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Malu
Vânia: Aqui dentro é como o Santiago diz que é. Se você não quer seguir as regras dele, então você tem que sair da minha casa, Maria Luiza, porque eu não sou obrigada a ficar brigando com o meu marido por causa de filha. Eu não vou bater de frente com o meu marido por sua causa. Ou você obedece o que ele está dizendo que você tem que fazer ou então sai da minha casa.
Malu: E eu posso saber quem vai sustentar essa casa? Porque eu trabalho igual uma cachorra em dois empregos. Eu me formei na faculdade e nem na minha formatura você foi porque ele não deixou. Mas o meu dinheiro pra comprar as coisas ele aceita, né? Agora tá tudo no bar.
Quando terminei de falar, ela me deu um tapa na cara. Virei o rosto para o lado com o impacto, mas quando olhei de volta para ela, minha mãe continuava com aquela expressão dura.
Vânia: Você não faz mais do que a sua obrigação. Eu sou sua mãe, eu te coloquei no mundo e você tem que ajudar em casa.
Malu: Eu tenho que ajudar em casa dando meu salário inteiro? Eu não tenho dinheiro pra sair com as minhas amigas, não tenho dinheiro pra comprar uma roupa nova. O seu marido é viciado em jogo e aposta todo o nosso dinheiro, e você acha isso normal?
Vânia: Eu já disse que os incomodados que se mudem. E eu garanto que o mundo lá fora é bem pior do que o mundo aqui dentro de casa, entendeu?
Malu: Eu garanto que nada vai ser pior do que morar aqui com você e com esse marido que você arrumou. Quer saber de uma coisa? Tudo bem. Se você quer que eu me mude, eu me mudo. Mas depois não adianta ficar arrependida atrás de mim, porque já é a sexta vez que você me expulsa de casa por causa desse homem. E no dia que eu for embora, eu não volto nunca mais.
Vânia: Você é uma ingrata. Puxou aquele desgraçado do seu pai. Ainda bem que ele desapareceu, porque, se eu encontrar aquele homem um dia, eu acabo com ele por ter me engravidado e depois sumido. A culpa da minha vida ser horrível é dele. O Santiago trouxe luz pra minha vida depois que seu pai sumiu, e você ainda é ingrata.
Malu: Eu sou ingrata? Eu trabalho desde os quinze anos pra ajudar dentro de casa. Ajudar não… pra sustentar essa casa, porque o seu marido, desde que perdeu o emprego, nunca mais procurou outro. Você faz os seus b***s e entrega todo o dinheiro na mão dele também. A gente m*l tem o que comer dentro de casa. Eu me formei na faculdade na força do ódio, porque nem deixar você assinar os papéis pra eu entrar na federal ele queria. Ele queria me prender aqui trabalhando pra sempre. Disse que faculdade ia acabar com a minha vida, mas quem acaba com a nossa vida é ele.
Vânia: Cala a boca, Maria Luiza!
Ela gritou e veio para cima de mim. Minha mãe começou a me bater, e tudo o que consegui fazer foi colocar os braços na frente do rosto para tentar me proteger, porque, por pior que ela fosse, ainda era a minha mãe.
Meu nome é Maria Luiza. Tenho vinte e três anos e acabei de me formar em fisioterapia. Tenho um metro e sessenta e oito, cabelos ruivos cacheados e olhos verdes. Todo mundo diz que eu sou bonita, mas eu nunca consegui me enxergar dessa forma. Minha mãe sempre fez questão de acabar com qualquer autoestima que eu tivesse. Ela dizia que eu parecia com o meu pai, e isso, pra ela, era um defeito.
Quando eu tinha treze anos, meu pai saiu para uma missão e desapareceu. Nunca mais voltou. Eu nunca soube exatamente com o que ele trabalhava. Tudo o que sei é que minha mãe o odeia até hoje por causa disso. O pior foi que, um ano depois, Santiago apareceu nas nossas vidas.
No começo ele parecia perfeito. Dizia que ia cuidar da gente, ajudar minha mãe e terminar de me criar. Mas foi justamente aí que começaram as primeiras investidas. Ele começou a dar em cima de mim de todas as formas possíveis, enquanto eu fingia não perceber e evitava aquilo da maneira que conseguia, porque eu era apenas uma menina de quatorze anos.
Quando completei quinze, comecei a trabalhar achando que finalmente teria minha liberdade financeira. Que ingenuidade. Todo o dinheiro que eu ganhava minha mãe pegava e entregava pra ele. E o pior de tudo era que Santiago era viciado em jogo. Passava o dia inteiro no bar bebendo, apostando e torrando o dinheiro que a gente conseguia com tanto esforço.
Só que o problema nunca foi apenas o dinheiro.
Santiago sempre quis controlar minha vida também. Sempre agiu como se eu fosse propriedade dele. Ficava colocando coisas na cabeça da minha mãe, manipulando ela, fazendo ela acreditar que eu era ingrata, rebelde, difícil… e era exatamente isso que fazia ela surtar comigo daquele jeito.
Quando ela finalmente parou de me bater, se afastou devagar, me encarou e falou com a voz fria:
Vânia: Eu quero que você entenda uma coisa. Eu amo o meu marido. Posso até amar você também, mas ele vem em primeiro lugar. Sabe por quê? Porque uma hora ou outra você vai seguir sua vida. Então é melhor começar a obedecer as regras dessa casa, porque, senão, eu juro que te coloco na rua. E eu não tô brincando.
Ela saiu do quarto batendo a porta, e eu me sentei no chão chorando.
Não era possível que ela não enxergasse que aquele homem era um monstro.
Que ele não se importava com ela.
Não se importava com ninguém.
Tudo o que importava pra Santiago era pegar o nosso dinheiro pra jogar, beber e viver no bar enquanto minha mãe se matava fazendo faxina na casa dos outros. E mesmo quando ele batia nela… mesmo quando fazia ela chorar… ela continuava dizendo pra todo mundo que ele era o melhor marido do mundo.