Passei dias tentando apagar da pele a marca da noite no porão. Mas não havia água quente suficiente, nem silêncio suficiente para me livrar da lembrança dele.
Aidan. Sua boca. Suas mãos. O peso de seu corpo contra o meu.
E, acima de tudo, a forma como ele recuou no último instante, como se estivesse salvando a mim dele mesmo.
Foi isso que me destruiu mais do que a ausência. Porque se não quisesse, ele não teria chegado tão longe.
Na manhã seguinte, encontrei um bilhete. “Me deixe em paz.”
As letras eram firmes, quase rabiscadas, como se tivesse escrito rápido demais, tentando arrancar de si algo que não conseguia controlar.
Mas eu já tinha aprendido a ler Aidan além das palavras. E, por trás daquela ordem, havia medo. Medo de si mesmo.
Por três noites, não houve contato. Nenhum bilhete, nenhuma sombra, nenhum som além dos pesadelos abafados que atravessavam as paredes. Eu deitava na cama, olhos abertos no escuro, ouvindo. E, de alguma forma, sabia: ele também estava acordado, lutando.
No quarto dia, não aguentei.
Desci ao porão sem café, sem desculpas. Empurrei a porta devagar e o encontrei sentado contra a parede, o olhar perdido no vazio.
— Eu disse para não vir. — falou, sem me encarar.
— E eu disse que não vou te deixar sozinho. — respondi, repetindo as palavras de dias atrás.
Ele fechou os olhos, inspirando fundo, como se minha presença fosse tanto tortura quanto salvação. — Você não entende…
— Então me explica. — sentei no chão à sua frente, a poeira grudando na saia, o coração batendo tão alto que parecia ecoar pelo porão. — Me mostra quem você é de verdade.
Por alguns minutos, ele ficou em silêncio. Achei que não fosse responder. Mas então, lentamente, as palavras começaram a sair.
— Eu tinha um irmão. — A voz dele era baixa, rouca. — Mais novo que eu. Inteligente, engraçado, sempre melhor em tudo. Eu… eu prometi protegê-lo.
Fechou os olhos, os punhos cerrados. — Mas não consegui.
Senti o estômago se revirar. — O que aconteceu?
Ele respirou fundo, como se cada palavra fosse um peso impossível de carregar. — A guerra aconteceu. — murmurou. — O fogo, o caos… e eu falhei. Ele morreu. Na minha frente. E eu fiquei.
A dor estampada em seu rosto era tão real que quase podia tocá-la. Senti as lágrimas arderem em meus olhos, mas não desviei o olhar. — Não foi sua culpa.
Ele riu, um som amargo. — Não diga isso. Você não viu. Eu deveria ter sido eu. Eu deveria ter… — a voz falhou.
Sem pensar, estendi a mão e segurei a dele. Grande, calejada, trêmula. Ele tentou recuar, mas eu não deixei.
— Você não está sozinho. — disse, firme. — Não mais.
Seus olhos cinzentos finalmente encontraram os meus. E, naquele instante, vi tudo: a dor, a culpa, mas também a necessidade. Não apenas de mim. De ser visto. De ser perdoado.
Ele apertou minha mão de volta, os dedos fortes, desesperados. E, por um segundo, pensei que fosse me puxar de novo, como naquela noite. Mas não o fez.
Em vez disso, deixou a cabeça cair contra minha testa, fechando os olhos. Sua respiração quente roçava minha pele, e o simples contato era mais íntimo do que qualquer beijo.
— Você vai se arrepender de estar aqui. — murmurou.
— Não. — respondi, sem hesitar. — Vou me arrepender se não estiver.
Ficamos assim por um tempo que não sei medir. O silêncio pesado do porão nos envolvia, mas, pela primeira vez, não era sufocante. Era refúgio.
Aidan me contou mais. Não tudo, mas fragmentos. As noites em claro, as imagens que não o deixavam em paz. O sangue, os gritos, o vazio. E eu ouvi. Ouvi como ninguém nunca tinha ouvido.
Em troca, contei o pouco que ousava do meu próprio inferno. Minha mãe. Seu controle, sua frieza, sua maneira de me reduzir até eu quase desaparecer. Ele ouviu em silêncio, mas sua mão nunca soltou a minha.
Quando o sol começou a nascer, iluminando as frestas do porão, ele falou: — Você merece mais do que eu posso te dar.
Olhei para ele, para o homem quebrado diante de mim, e soube a verdade: Não havia “mais” para mim. Havia ele. E isso já era tudo.
Me inclinei devagar e depositei um beijo leve em seus lábios. Diferente do que tivemos antes, não foi brutal, nem urgente. Foi suave. Um sussurro. Uma promessa.
Ele não me afastou. E, por alguns segundos, me beijou de volta.
Quando subi de volta ao meu quarto, o coração leve e pesado ao mesmo tempo, tive a certeza: Aidan Blackwell não era apenas o vizinho do porão. Era meu segredo. Meu pecado. Minha salvação.
E, por mais que o mundo tentasse, eu não estava disposta a abrir mão dele.