Capítulo 27

1839 Palavras
O Dinheiro Deles, o Sonho Deles Thiago sempre soube que carregar o sobrenome da família vinha com privilégios. Nunca negou isso. Tinha conforto, tinha estrutura, tinha portas abertas. Mas também sempre soube que, se quisesse construir algo verdadeiro ao lado de Morgana, precisava ir além do que já estava pronto. Precisava do que fosse dele. Por isso, quando conseguiu o trabalho, não contou para todo mundo. Não fez anúncio, não comemorou em voz alta. Apenas chegou em casa mais tarde naquele dia, cansado, com as mãos doendo e a cabeça cheia, mas com um sorriso que não cabia no rosto. Era um estágio remunerado na área de engenharia. Nada glamouroso. Muito cálculo, muito relatório, muito café frio e poucas horas de sono. Mas era o começo. O primeiro dinheiro ganho com esforço próprio. Naquela noite, quando encontrou Morgana, contou como quem divide um segredo. — Arrumei um trabalho — disse, simples. Ela abriu um sorriso enorme. — Sério? — perguntou, os olhos brilhando. — Que incrível, Thiago! — Não é nada demais — tentou minimizar. — Dá trabalho, cansa… mas é meu. Morgana segurou a mão dele. — É tudo demais — corrigiu. — Você podia simplesmente usar o dinheiro da sua família. Mas escolheu construir o nosso futuro com as próprias mãos. Ele a olhou com admiração. — Eu quero chegar no nosso casamento sabendo que eu fiz a minha parte. Ela sentiu um nó na garganta. E, em silêncio, tomou uma decisão parecida. Morgana também queria ajudar. Não porque Thiago precisasse. Não porque alguém exigisse. Mas porque aquele sonho era deles dois, e ela queria sentir que também estava colocando tijolos naquela construção. Começou aos poucos. Seus desenhos, que sempre foram refúgio, passaram a ganhar outro significado. O caderno de cartolina, já gasto nas bordas, continuava sendo seu companheiro. Ela desenhava quando acordava, desenhava à tarde, desenhava à noite. Rostos, paisagens, detalhes simples do cotidiano. Desenhava emoções. Postou alguns trabalhos na internet, quase sem expectativa. Vendeu um. Depois outro. Depois mais alguns. Quando recebeu o primeiro dinheiro, pequeno, mas real, correu contar para Thiago. — Vendi três desenhos — disse, empolgada. Ele arregalou os olhos. — Como assim, vendeu? — As pessoas gostaram — respondeu, meio tímida. — Disseram que sentem paz olhando. Thiago sorriu de um jeito diferente. Não era orgulho comum. Era admiração profunda. — Você é incrível, sabia? — Eu só tô fazendo minha parte — respondeu ela, dando de ombros. Mas não era só isso. Era coragem. Depois de tudo que tinha enfrentado, Morgana podia escolher viver com medo, com cautela excessiva, com a ideia de que precisava ser protegida. Mas escolheu ser ativa, sonhadora, participante. Ela juntava o dinheiro em uma pequena caixa, guardada no fundo do guarda-roupa. Não contava exatamente quanto tinha. O valor não importava tanto quanto o gesto. Os dias foram passando. A rotina deles ficou intensa. Thiago dividia o tempo entre a faculdade e o trabalho. Morgana entre a escola, os desenhos e os planos. Às vezes estavam cansados. Às vezes discutiam por bobagens. Às vezes a saudade aparecia mesmo sem distância. Mas havia algo que os mantinha firmes. A contagem. Na parede do quarto de Morgana, havia um pequeno calendário. Não era sofisticado. Era simples, feito à mão. Cada dia riscado era uma vitória silenciosa. Quase um ano para o casamento. Numa tarde tranquila, sentados na varanda da casa dos Cameron, Morgana estava desenhando enquanto Thiago revisava alguns papéis do trabalho. O sol começava a baixar, pintando tudo de dourado. Ela parou de desenhar de repente. — Falta menos um dia — disse, sorrindo. Thiago levantou o olhar. — Menos um dia pra quê? Ela riu. — Pra nossa contagem. Hoje riscamos mais um dia do calendário. Ele sorriu, daquele jeito leve que só aparecia quando estava com ela. — Parece que foi ontem que eu entrei naquela joalheria — disse. — E parece que foi uma vida inteira que eu esperei você voltar do quartel — respondeu ela. Thiago se aproximou e sentou ao lado dela. — Às vezes eu fico pensando se a gente vai dar conta. Morgana fechou o caderno e o encarou. — E chega a alguma conclusão? — Chego — respondeu ele. — Que mesmo com medo, eu não quero tentar com mais ninguém. Ela sorriu, emocionada. — Eu também não. O vento passou leve, balançando as árvores. A vida não estava perfeita. Ainda havia contas, desafios, incertezas. Mas havia algo sólido entre eles: a certeza de que estavam crescendo juntos. Thiago olhou para as mãos de Morgana, manchadas de lápis. — Um dia, quando a gente estiver na nossa casa, quero pendurar seus desenhos na parede. — Todos? — perguntou ela, brincando. — Os que você quiser — respondeu ele. — Mas quero lembrar todos os dias que minha esposa construiu esse sonho comigo. Morgana sentiu os olhos marejarem. — Eu nunca imaginei que teria isso — disse baixinho. — Depois de tudo… Thiago segurou o rosto dela com carinho. — Você merece tudo isso. E mais. Ela encostou a testa na dele. — Falta menos um dia — repetiu. E, pela primeira vez, Thiago sentiu que o futuro não era um peso. Era uma promessa possível. O fim de tarde estava silencioso, daquele silêncio bom que não incomoda. Morgana desenhava sentada à mesa da varanda, concentrada, a ponta da língua quase escapando entre os lábios — um hábito antigo que Thiago achava encantador. Ele a observava em silêncio, apoiado no batente da porta, pensando em como a vida deles tinha mudado sem que percebessem. Ela já não era apenas a menina que desenhava em um caderno de cartolina para fugir da dor. Era uma jovem mulher cheia de talento, força e sonhos. — Morgana — ele disse, quebrando o silêncio — já pensou em pintar em telas? Ela levantou o olhar, surpresa. — Em telas? — repetiu. — Tipo… quadros mesmo? Thiago assentiu, animado. — Sim. Tela, tinta, pincel. Seus desenhos fariam sucesso. De verdade. As pessoas já gostam do que você faz no papel, imagina em quadro? Morgana ficou alguns segundos em silêncio, absorvendo a ideia. Nunca tinha se permitido pensar tão longe. Sempre foi pé no chão, talvez até demais. — Eu nunca pintei em tela — confessou. — Tenho medo de estragar. Thiago se aproximou e apoiou as mãos na mesa. — Todo começo dá medo. Mas eu acredito em você. E não é gastar dinheiro, é investir no que você é. Ela sorriu, emocionada. — Você sempre acredita em mim antes até de eu acreditar. — Porque eu vejo o que você às vezes esquece — respondeu ele. O vento passou leve, levantando algumas folhas do caderno. Morgana fechou-o com cuidado e respirou fundo. — Eu quero tentar — disse. — Quero muito. O sorriso de Thiago foi imediato. — Então tá decidido. A gente compra tudo. Ele fez uma pausa, como quem organiza pensamentos importantes. — E… eu também tava pensando em comprar um carro. Morgana franziu levemente a testa. — Um carro? — Sim — respondeu ele. — Um simples. Nada chique. A gente vai precisar. Faculdade, trabalho, médico, casa… é pra nós. Ela ficou quieta por um instante. Depois se levantou e entrou em casa. Thiago a acompanhou com o olhar, confuso. Pouco depois, Morgana voltou segurando uma pequena caixinha de madeira, já bem conhecida por ele. Sentou-se à frente dele e abriu a tampa. Dentro havia notas dobradas, algumas moedas, tudo organizado com cuidado. — Eu vou ajudar — disse ela, firme. Thiago arregalou os olhos. — Morgana, não precisa… — Precisa sim — interrompeu, com doçura, mas sem hesitar. — É pra nós dois. Esse dinheiro não é só meu. É nosso sonho também. — Mas eu posso pagar — insistiu ele. — Eu trabalho, eu… Ela fechou a caixinha com cuidado e segurou as mãos dele. — Você não tá casando sozinho, Thiago. Eu quero participar. Não quero ser alguém que só recebe. Eu quero construir com você. O silêncio que se seguiu foi profundo. Não havia discussão ali, apenas verdades sendo colocadas sobre a mesa. Thiago respirou fundo, sentindo o peito apertar. — Você tem noção do quanto isso me faz te amar ainda mais? — perguntou. Morgana sorriu. — Ainda bem. Porque eu não sei fazer diferente. Ele riu, vencido. — Então tá — disse. — Mas com uma condição. — Qual? — Você vai comigo escolher o carro. Os olhos dela brilharam. — Sério? — Sério. E depois a gente almoça fora… e se der tempo, dá uma pesquisada nas casas. Morgana levou a mão à boca, emocionada. — Você tá falando sério mesmo? — Mais sério do que nunca — respondeu ele. — Eu tirei a habilitação pra isso. Pra nossa vida começar a se mover. No dia seguinte, eles saíram cedo. O sol ainda estava baixo quando entraram no ônibus rumo à concessionária. Morgana observava tudo pela janela, como se cada detalhe fosse parte de um filme que finalmente estava sendo bom. Chegaram a um pátio cheio de carros. Não eram luxuosos, mas eram honestos. Simples. Funcionavam. — Esse aqui — disse Thiago, apontando para um modelo compacto — parece bom. Morgana passou a mão pela lataria, como se estivesse tocando um sonho. — Dá pra gente — disse ela. — Não é grande demais, nem pequeno. Conversaram com o vendedor, fizeram contas, anotaram valores. Morgana abriu a caixinha mais uma vez e colocou sobre a mesa. — Isso aqui é minha parte — disse. O vendedor sorriu, percebendo que não estava diante de um casal qualquer. Havia algo ali que não se comprava. Depois de tudo encaminhado, foram almoçar em um restaurante simples. Pediram pratos comuns, dividiram a sobremesa. Riram. Falaram sobre o futuro como quem não tinha mais medo de falar. — Eu imagino nossa casa pequena — disse Morgana. — Mas clara. Com uma mesa grande. — E uma parede cheia de quadros seus — completou Thiago. — Você insiste nisso… — Porque é verdade. Após o almoço, caminharam pelo bairro, observando placas de “aluga-se” e “vende-se”. Não entraram em nenhuma casa. Ainda não era hora. Mas olhar também era uma forma de sonhar. — Eu nunca pensei que chegaria tão longe — disse Morgana, de repente. Thiago a olhou. — Longe de quê? — De planejar uma vida — respondeu. — Teve um tempo em que eu só planejava sobreviver. Ele segurou a mão dela com força. — E agora você vive. Ela sorriu, com os olhos marejados. — Porque você ficou. No caminho de volta, o céu já estava alaranjado. O cansaço era bom, daquele que vem depois de um dia que valeu a pena. Thiago olhou para ela, encostada no vidro do ônibus, sorrindo sozinha. — Falta menos um dia — disse ele, repetindo a frase que já era deles. Morgana virou o rosto e sorriu. — E cada dia agora parece mais real. Eles não tinham tudo. Mas tinham o essencial: parceria, respeito e um amor que não tinha pressa — só direção.
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