Capítulo 22

966 Palavras
O Vestido do Outono O baile ainda estava a algumas semanas de distância, mas, para Morgana, ele já ocupava um espaço curioso dentro do peito. Não era ansiedade exagerada, nem expectativa de conto de fadas. Era algo novo, simples e profundo ao mesmo tempo: a sensação de que estava vivendo coisas que, por muito tempo, achou que não viveria. Naquela noite, depois do jantar, Morgana sentou-se com Clara na mesa da cozinha. A mãe dobrava panos enquanto a filha girava distraída o anel no dedo. — Mãe… — começou, com um sorriso meio tímido. Clara levantou os olhos. — Hum? — Vai ter o baile de outono na escola — disse. — E… o Thiago me convidou. Clara parou o que estava fazendo e sorriu imediatamente. — E você aceitou? — Aceitei. A mãe caminhou até ela e a abraçou com cuidado, como fazia desde o tratamento, respeitando o corpo da filha. — Fico tão feliz por você — disse. — De verdade. — Eu também — respondeu Morgana. — Só fico um pouco nervosa. — Nervosa por quê? — Por tudo — confessou ela. — Pelo vestido, pela dança… por mim. Clara segurou o rosto da filha. — Morgana, você já enfrentou coisas muito maiores do que um baile. O resto é detalhe. Morgana sorriu, aliviada. Naquela mesma noite, Thiago contou à mãe. Ana estava sentada no sofá, organizando alguns papéis de projetos sociais, quando ele se aproximou. — Mãe… vai ter o baile de outono na escola. Ela levantou os olhos, interessada. — E? — Eu convidei a Morgana. Ela aceitou. Ana sorriu de um jeito diferente, cheio de carinho. — Que maravilha. — Só que… — Thiago hesitou. — Eu sei que essas coisas deixam ela meio insegura. Ana apoiou os papéis na mesa e pensou por alguns segundos. — Eu tive uma ideia — disse, levantando-se. — Que tal eu dar o vestido pra ela? Thiago arregalou os olhos. — Mãe, você não precisa… — Eu quero — interrompeu Ana. — Não é sobre dinheiro. É sobre acolher. E eu gosto dela. Thiago sentiu um nó na garganta. — Ela vai ficar feliz — disse. — Então está decidido — respondeu Ana. — Vamos ver vestidos. Dois dias depois, Clara tinha algumas entregas para fazer na cidade, e combinou que, depois, passaria na escola para buscar Morgana. O combinado era simples: elas iriam direto olhar vestidos. Morgana passou a manhã inquieta, mas tentando disfarçar. Durante o intervalo, Thiago sentou-se ao lado dela no pátio. — Tá pensando em quê? — perguntou. — Em um monte de coisa — respondeu ela. — Minha mãe vai me buscar hoje. A gente vai ver vestido pro baile. Os olhos de Thiago brilharam. — Sério? — Sério. Ele sorriu largo. — Então é oficial. — É — disse ela, rindo. Ele ficou alguns segundos em silêncio, observando-a. — Posso fazer uma pergunta meio boba? — Pode. — Eu vou ver o vestido? Morgana riu. — Não. Surpresa. — Ah, qual é… — ele fingiu desapontamento. — Nem uma pista? — Nenhuma. Ele se aproximou um pouco mais. — Seja qual for… você vai ficar ainda mais linda. Morgana sentiu o rosto esquentar imediatamente. — Thiago… — murmurou, envergonhada. Ela abaixou os olhos, e o rubor nas bochechas ficou ainda mais evidente. Thiago achava aquilo lindo. Não o vestido, não o baile, não o evento. Mas aquele jeito tímido, verdadeiro, que ela tinha quando se sentia vista. — Eu gosto quando você fica assim — disse ele, baixinho. — Assim como? — perguntou ela, ainda vermelha. — Você — respondeu, simples. O sinal tocou, interrompendo o momento. Thiago levantou-se. — Depois me conta como foi — disse. — Mesmo sem detalhes do vestido. — Combinado — respondeu ela. No fim da tarde, Clara chegou à escola e encontrou Morgana no portão. A filha entrou no carro com um sorriso contido, mas os olhos denunciavam a ansiedade. — Pronta? — perguntou Clara. — Pronta. Foram primeiro a uma loja simples, mas bem cuidada. Morgana caminhava entre os vestidos com calma, tocando os tecidos, observando os cortes. Não queria nada exagerado. Queria algo que fosse ela. — Esse é bonito — disse Clara, apontando um vestido em tom suave de azul. Morgana experimentou. Olhou-se no espelho e respirou fundo. — É bonito… mas não sei. — Vamos ver mais — sugeriu a mãe. Na segunda loja, Ana as encontrou. Quando Morgana a viu, abriu um sorriso surpreso. — Oi — disse, meio sem jeito. — Oi, minha querida — respondeu Ana. — Vim ver se você já escolheu o vestido mais bonito do baile. Morgana riu. — Ainda não. Foram juntas experimentar mais opções. Ana observava com atenção, mas sem impor nada. Em determinado momento, Morgana saiu do provador com um vestido simples, delicado, em tom de vinho suave. Caía perfeitamente, sem exagero, elegante sem esforço. Clara levou a mão à boca. — É esse — disse. Ana assentiu. — É exatamente esse. Morgana olhou no espelho. Pela primeira vez, não viu a doença. Não viu o tratamento. Não viu o medo. Viu uma garota. — Você gostou? — perguntou Ana. — Muito — respondeu Morgana, emocionada. — Então é seu — disse Ana, com um sorriso. — Ana… — começou Morgana. — Sem discussão — interrompeu ela. — É um presente. De coração. Morgana abraçou Ana com cuidado, sentindo o peso daquele gesto. — Obrigada — disse, com a voz embargada. Naquela noite, Morgana mandou uma mensagem para Thiago. “Vi o vestido.” Ele respondeu quase imediatamente. “E então?” “Você não vai se arrepender.” Thiago sorriu do outro lado da tela. Ele sabia. Não porque imaginava o vestido. Mas porque conhecia quem o vestiria. E, para ele, isso era mais do que suficiente.
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