Ao entrar no quarto respirei fundo, tentando pensar em outra coisa que não fosse torturá-la até a morte. Irina havia me traído de tantas formas que era impossível decretar uma punição de cabeça quente. Sempre soube que havia um rato por perto, alguém que contava ao meu inimigo todos os meus passos, e agora eu sabia quem, mas queria uma confissão, mesmo que para isso eu tivesse que arrancar dela, e depois daria um tiro em todos os seus orifícios por me trair.
— Levante-se e se recomponha você não é uma vítima então não aja como se fosse.
— Você não sabe de nada Ricco, mas faça o que você veio fazer, eu não tenho mais nada a perder mesmo.
— Parece que não tem mesmo, você sabia que o homem que estava te comendo há pouco tempo atrás é o mesmo que matou os seus pais? Você sabia disso?
— O quê? Não, não foi ele — ela gritou — e ele mentiu Ricco eu nunca fiz nada com ele antes eu juro, essa foi a primeira vez acredite em mim, por favor, eu não queria que você visse isso me perdoa eu não tive escolha.
Ela se arrastou até meus pés, em lágrimas se agarrando ao meu cinto. Eu acertei seu rosto com um tapa ela caiu para o lado se encolhendo em posição fetal.
— Você é amante do homem que matou meus pais, que matou os seus pais, que tentou matar o meu avô, você acha que se arrastar feito uma c****a no cio até mim, vai fazer com que eu te perdoe? Que poupe a sua vida?
— Por favor, Ricco, eu não tive escolhas eu já estou morta de qualquer jeito, se você não me matar ele vai. Você tem uma arma, por favor, faça o que tem que fazer, se algum dia eu tive algum valor para você use sua arma.
— Meu pai não teve direito a clemência, minha mãe também não, por que você teria?
— Eu não sou amante dele, eu não tive escolhas, acredite em mim.
— Eu estava preocupado com você, eu te vi sofrer, te vi definhando dia após dia me culpei achando que era responsável por seu sofrimento.
— Não eu não sabia que ele estava vindo eu juro, e Vincent estava me ameaçando, você não entende? Eu precisava protegê-lo.
— Proteger a quem, a mim, ao Vincent?
— Não, eu tinha que proteger o, você não entende.
— Não, eu não entendo a p***a da mulher que eu jurei proteger e amar até o dia da minha morte, fode com o meu pior inimigo na p***a da minha casa, não, eu com certeza não entendo.
— Eu o ouvi falar com alguém hoje enquanto ele me... E-eu o ouvi dizer que ia esperar a comissão chegar, e então o caminho estaria livre. Ele quer toda a comissão, Ricco, você e seu avô, os anciãos e todos os outros detentores das moedas, eu juro eu tinha que protegê-lo, ele me prometeu que o pouparia você não entende, mas eu tinha que fazê-lo e agora nada mais importa.
— Quer dizer que o Vicente e quem está por trás dele está aqui há mais de uma semana e você não me contou porque queria me proteger, é isso? E você fez isso como, chupando o p*u dele? Deixando ele te comer embaixo do meu teto? — a arma em minha mão fez o click da trava de segurança, ela não merecia clemência, as minhas mãos tremiam.
Meus dedos se moveram e um único tiro fora disparado. A raiva que senti naquele momento foi de mim, eu senti a raiva crescente dentro de mim, raiva por não ter percebido, senti raiva por ter me importado tanto, raiva por ter deixado o inimigo entrar na minha casa e pior ter dividido a cama comigo.
Senti raiva por não conseguir atirar, por não acabar com a sua vida patética. Deixei-me cair sobre os meus joelhos por um momento, uma mão pendia a arma e com a outra apertei a ponte do meu nariz.
Não havia nexo entre meus pensamentos e meus sentimentos, meu peito doía tanto que não pude respirar, parecia não haver oxigênio suficiente, a cada tentativa meu peito rasgava de dor, eram tantas as razões para doer, mas eu não cairia na frente dela, não ali, não naquele momento.
Eu precisava sair de perto por um momento, então me levantei num impulso e sai do quarto, batendo forte a porta atrás de mim, sai daquele quarto consciente de que estava cometendo um erro, um erro muito grande e que esse erro se voltaria contra mim mais cedo ou mais tarde.
Desci até o meu porão, onde ficava uma das salas seguras,
Vincent Zucchero estava inconsciente, não lhe sendo permitido receber remédios para dor, em algum momento ela o venceu e ele apagou.
Puxei uma cadeira e o olhei tentando entender como ele conseguiu enganar-me por tanto tempo. Eu iria fazê-lo falar, esse era meu território. Eu nasci para isso, eu era o juiz, o júri e o executor.
De repente milhões de perguntas feitas por todos nós durante anos rondavam a minha mente.
Quem era Vincent Zucchero? Quem estava por trás dele e como mataram meus pais e bem embaixo do nariz de todas as famílias, como ele conseguiu derrubar tantos, como peças num jogo de xadrez sem que ninguém o soubesse, nem uma pista, nem se quer um deslize.
No entanto, ele se revelou agora se entregando em minhas mãos, qual era a intenção? Entregar Vincent como um bode expiatório? Seria o interesse juntar a comissão no intuito de atingir a todos de uma vez, em um país distante? Ousado, mas seria possível? Ele tentaria matar os anciãos aqui? Aqui em minha casa?
— Julius! — chamei meu padrinho que pareceu compreender minha mente antes mesmo de abrir a minha boca.
— Não é seguro certo?
— Não, eu preciso que um recado chegue a comissão, e quero que use a moeda.
— A moeda? Tem certeza?
— Sim.
— Quanto tempo?
— Antes que eles saiam de lá.
— Qual o recado?
— Diga que já sei quem é o traidor e que eu estou indo buscá-lo, diga-lhes que entregarei os três nas mãos deles bem antes do esperado.
— Certo Ricco, está feito.
— Após cumprir sua missão nós iremos partir, prepare tudo para esta noite.
— Certo filho.
Era um tiro no escuro, mas se minhas suspeitas estivessem certas, nem o Vincent e nem a Irina iriam falar, então eu precisava agir, logo ele saberia que a comissão não estava vindo sobre o Vincent e Irina, ele teria que mudar os seus planos, e eu só precisava estar atento.
Vincent começou a se mexer na cadeira, claro que eles o deixariam em uma posição desconfortável para minha apreciação.
Eu sei que ele não falaria o nome do filho da p**a, mas isso não significava que e eu não iria torturá-lo mesmo assim.
— Eu estava aqui pensando, meu pai sempre quis estar longe de tudo isso, ele jamais quisera ser um dos cinco. Não seria mais fácil deixá-lo sair e tomar o seu lugar? Porque mata-lo se tudo seria dele?
Ainda meu grogue por causa da dor, o homem ergueu a cabeça e me encarou com ódio mortal, eu não sabia ainda o porquê, mas estava prestes a descobrir.
— Você não conhece suas origens garoto, seu pai e seu avô estavam jogando fora todo o poder, um sistema que funcionou há séculos, mas o poder das cinco moedas só tem valor se todos falarem a mesma língua, e seu avô traiu a comissão quando deixou seu pai sair.
— Mas a saída do meu pai abria caminho para meu tio Vitto, mas claro que como ele se recusou a assumir o lugar do irmão creio que ele não era interessante para vocês, mas porque matar os outros? Os pais da Irina não fazem parte da comissão, por que mata-los?
— Como já disse você não sabe nada das suas origens moleque, e vai morrer por não conhecer o seu inimigo.
— Quem é ele Vincent, você sabe que tenho meios muito dolorosos de arrancar essa informação de você, porque não me diz logo e talvez eu me dê pôr satisfeito por ter arrancado apenas as suas bolas.
— Eu não vou precisar delas aonde eu vou — ele cuspiu as palavras com um lamento de dor. — Assim como você, eu já estou morto.
— Acho que está certo você está morto, mas não tão fácil assim, nós temos uma noite inteira.
Vincent ergueu a cabeça e tentou rir, sua risada era meio gorgolejante soava desesperada.
Seu gesto sinistro me dizia que o pior estava por vir, mas eu estava preparado desta vez.