No dia seguinte, a casa parecia ainda mais silenciosa do que o normal. E não era só impressão. Era ausência.
O corredor estava vazio. A porta do porão, trancada. Nem uma xícara devolvida, nenhum bilhete deixado. Nada.
Meu corpo ainda ardia com a lembrança do beijo. Os lábios formigavam como se o toque dele estivesse marcado em mim, como uma tatuagem invisível. Mas a cada hora que passava sem sinal de Aidan, o calor se transformava em gelo.
Ele tinha sumido.
Passei o dia arrastando os pés pela casa, fingindo cumprir minhas obrigações. Minha mãe falava, reclamava, exigia, mas suas palavras soavam como ruído distante. Tudo o que eu conseguia pensar era nele.
No modo como me segurou contra a parede, duro e desesperado. Na boca que esmagou a minha com raiva e desejo. No jeito como recuou, dividido entre me afastar e me consumir.
E agora… no vazio.
À noite, não aguentei. Desci até o corredor com uma xícara de café, como sempre. Mas quando encostei a bandeja no degrau, vi algo diferente.
Um bilhete.
Peguei com as mãos trêmulas, rasgando o envelope antes mesmo de chegar ao quarto.
“Isto não pode se repetir.”
As palavras eram firmes, frias. Um corte direto em minha pele.
Meu peito se apertou, e por um instante, senti vontade de chorar. Mas as lágrimas não vieram. No lugar delas, veio raiva.
Se não podia se repetir, por que ele tinha me beijado como se minha boca fosse a única saída para sua dor? Se não podia, por que meu corpo ainda carregava o dele como se fosse memória física, queimando em cada nervo?
Ele podia se esconder atrás de sua culpa, de suas cicatrizes, mas eu sabia a verdade: ele queria. Tanto quanto eu.
Nos dias seguintes, Aidan evitou qualquer contato. Não cruzava o corredor quando eu estava por perto. Não deixava bilhetes. Apenas silêncio. E cada silêncio era uma tortura.
Minha mãe, sempre atenta, percebeu. — Você anda ansiosa. O que esconde de mim, Ivy? — perguntou certa noite, os olhos estreitados, como facas.
— Nada. — menti, o coração disparado.
Ela riu, seca. — Você não é boa em mentir.
Aquelas palavras ficaram presas em mim, como ameaça. E, pela primeira vez, tive medo de que ela descobrisse.
Sonhei com ele de novo. No sonho, Aidan me beijava, mas desta vez não parava. Suas mãos exploravam meu corpo inteiro, sua boca queimava minha pele, e eu me entregava sem reservas. Acordei ofegante, os lençóis úmidos de suor, o corpo pedindo algo que nunca tinha sentido de verdade.
Mas quando fui até o corredor naquela manhã, encontrei apenas o vazio.
Ele estava se afastando. E isso me consumia mais do que o beijo em si.
Na tarde seguinte, tomei coragem e bati na porta do porão. Três vezes. Nada.
Empurrei, mas estava trancada. Aproximei os lábios da madeira e sussurrei: — Eu não vou desistir de você.
Talvez ele tivesse ouvido. Talvez não. Mas, ao recuar, juro que senti sua respiração do outro lado. E isso foi suficiente para manter a chama acesa.
Minha mãe começou a vigiar mais. Ela me seguia com os olhos por cada canto da casa, como se esperasse me pegar em flagrante. E eu, mesmo tentando esconder, sabia que estava diferente.
Havia algo no modo como andava, no modo como respirava. Como se meu corpo tivesse sido desperto e não soubesse mais voltar a dormir.
Naquela noite, ouvi novamente. Não gritos, não pesadelos. Mas um som baixo, arrastado. Passos.
Levantei, o coração na boca, e saí do quarto. O corredor estava escuro, mas a porta do porão estava entreaberta.
Aproximei-me em silêncio, prendendo a respiração. E, por uma fresta, vi Aidan.
Ele estava em pé, as mãos nos cabelos, respirando pesado, como se lutasse contra algo invisível. A raiva estampada no rosto, os músculos tensos, como um animal enjaulado.
Dei um passo, sem pensar. O assoalho rangeu.
Ele me viu. Seus olhos encontraram os meus na escuridão, e naquele instante, vi tudo: desejo, dor, culpa.
— Volte para o seu quarto, Ivy. — disse, a voz baixa, quase um rosnado.
— Não. — respondi, antes que pudesse controlar minha própria boca.
Ele fechou os olhos, como se aquilo o ferisse. — Eu não posso te dar o que você quer. —
A raiva me tomou inteira. — Então por que me beijou como se fosse a última coisa que faria na vida?
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Ele abriu a boca para responder, mas não conseguiu. Apenas bateu a porta com força, me deixando sozinha no corredor.
O som ecoou por toda a casa, e dentro de mim.
De volta ao quarto, deitei na cama com o corpo inteiro em chamas. Ele podia tentar se esconder. Podia se afogar em sua culpa, nas sombras do porão. Mas eu já sabia a verdade: Aidan queria tanto quanto eu.
E não importa o quanto tentasse, cedo ou tarde ele não conseguiria resistir.