Capítulo 28

1543 Palavras
As Primeiras Telas A loja de materiais artísticos tinha um cheiro diferente de tudo o que Morgana já conhecia. Era uma mistura de papel novo, madeira, tinta fresca e alguma coisa que lembrava liberdade. Ela entrou devagar, quase como quem pisa em um lugar sagrado. Os olhos claros passeavam pelas prateleiras altas, cheias de cores, pincéis de todos os tamanhos, tubos de tinta organizados como se fossem joias. Thiago percebeu na hora. Ela estava ansiosa. — Respira — disse ele, sorrindo. — Não vai fugir. Morgana riu nervosa. — Eu sei… é só que… parece grande demais. — Igual tudo que você faz — respondeu ele, simples. Ela caminhou até a seção de telas. Tocou uma, depois outra. Passou a mão com cuidado pela superfície branca, lisa, ainda intocada. Diferente do papel, aquilo parecia pedir coragem. — Dá medo estragar — confessou. Thiago se aproximou por trás e apoiou as mãos nos ombros dela. — Estragar o quê? — perguntou. — Tela em branco não é feita pra ficar perfeita. É feita pra ser vivida. Morgana virou o rosto para ele. — Você fala isso como se fosse fácil. — Não é — respondeu. — Mas você já passou por coisas muito mais difíceis do que uma tela branca. Ela respirou fundo, concordando em silêncio. O vendedor se aproximou, simpático, explicando os tipos de telas, os tamanhos, os tecidos. Morgana ouvia com atenção, mas ainda insegura. — Começa com essas — disse Thiago, apontando para algumas de tamanho médio. — Nem muito grandes, nem pequenas. — Você entende disso agora? — brincou ela. — Entendo de você — respondeu ele. — E isso já ajuda. Ela sorriu, vencida. Colocaram no carrinho algumas telas. Depois vieram as tintas. Morgana ficou parada diante da prateleira por longos minutos. Havia tantas cores que parecia impossível escolher. — No papel eu faço tudo em lápis… aqui é diferente — murmurou. Thiago pegou um tubo azul e colocou na mão dela. — Esse é você quando tá tranquila. Depois pegou um vermelho. — Esse é você quando sente tudo ao mesmo tempo. Pegou o amarelo. — Esse é você quando ri sem perceber. Morgana sentiu os olhos marejarem. — Você me enxerga até em tinta agora? — Sempre enxerguei — respondeu ele, dando de ombros. Ela começou a escolher cores com mais segurança. Verde, branco, preto, tons de marrom. Depois os pincéis. Finos, largos, médios. Alguns para detalhes, outros para preencher. — Não acha demais? — perguntou, olhando o carrinho já cheio. Thiago olhou para tudo e sorriu. — Acho investimento. — E se eu travar? — perguntou ela, em voz baixa. Ele segurou o rosto dela com cuidado, ali mesmo, sem se importar com quem passava. — Então você descansa. E quando voltar, a tela vai estar te esperando. Igual eu. Ela assentiu, com o coração aquecido. — Obrigada por acreditar em mim desse jeito. — Eu só acompanho o que você já é — respondeu. No caixa, Morgana ficou tensa ao ver o valor. Thiago percebeu e falou antes que ela dissesse qualquer coisa. — A gente combinou. Isso é nosso plano. Ela respirou fundo e concordou. Saíram da loja com sacolas grandes e pesadas, mas o peso parecia leve. Era diferente carregar algo que representava sonho. No caminho de volta, Morgana não parava de falar. — Eu já sei o que quero pintar primeiro. — O quê? — perguntou Thiago, curioso. — Não sei explicar ainda — respondeu ela. — Mas sei que tem a ver com esperança. — Tudo seu tem — disse ele. Chegaram à casa dos Cameron ainda no meio da tarde. Clara estava na cozinha quando viu as sacolas. — Meu Deus… isso tudo é tinta? — perguntou, surpresa. Morgana riu. — É o começo, mãe. Clara se aproximou e abraçou a filha. — Fico tão feliz de te ver sonhando assim. Enzo apareceu na porta, observando em silêncio. Quando viu as telas, assentiu com respeito. — Quero ver essas pinturas — disse. — Tenho certeza que vão ser bonitas. Morgana sentiu o peito aquecer. Montaram tudo no quarto dela. A mesa foi afastada, a cadeira posicionada perto da janela para aproveitar a luz natural. As telas ficaram encostadas na parede, esperando. Morgana ficou parada por alguns segundos, apenas olhando. — Vai lá — disse Thiago, baixinho. Ela colocou um avental velho, prendeu o cabelo e escolheu um pincel. Molhou na tinta azul, hesitou… e passou pela tela. O primeiro traço saiu tremido. Ela recuou. — Ficou horrível — disse, quase rindo de nervoso. Thiago se aproximou. — Ficou verdadeiro. Ela respirou fundo e continuou. Outro traço. Depois mais um. Aos poucos, o medo foi dando lugar à concentração. As cores começaram a se misturar. Morgana se perdeu no próprio mundo. Thiago ficou sentado no canto, em silêncio, observando. O jeito como ela se inclinava, como franzia a testa, como sorria sozinha quando algo dava certo. Ali não havia doença, passado difícil ou medo do futuro. Havia criação. Depois de quase uma hora, Morgana se afastou da tela, suja de tinta nas mãos e no rosto. — Não tá pronta — disse. — Mas… eu gostei. Thiago se levantou e foi até ela. — Eu também. Ela virou o rosto para ele, insegura. — Você acha mesmo que alguém compraria isso? Thiago olhou para a tela com atenção. — Quem comprar vai levar mais do que um quadro — respondeu. — Vai levar a história de alguém que não desistiu. Morgana sentiu as lágrimas virem, mas sorriu. — Eu tô feliz — disse. — Muito feliz. Ele a puxou para um abraço cuidadoso, sem sujar demais. — Esse é só o começo — falou no ouvido dela. — Você ainda vai pintar muita coisa. Ela encostou a testa no peito dele, respirando fundo. — Obrigada por me dar coragem. — Obrigada por me mostrar que vale a pena acreditar — respondeu ele. A tela ficou ali, ainda incompleta, secando lentamente. Assim como os sonhos deles. Incompletos, em construção — mas finalmente ganhando cor. Morgana estava sentada no chão do quarto, cercada por pincéis ainda sujos de tinta seca e potes abertos. A primeira tela, aquela que nasceu tremida, agora estava apoiada contra a parede, finalizada. Ela a observava como quem olha para algo vivo — não perfeita, não simétrica, mas verdadeira. Thiago entrou devagar, com o celular na mão e um sorriso que ele não conseguia esconder. — Amor… — chamou, segurando a empolgação. Morgana levantou os olhos. — O que foi? Ele se sentou ao lado dela no chão e virou a tela do celular. — Lembra da foto que postamos do quadro? — Lembro… — respondeu ela, cautelosa. — Ninguém comentou muito. Thiago respirou fundo, sorrindo ainda mais. — Comentaram depois. E alguém comprou. O silêncio caiu como um susto bom. — Comprou? — Morgana repetiu, sem entender direito. — Comprou — confirmou ele. — Agora pouco. E sabe o melhor? Ela piscou, tentando acompanhar. — O quê? — As pessoas começaram a perguntar se tem mais. Morgana levou a mão à boca. O coração disparou. Por um instante, parecia que tudo ao redor tinha ficado distante. — Estão… perguntando por mim? — disse, com a voz baixa. Thiago assentiu. — Pelo seu trabalho. Pelo que você faz. Ela riu nervosa, os olhos marejados. — Eu achei que ia demorar. Ou que ninguém ia se interessar. — Eu não achei — respondeu ele, firme. — Eu sabia. Ele mostrou o valor da venda. Morgana arregalou os olhos. — Thiago… isso quase paga tudo o que a gente gastou com as telas. — Exatamente — disse ele. — Se vender mais um, já cobrimos o investimento inteiro. Morgana ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo o peso daquela informação. Não era só dinheiro. Era validação. Era prova. Era o mundo dizendo que o que ela sentia e colocava em cor tinha valor. Ela virou o rosto para Thiago e sorriu — um sorriso grande, luminoso, daqueles que nasciam de dentro. — Eu te disse, amor — falou, com uma mistura de alegria e incredulidade. — Eu te disse que ia dar certo. Thiago riu. — Disse mesmo. E eu acreditei antes até de ver. Ela se levantou de um pulo e o abraçou com força, sem se importar com a tinta nas mãos. — Obrigada por não me deixar desistir antes de começar. Ele a apertou de volta. — Obrigada por me provar todos os dias que acreditar em você é a decisão mais fácil que eu já tomei. Mais tarde, sentaram-se na varanda, com a noite chegando devagar. Morgana tinha o caderno no colo, já rabiscando ideias novas. Não desenhava mais por fuga. Desenhava por expansão. — O que você vai pintar agora? — perguntou Thiago. Ela sorriu, pensativa. — Coisas que eu sobrevivi — respondeu. — E coisas que eu ainda vou viver. Ele segurou a mão dela. — Então o mundo que se prepare — disse. — Porque ainda vem muita cor por aí. Morgana olhou para as telas encostadas na parede, agora não mais como desafio, mas como convite. A primeira tinha ido embora para a casa de alguém que ela nem conhecia. Mas tinha deixado algo muito maior para trás: A certeza de que ela podia.
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