Capítulo 8

919 Palavras
Minha mãe sempre teve olhos de lobo. Não importa o quanto eu tentasse me esconder, sempre havia aquela sensação de que ela podia farejar meus segredos, como se fossem sangue fresco. Nos últimos dias, isso se intensificou. Eu tentava manter a rotina: arrumar a mesa, lavar a louça, sorrir quando necessário. Mas meu corpo me traía. Os lábios ainda lembravam o beijo, meu coração disparava ao menor som vindo do porão. E, por mais que eu tentasse disfarçar, minha mãe percebeu. Na manhã de domingo, enquanto penteava o cabelo diante do espelho da sala, ela me lançou o olhar que sempre me gelava. — Você anda diferente, Ivy. — disse com a calma que sempre escondia veneno. — Seus olhos… estão inquietos. Baixei a cabeça, como sempre. — É só o cansaço, mãe. Ela riu baixo. — Cansaço? Não me faça rir. Eu conheço esse brilho. — Seus olhos se estreitaram. — Está escondendo algo de mim. Engoli seco, os dedos apertando a barra da saia. — Não estou. Mas ela não acreditou. Nunca acreditava. Naquela noite, esperei que ela adormecesse. Preparei café e caminhei até o corredor, rezando para que o assoalho não rangisse. Mas, ao me abaixar para deixar a xícara, ouvi passos atrás de mim. Congelada, virei devagar. Minha mãe estava parada, braços cruzados, o olhar cravado em mim como lâmina. — Para quem é isso? — perguntou, apontando para a bandeja. Meu coração parou. — Eu… — As palavras não saíam. — Responda. — Sua voz era baixa, controlada, mas pior do que um grito. Meu corpo tremia inteiro. Eu sabia que qualquer resposta me condenaria. Então, simplesmente menti. — Para mim. Não consegui dormir. Ela se aproximou, lenta, cada passo ecoando no corredor estreito. — No meio da madrugada, Ivy? Com a bandeja diante do porão? — Seus olhos se estreitaram ainda mais. — O que esconde aí embaixo? Antes que pudesse impedir, ela estendeu a mão e bateu na porta. — Sr. Blackwell? — chamou, em tom firme. — Está acordado? Meu coração quase saltou pela boca. O silêncio do porão pareceu durar uma eternidade. Nenhuma resposta. Minha mãe manteve o olhar em mim, o rosto duro, até que finalmente recuou. — Não gosto disso. — disse, fria. — E não quero você perto desse homem. Está ouvindo? Assenti rápido demais, desesperada para encerrar aquela conversa. Mas, por dentro, algo queimava. Nos dias seguintes, a vigilância dela aumentou. Me seguia pela casa com os olhos, inventava tarefas inúteis apenas para me manter ocupada. Sempre que eu passava pelo corredor, ela parecia surgir do nada, como um fantasma. Mas a cada tentativa de me prender, meu desejo só crescia. Era como se a proibição fosse combustível. E Aidan? Continuava distante. Não respondia. Não se mostrava. Mas eu sabia que estava ali. Sentia sua presença em cada sombra do porão, em cada silêncio carregado. Numa tarde chuvosa, enquanto estendia roupas no varal interno, percebi a silhueta dele na porta do porão. Meu coração disparou. Ele não disse nada. Apenas me observou. Eu, incapaz de resistir, caminhei até ele. Cada passo era risco, cada batida do coração era confissão. — Ela está desconfiando. — sussurrei, a respiração curta. Ele franziu a testa, os olhos cinzentos cheios de tensão. — Então mantenha distância. A raiva subiu por minha garganta. — É isso que você quer? Distância? Depois de… depois daquilo? Seu maxilar se contraiu, e por um instante, achei que fosse me puxar de novo, como na noite do beijo. Mas ele deu um passo atrás. — É o que precisa ser. — Mentiroso. — As palavras escaparam antes que eu pudesse contê-las. — Se fosse o que você queria, não teria me beijado daquele jeito. O silêncio que se seguiu foi tão pesado que m*l consegui respirar. Ele desviou o olhar, mas não respondeu. Apenas se virou, desaparecendo de volta na escuridão do porão. Fiquei ali, sozinha, o corpo em chamas, o coração partido. Naquela noite, minha mãe voltou a cutucar a ferida. — Aquele homem… você o olha demais. — disse, sem rodeios. — Está achando que eu não percebo? Meu sangue gelou. — Não, mãe. Eu não… — Cale a boca. — Ela se inclinou, os olhos brilhando com algo entre fúria e triunfo. — Não pense que pode me enganar. Sei reconhecer uma garota vulgar quando vejo uma. As palavras me cortaram mais fundo do que qualquer faca. Mas, ao me deitar naquela noite, com o coração em frangalhos, só consegui pensar em uma coisa: Ela tinha razão em uma parte. Eu o olhava demais. E, por mais que tentasse negar, eu não ia parar. Dias depois, encontrei outro bilhete diante da porta do porão. “Não deixe que ela perceba.” Segurei o papel com força, as mãos tremendo. Ele estava me afastando de novo, mas ao mesmo tempo, admitindo. Aidan sabia. Ele sabia que minha mãe estava se tornando perigo real. E, ainda assim, havia algo naquela ordem que me incendiava. Porque, se ele queria que eu escondesse… significava que havia algo para esconder. À noite, deitada em minha cama, ouvi passos vindos do corredor. Abri os olhos devagar e vi a sombra dele pela fresta da porta. Ele não entrou. Não falou nada. Apenas ficou parado ali, por um tempo que pareceu infinito. E então sumiu. Meu corpo inteiro tremia. Ele me vigiava, assim como eu o vigiava. E, mesmo com a ameaça da minha mãe pairando sobre nós, uma certeza crescia dentro de mim: O próximo passo seria inevitável.
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