— Esconda-se no telhado, e prometa-me Ricco, prometa que não importa o que você veja ou ouça você não vai sair de lá.
— Mas mamma, eu estou com medo.
— Prometa Riccardo!
— Io prometo mamma, não sairei de lá não importa o que eu veja, ou escute eu não sairei.
— Isso filho, você é um bom garoto. Seu pai teria muito orgulho de você, agora escute, assim que for seguro sair, você vai dar um jeito de chegar até o seu avô, lembre-se de não deixar que ninguém o veja entendeu?
— Sim, mamãe.
— Não importa o que aconteça, seu avô saberá o que fazer.
— E você mamãe, onde você vai estar?
— Eu vou ficar bem se você estiver seguro, você pode se manter seguro por mim?
— Sim, eu posso, eu ficarei seguro eu prometo.
De novo, mais uma noite sem dormir. Já não sei dizer quando foi a última vez que dormi uma noite inteira, se é que já o tenha feito.
O som dos gritos, as palavras feias a voz grossa e estridente, e o lamento de dor de minha mãe era o que alimentavam as minhas noites de pesadelos.
Eu respondi vez após vez à comissão, tinha dito tudo o que vira e ouvira.
A voz que minha mente não conseguiu reconhecer, ou simplesmente bloqueou, e as botas que por uma fresta no telhado eu o vira dar o último golpe que dizimou a vida da minha mãe.
Eu não sabia quem era o homem, mas sabia que ele estava lá por mim, ele me queria, mas por quê? Após 20 anos eu estava pronto para descobrir.
Meu avô é toda a família que eu tenho, e fui obrigado a crescer longe dele, eu era um garoto quando mataram minha mãe, e meu avô me mandou para o Brasil para me proteger.
Meus padrinhos Jullius e Genna me ajudaram na parte mais difícil da minha vida, mas eles nunca deixaram de me preparar para a volta.
Meus negócios no Brasil? Não é muito diferente da máfia, sem armas e sem drogas, apenas o bom e velho jogo político.
Tenho tantos deles em minhas mãos, homens sem culhões capazes de qualquer coisa no intuito de se manterem ilesos. Policiais corruptos, imprensa e empresários e todos quantos me interessarem.
Eu costumo dizer que se fosse assaltado eu chamaria a facção criminosa mais próxima, ou o "Batman" como dizem por aí, mas nunca a polícia que costuma frequentar as minhas festas.
***
Aos dezesseis anos me tornei homem feito para as famílias. As tradições ainda são mantidas, pelo sangue e para o sangue até que a morte o separe.
Ou usando uma expressão digna da máfia, "Sanguinem intus non foris".
Os rituais de iniciação eram sempre os mesmos. Coragem e lealdade eram os primeiros atos.
No entanto me deram uma pequena situação para analisar e julgar.
Dois amigos saíram para beber, um deles fraco para bebidas encheu a cara até perder os sentidos, no entanto, os dois saíram com uma garota.
O bêbado acordou com a garota morta em um quarto de hotel, saiu da cena do crime e foi contar ao seu pai, como ele estava bêbado demais para lembrar, mesmo estando com a arma do crime na mão ele acusou o amigo, afinal era o amigo quem estava com a garota, o problema no entanto era que membros das famílias e seus associados não violentam e matam garotas bêbadas e depois voltam para casa. Não somos animais, uma vida por outra vida é preço a ser pago.
O número um se dizia bêbado demais ter matado a jovem, o número dois, era dono da arma e era ele quem saiu com a garota, e também quem teve a ideia de ir ao motel.
No entanto o número dois disse ter fodido o quanto quis com a garota, mas ela queria o amigo que não parecia assim tão bêbado quando ele saiu, já o número um, diz não se lembrar do caminho, e se lembrava apenas abrir os olhos e ver o amigo transando com a garota amarrada na cama, mas depois apagou.
Um único erro cometido custou a sua vida e a de seu pai, ele disse que estava bêbado demais, mas ele se lembra dela amarrada na cama, e deixou escapar que ela era muito quente, e que gritava como uma c****a.
Então eu atirei primeiro na cabeça de seu pai e depois na cabeça do bêbado, um bom pai protege o filho e morre junto com ele também.
Eu fui testado e aprovado.
Eu já tinha visto pessoas morrerem, mas não pelas minhas mãos, e isso era algo muito difícil de assimilar, mas eu não queria parecer fraco, queria que vovô tivesse orgulho de mim.
Foi um grande passo para mim, e para meus três amigos de infância.
Aldo Rizzo meu melhor amigo, e Jimmy D'Angelli com sua cabeleira loira, Jimmy deveria limpar toda uma família, ele estava apavorado, mas mesmo assim puxou o gatilho tantas vezes até que não restaram mais balas, e todas elas acertaram o alvo.
Eu me senti como se tivesse traindo meu pai, ele não queria que eu fizesse parte disso.
Minha mãe sempre dizia que ele queria que pelo menos o filho pudesse ter as mãos limpas, e a consciência livre. Eu teria dado isso à memória de meu pai, mas há um assassino lá fora que me quer morto, matou meu pai, minha mãe e agora ameaça a mim e ao meu avô.
Todos os meus amigos sentem a mesma coisa, nenhum de nós quer isso, nenhum de nós quis seguir os passos de nossos pais e avós.
Na cerimônia que me tornou um herdeiro da comissão, eu provei com sangue a minha honra, provei com a minha coragem e com os meus medos.
Ao fim da iniciação estávamos todos destruídos, Aldo parecia ter levado um tiro na coxa, o braço de Jimmy também não estava em melhores condições, e eu simplesmente me recusei a contabilizar os estragos, mas eu sabia que depois que o efeito da adrenalina passasse, não iria ser capaz de andar tão cedo.
Jimmy tinha os charutos e Aldo levantou-se como pode e apontou para nós.
— Eu não sei quanto a vocês bastardos filhos da p**a, mas eu estou indo tomar o maior porre da minha vida.
E foi assim que acabamos no hospital s*******o de quantas horas ficamos apagados.
***
Quando recebi o meu primeiro chamado à comissão, foi para receber a minha moeda, aquela que seria o meu legado, eu sempre soube que esse dia chegaria, mas nunca consegui preparar-me para ele.
Eu sabia que seriam dias difíceis, por isso mesmo já tendo começado a beber muito antes eu aceitei o convite de meus amigos para uma noite de bebidas e garotas. Jimmy, Aldo e o bastardo do Fabrizio já estavam quando cheguei, mas foi a chegada delas que realmente fez diferença na noite.
Irina Matteo, uma ruiva de cabelos esvoaçantes e boca deliciosamente carnuda colorida por um batom vermelho vivo, chamou a minha atenção,
Irina era protegida de Giacomo Rizzo, ela era apenas alguns anos mais nova do que eu, e estava linda, ela estava por aqui há anos, mas eu nunca havia prestado atenção, até por que na época eu acreditei que Aldo tinha uma queda por ela, mas acho que foi só impressão, pois eu sei que ele nunca a pegou, Aldo era do tipo que se gabava e adora exibir as suas conquistas.
Os pais da garota a haviam deixado em Venni com a família Rizzo, eles foram pegos em uma emboscada e mortos na mesma noite em que deixaram Irina.
Lembranças ruins à parte, eu tinha coisa melhor para notar naquela noite, a garota estava deliciosamente provocante, o álcool e aquele rebolado acabaram em uma enlouquecida noite de sexo, fato que me deixou em maus lençóis ao ser pego por Giacomo Rizzo.
Se eles estavam a procura de um bode expiatório, eu fui pego em uma grande rede.
Meu avô me fez aceita-la como esposa, eu disse que me casaria com ela, mas minha a condição era que o casamento só iria acontecer depois de pegar o assassino de meus pais, e ninguém ousou discordar.
Tive medo de aceitar a responsabilidade, pois acreditava que Aldo gostava dela, mas quando ele disse que não eu relaxei afinal, ela era linda, não seria nada r**m estar com ela.
Após ter meu futuro decretado por vovô e por Giácomo, fui mandado para o isolamento eu iria aprender sobre o meu legado, sobre as famílias e sobre a moeda da qual eu era agora um detentor.
Todos eram extremamente rigorosos comigo, não havia espaço para o menor erro, cada deslize recebia uma severa punição, eu fiquei feliz quando me deixaram sozinho, semanas focado nos segredos, nomes e rostos que eu deveria decorar e depois destruir.
Fui levado para o interior de uma sala de segurança de um banco na Umbria, e lá fiquei por longos dias, eu não podia ver ninguém, eram apenas eu e arquivos imensos para serem decorados e muitos deles só deveriam existir depois na minha cabeça, por isso depois de decorados seriam destruídos.
Eu tinha em minha frente a ficha de cada m****o das famílias, dentro e fora da Itália, até o nome de seus primeiros bichinhos de estimação eu tinha conhecimento, homens e mulheres, velhos e novos, nem mesmo os anciãos podiam manter seus segredos longe de mim.
Alguém lá fora queria esses segredos, e estava matando membros importantes das famílias no intuito de encontrar o detentor da moeda que agora girava entre os meus dedos.
Deixado isolado do mundo aprendendo sobre a moeda, meu legado era um fardo muito pesado, e não poder dividir nem mesmo com meu avô e esta era a parte mais difícil.
As cinco famílias, os detentores, os segredos de todas as moedas tudo estava em meu poder. Isso não me tornaria o homem mais feliz do mundo, antes faria de mim um homem morto.
Após meu período de reclusão, que graças a minha capacidade de memorização fora bem mais curto do que o esperado, estava pronto para voltar para Vennidit, e repetir a dose com Irina Matteo.
— Porca miséria! — gritou vovô batendo os punhos em sua mesa. — Irina sofreu um atentado filho, ela foi marcada, nosso inimigo nos deixou mais um recado.
Eu podia não estar apaixonado por Irina, mas ela era minha, foi dada a mim para cuidar. E esse filho da p**a a marcou, tocou o que não era dele para tocar.
Ao chegar ao hospital vi seu lindo rosto ferido, e meus olhos foram até a ferida exposta no seu pulso direito.
— Cubra isso, e não quero ouvir nenhuma palavra a esse respeito capisce?
Todos os presentes assentiram, incluindo os anciãos.
— Não se preocupe baby, eu vou tirar isso daí, ele não vai mais te machucar eu prometo.
Eu a vi chorar silenciosamente, não sei se de alívio ou se de descrença, mas se fosse a segunda opção eu estava pronto para provar a ela.
Ela olhou com tristeza para Aldo que acabava de entrar no quarto, ele também estava fodido com o ocorrido.
— Eu vou levá-la comigo, esse foi um recado para mim, se ele está tão perto eu não posso correr esse risco não vou deixá-la aqui até o casamento.
— Filho ela é sua para cuidar e proteger tem a minha benção. — disse Giacomo beijando me três vezes e em seguida beijando a testa de Irina.
Durante anos a comissão investigou sem conseguir conter os avanços do assassino, que parecia estar sempre um passo a frente, e agora eu precisava assumir meu lugar nessa guerra.
***
Irina era um mistério para mim, em alguns momentos era sexy, provocadora, parecia apaixonada e feliz e em seguida ela parecia inquieta, triste, distante e reclusa.
Eu pensei que o fato de eu não ter feito o pedido ainda a incomodava, mas eu não poderia me casar até que o assassino fosse pego, e concordamos que só haveria crianças depois que o risco fosse eliminado.
Irina dizia que eu era perfeito para ela, que era o sonho de qualquer mulher. Claro que fisicamente eu nunca deixei a desejar, e na cama muito menos, 1,92 de altura, pele bem bronzeada, cabelos castanhos, olhos verdes e um corpo sempre muito bem cuidado devido as constantes corridas e muita malhação, a barba curta e bem feita, era alvo de elogios tanto dela como de qualquer mulher que eu tivesse contato.
Eu fora criado para ser fiel a minha esposa, e ama-la mais do que a mim mesmo, mas ainda não estava pronto para deixar minha vida de solteiro e as mulheres simplesmente não facilitavam a prática monogâmica para mim.
Eu penso que ela notava uma coisa ou outra, mas nunca reclamou, e eu teria tempo para reconquista-la, eu a amaria o bastante para isso, mas descobrir quem me queria morto e o porquê era mais do importante, ele estava perto, eu não sabia explicar a sensação, mas eu estava atento,
Algo estava fora dos eixos, e ter a sensação de que não estava no controle desta vez me deixava muito irritado.