Não sei dizer se foi a tempestade lá fora ou a tempestade dentro de mim que me trouxe até ali. Tudo o que sei é que, naquela noite, meus pés seguiram pelo corredor sem que minha mente pudesse detê-los.
A porta do porão estava apenas encostada. Atrás dela, uma penumbra densa, o ar frio subindo pelas escadas como um aviso.
Empurrei devagar. A madeira gemeu, e o som ecoou como um segredo traído.
Ele estava lá embaixo. Sentado, os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça baixa. Os ombros largos subiam e desciam devagar, como se cada respiração fosse um fardo. Por um instante, pensei em recuar. Voltar correndo para meu quarto e fingir que nunca ousei atravessar aquela linha.
Mas então ele ergueu os olhos.
Cinza. Sempre cinza. Mas não havia frieza neles naquele momento. Havia algo mais. Algo perigoso. Algo que queimava.
— Eu disse para não entrar. — A voz saiu rouca, mas não firme o bastante para me fazer parar.
— E eu disse que não quero que você esteja sozinho. — Minha voz tremeu, mas foi verdadeira.
Por um segundo, achei que ele fosse se levantar e me expulsar. Mas Aidan ficou imóvel, os olhos presos em mim como se lutasse contra algo invisível. Subi mais dois degraus. O coração batia tão rápido que doía.
— Ivy… — ele sussurrou meu nome como se fosse pecado.
E foi nesse instante que tudo desmoronou.
Ele levantou, em um movimento abrupto, e em poucos passos estava diante de mim. Grande demais. Quente demais. O cheiro de chuva e suor misturado ao mofo do porão me cercou.
— Você não sabe o que está fazendo. — Ele dizia, mas as mãos dele me seguraram pelos braços, me empurrando contra a parede áspera. A proximidade roubou meu ar.
Olhei para cima, para o rosto marcado pelas sombras, para a boca que ele tentava manter cerrada. E fiz o impensável. Me ergui na ponta dos pés e encostei meus lábios nos dele.
O mundo inteiro explodiu.
O beijo não foi doce. Não foi lento. Foi brutal. Urgente. Proibido. A boca dele esmagou a minha em resposta, como se quisesse me punir e se libertar ao mesmo tempo. Senti o gosto de ferro, de raiva, de desejo contido demais.
As mãos dele apertaram meus braços com força, quase machucando, mas eu não recuei. Pelo contrário, abri a boca, deixei-o entrar, deixei a língua dele invadir a minha como se fosse uma invasão e uma rendição ao mesmo tempo.
Meu corpo inteiro se acendeu. A parede fria contra minhas costas contrastava com o calor dele me prendendo, queimando. Minhas mãos, que antes tremiam, agora estavam firmes em sua camisa, puxando-o para mais perto, como se nunca fosse suficiente.
Ele quebrou o beijo de repente, a respiração descompassada. — Isso não devia estar acontecendo. — murmurou, a boca ainda a um fio da minha.
— Mas está. — respondi, sem reconhecer a ousadia da minha própria voz.
E antes que ele pudesse protestar, o puxei de volta. O beijo foi ainda mais intenso, desesperado. Como se ambos soubéssemos que estávamos cruzando uma linha da qual não havia retorno.
As mãos dele subiram para meu rosto, grandes, calejadas, segurando-me como se eu fosse frágil demais para aquele tipo de violência. Mas a maneira como a boca dele devorava a minha dizia o contrário: não havia espaço para fragilidade.
Senti a língua dele explorar a minha, o roçar dos dentes em meu lábio inferior. Um arrepio percorreu meu corpo inteiro, descendo pela coluna, incendiando cada parte de mim que jamais tinha sido tocada.
Meu peito roçava contra o dele, e pude sentir seu coração disparado, tão descompassado quanto o meu. Por um instante, tive a impressão de que ele se entregava por completo, de que não havia mais barreiras.
Mas Aidan se afastou de novo, como se o mundo tivesse voltado a existir. — Você não entende no que está se metendo. — A voz dele era um misto de dor e desejo.
Toquei o rosto dele com a ponta dos dedos, sentindo a barba áspera arranhar minha pele. — Então me faça entender.
Ele fechou os olhos por um segundo, como se lutasse contra o próprio corpo. Mas quando voltou a me olhar, já não havia mais resistência. Aidan me puxou de volta para si, e o beijo dessa vez foi mais lento, profundo. Não menos erótico, mas carregado de algo novo: entrega.
O calor da boca dele era viciante. O jeito como me explorava, como se quisesse decorar cada detalhe, cada suspiro. Eu já não pensava em certo ou errado. Só nele. No gosto, no toque, no arrepio que me consumia.
Quando nos separamos, ofegantes, encostei a testa na dele. Ele respirava pesado, os olhos ainda fechados, como se tentasse gravar aquele momento dentro de si.
— Isso nunca deveria ter acontecido. — murmurou.
— Então por que parece tão certo? — perguntei, a voz baixa, quase um sopro.
Ele não respondeu. Mas o silêncio que se seguiu dizia tudo.
Naquela noite, deitei na cama com os lábios ainda queimando, o corpo pulsando em cada lembrança. Não era mais possível voltar atrás. O vizinho do porão não era só um mistério. Era fogo. E eu já estava queimando.