Não sei quando tomei a decisão. Talvez não tenha tomado de verdade. Talvez tenha sido apenas meu corpo, cansado de esperar, cansado de bilhetes e silêncios, que me guiou até ali.
Era madrugada. Minha mãe dormia. O corredor estava mergulhado na penumbra. A porta do porão entreaberta.
O coração batia tão alto que parecia denunciar cada passo meu. Ainda assim, desci.
O ar estava mais frio lá embaixo, carregado de mofo e ferro, mas também de algo mais: a presença dele. Aidan estava sentado, como sempre, mas ergueu a cabeça assim que me viu.
— Eu disse para não vir aqui. — Sua voz soou como um trovão abafado, grave, ameaçadora.
Mas não dei um passo atrás. — E eu disse que não vou te deixar sozinho.
Ele se levantou em um movimento brusco, a sombra dele preenchendo todo o espaço. Por um instante, achei que me expulsaria de vez. Mas quando chegou perto, quando seu corpo ficou a centímetros do meu, vi nos olhos dele o que não podia esconder: desejo.
Meu coração disparou. A respiração curta, trêmula. Aproximei a mão, toquei o braço dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa gasta. Ele estremeceu, como se meu toque fosse fogo.
— Ivy… — murmurou, quase em súplica.
E, antes que pudesse recuar, puxei-o para mim.
O beijo veio como um raio. Mais forte, mais urgente do que o primeiro. A boca dele esmagou a minha, os lábios duros, quentes, famintos.
As mãos grandes seguraram minha cintura, me puxando com força contra o corpo dele. Senti cada linha, cada músculo, cada respiração ofegante. Meus dedos se agarraram à camisa dele, puxando, desesperados, como se quisessem arrancar a distância que ainda restava entre nós.
A parede fria bateu contra minhas costas, e o choque só aumentou o calor que nos consumia. Ele me prendia ali, um braço ao lado da minha cabeça, o outro apertando minha cintura com intensidade quase dolorosa.
Eu não queria fugir. Eu queria mais.
O beijo se aprofundou. Sua língua invadiu minha boca, dominando, explorando. O gosto dele era ferro e fúria, mas também calor e vida.
Um gemido escapou da minha garganta, sem que eu pudesse controlar. E isso pareceu quebrar a última barreira de Aidan.
Ele deslizou a boca pelo meu pescoço, deixando beijos ásperos, quase mordidas, como se quisesse marcar cada pedaço da minha pele. Minha respiração falhava, os joelhos fracos, o corpo entregue.
— Você não sabe o que está fazendo comigo… — ele murmurou contra minha pele, a voz rouca, desesperada.
— Então me mostra. — respondi, sem reconhecer a ousadia da minha própria voz.
As mãos dele subiram pelas minhas coxas, apertando, explorando, até alcançarem o tecido fino da minha saia. Meu corpo inteiro queimava. Eu o sentia duro contra mim, o peso dele, a urgência de cada movimento.
E, por um instante, tive certeza de que nada poderia nos deter. Que ele me tomaria ali, contra a parede fria, e eu deixaria. Eu queria deixar.
Mas, de repente, ele recuou.
O olhar cinzento estava em chamas, mas também em guerra. — Não. — disse, ofegante. — Não assim. Não agora.
— Aidan… — minha voz saiu em súplica.
Ele afastou o rosto, as mãos ainda trêmulas contra minha pele. — Você merece mais do que um homem quebrado no escuro de um porão.
Senti as lágrimas queimarem nos olhos, não de tristeza, mas de frustração. — Eu só quero você.
O silêncio caiu pesado. Ele encostou a testa na minha, a respiração quente contra meus lábios, como se lutasse contra o próprio corpo. — Vai me destruir, Ivy. — sussurrou. — E eu vou deixar.
Ficamos assim por um instante que pareceu eterno. Ele, dividido entre o desejo e a culpa. Eu, dividida entre a coragem e o medo.
E, no fim, foi ele quem se afastou. — Vá. — disse, a voz baixa, carregada de dor. — Antes que eu não consiga parar.
Meus pés hesitaram, mas meu corpo ainda tremia do beijo, das mãos, da proximidade que quase nos consumiu. Obedeci, subindo as escadas devagar, como se cada degrau fosse um castigo.
Quando cheguei ao quarto, meu corpo ainda ardia. Meus lábios estavam inchados, minha pele marcada pelos beijos dele. E, deitada na cama, soube com toda a certeza: Aquilo não tinha sido o fim. Tinha sido apenas o começo.