O Convite
Quando Thiago chegou em casa naquele sábado, não passou pela sala, não cumprimentou ninguém, não parou para conversar. Subiu direto para o quarto, fechou a porta e encostou-se nela como se precisasse recuperar o fôlego — não do corpo, mas do coração.
Morgana tinha lhe dado mais do que um presente naquele dia.
Tinha lhe dado o primeiro beijo dela.
Ele passou a mão pelos cabelos, ainda sentindo o cheiro do campo, do vento, do piquenique simples que tinha sido perfeito. Sentou-se na cama, olhou para o teto e sorriu sozinho, meio bobo, meio incrédulo.
Não tinha sido um beijo apressado, nem cheio de técnica, nem cinematográfico. Tinha sido real. Delicado. Um beijo que dizia “confio em você” sem precisar de palavras.
— Caramba… — murmurou, fechando os olhos.
Do outro lado da cidade, Morgana também não conseguia dormir direito.
Deitada em sua cama, ela virava de um lado para o outro, sentindo ainda o gosto do beijo de Thiago. Não era apenas o toque dos lábios — era a sensação de ser escolhida, respeitada, esperada.
Levou a mão à boca, tocando de leve os lábios, como se quisesse confirmar que aquilo tinha mesmo acontecido.
— Então é assim… — sussurrou para si mesma.
Não era como nos filmes, nem como as meninas comentavam na escola. Não foi um choque, nem um frio exagerado. Foi aconchego. Foi calma. Foi certo.
E isso a deixou sorrindo no escuro.
A segunda-feira chegou com aquele barulho típico de escola acordando: corredores cheios, mochilas jogadas nos ombros, risadas altas, passos apressados. Morgana já frequentava as aulas normalmente, sentava-se em sua carteira, acompanhava os conteúdos, fazia pausas quando o corpo pedia — e, aos poucos, voltava a ser parte do cotidiano.
Mas havia algo novo no ar.
— Você vai no baile de outono? — perguntava uma menina para outra.
— Dizem que vai ser lindo esse ano.
— A turma do terceiro ano tá organizando tudo.
— É pra arrecadar dinheiro pra formatura.
O assunto se repetia em todos os cantos.
O baile de outono era tradição. Luzes quentes, decoração simples, música escolhida com cuidado. Nada exagerado, mas sempre esperado. Para muitos, era só diversão. Para outros, era a chance de viver algo especial.
Morgana ouvia os comentários em silêncio, desenhando no canto do caderno enquanto a professora ainda não chegava. Não pensava muito nisso. Achava bonito, mas distante. Bailes sempre pareceram coisas que aconteciam para os outros.
Até aquele momento.
O sinal tocou anunciando o fim da aula, e os alunos começaram a se levantar. Morgana ainda guardava o material quando sentiu uma presença diferente perto da carteira.
— Morgana.
Ela levantou o olhar.
Era Thiago.
Ele estava suado, o cabelo um pouco bagunçado, a camiseta colada ao corpo. Vinha direto da aula de educação física, respirando fundo, como se tivesse corrido mais do que precisava.
Alguns alunos pararam para olhar.
— Oi — disse ela, sorrindo.
Ele passou a mão pela nuca, nervoso.
— Posso falar com você um minuto?
— Pode — respondeu ela, já sentindo o coração acelerar.
Ele deu um passo mais perto.
— Eu… — começou, respirando fundo. — Eu sei que você ainda tá retomando tudo. Escola, rotina, energia… então se você não quiser, tá tudo bem. De verdade.
Morgana franziu levemente a testa.
— Thiago…
— Mas eu queria te perguntar uma coisa — continuou ele, rápido, antes que perdesse a coragem. — Você vai ao baile comigo?
O silêncio durou apenas alguns segundos, mas para ele pareceu uma eternidade.
Morgana olhou nos olhos dele. Viu nervosismo. Viu cuidado. Viu carinho.
— Vou — respondeu, sem hesitar.
O rosto de Thiago se iluminou de um jeito impossível de disfarçar.
— Vai mesmo?
— Vou — repetiu ela, sorrindo. — Com você.
Ele soltou o ar que parecia estar prendendo há dias.
— Sério?
Morgana levantou-se da cadeira e, sem dizer nada, aproximou-se. Ficou na ponta dos pés e deu um selinho rápido nele, simples, delicado — mas suficiente para fazer o mundo parar por um segundo.
O corredor ficou em silêncio por um instante. Alguns arregalaram os olhos, outros sorriram, outros cochicharam imediatamente.
Thiago ficou imóvel por meio segundo… e depois sorriu, um sorriso largo, feliz, verdadeiro.
— Tá decidido então — disse ele, meio sem saber o que fazer com as mãos.
— Tá — respondeu Morgana, rindo baixinho. — Mas sem pressão, tá?
— Sempre no seu tempo — disse ele.
— Sempre.
Enquanto Thiago voltava para sua sala, alguns colegas do terceiro ano se entreolharam.
— É sério isso?
— O Thiago convidou ela?
— E ela aceitou…
Na sala de Morgana, as amigas se aproximaram assim que ele saiu.
— Morgana! — disse uma, animada. — O baile!
Ela sorriu, meio tímida.
— Pois é.
— Você vai arrasar — comentou outra.
Morgana balançou a cabeça.
— Eu só quero ir… e aproveitar.
Do outro lado da escola, Thiago entrou na sala ainda ofegante. Um amigo levantou a sobrancelha.
— Pelo visto, o treino foi bom.
— Nem imagina — respondeu Thiago, sentando-se.
Durante o resto do dia, os pensamentos dos dois se misturavam. Morgana pensava em vestido, em música, em como se sentiria naquele salão. Thiago pensava em como protegê-la do cansaço, em como dançar sem exagero, em como aquele convite simples significava muito mais do que uma noite.
Eles sabiam que não seria apenas um baile.
Seria mais um passo.
Não para provar nada a ninguém.
Não para seguir expectativas.
Mas para viver, juntos, um momento que antes parecia distante demais para ambos.
E, enquanto o outono se aproximava, com suas folhas douradas e noites mais frescas, Morgana sentia que, pela primeira vez, não precisava ter medo do que vinha pela frente.
Porque, dessa vez, ela não estava caminhando sozinha.