forcei um sorriso tímido. — Mas eu continuo vindo.
O canto da boca dele se contraiu, quase um esboço de riso, mas morreu antes de nascer. Ele desviou o olhar, puxou uma cadeira e sentou, os braços cruzados sobre a mesa.
— Por quê? — perguntou, sem rodeios.
Demorei a responder. Porque a resposta era óbvia demais, e ao mesmo tempo perigosa demais. — Porque… — minha voz falhou, e eu inspirei fundo antes de tentar de novo. — Porque eu não quero que você esteja sozinho.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. A vela tremeluzia, e o som da chuva parecia mais alto, como se a casa escutasse cada palavra não dita entre nós.
Aidan não respondeu de imediato. Seus olhos ficaram presos aos meus, e por um instante, senti como se ele pudesse arrancar cada segredo da minha pele.
Então ele falou, baixo, quase um sussurro: — Você não faz ideia do que está pedindo.
Meu corpo inteiro tremeu. Não sabia se era medo, se era desejo, ou se era os dois ao mesmo tempo.
Ficamos ali, frente a frente, em silêncio. Ele não afastou o olhar. Eu também não. Era como se estivéssemos presos, desafiando um ao outro, esperando para ver quem seria o primeiro a recuar.
Mas eu não recuei.
Quando a vela se apagou com o vento que passou pela janela m*l fechada, tudo ficou escuro. E, no meio da escuridão, ouvi a respiração dele. Forte. Quente. Perto demais.
Meu coração disparou. Eu sabia que estava a um passo do abismo.
E, mesmo assim, avancei.
Na manhã seguinte, minha mãe percebeu algo diferente. Eu sorria sozinha enquanto lavava a louça, como se guardasse um segredo. Ela me lançou olhares desconfiados, mas não disse nada. Ainda.
Porque segredos nunca ficam escondidos por muito tempo nesta casa.
À noite, voltei ao corredor. A porta do porão estava entreaberta, como se me convidasse. Passei os dedos pela madeira, e por um segundo, pensei em entrar.
Então ouvi sua voz lá de dentro, rouca, abafada, como se tivesse sido arranhada pela guerra. — Ivy.
Meu nome. De novo.
Um arrepio percorreu meu corpo. Ele não precisava dizer mais nada. Eu sabia. A distância entre nós estava prestes a desaparecer.