Pré-visualização gratuita prólogo.
Finalmente era o grande dia! Depois de anos estudando, tinha conseguido passar no concurso EDETEN e começava hoje a lecionar para os presos. Eu estava extremamente nervosa, limpava frequentemente as mãos na roupa e encarava a pequena sala a minha frente.
Era bem precária, pra falar a verdade: uma mesa de escola, uma cadeira pra eu sentar, uma lousa removível, apenas dois gizes estavam no suporte da lousa, junto do apagador. Seis cadeiras estavam despesas ao redor da sala e apenas um guarda me encarava da porta. O lugar em si era tão abafado e apertado, que frequentemente eu mexia na gola da minha blusa, afim de afrouxar o sufocamento que sentia. Assenti para o policial e encarei quando o mesmo abriu a porta, um por um, todos foram entrando e arrastando a cadeira para onde se sentiam mais confortáveis. Esperei até que o último entrasse para dar início a aula.
Seu olhar me prendeu e tomou o ar de meus pulmões do instante que cruzou a porta até o minuto que se sentou. O bandido tão conhecido por mim arrastou sua cadeira para perto da janela e a empurrou para trás, de forma que o apoio da cadeira encostasse na parede, seu corpo foi junto, mas o homem não caiu.
— Bom dia. Eu... Hum... Me chamo Maria Fernanda e, bem, vou dar aulas pra vocês daqui em diante.
— Tá nervosinha, dona? — encarei o moreno tatuado que me olhava com ar de divertimento e dei um sorriso amarelo na esperança de esconder o que quer que eu estivesse sentindo. — Cê tá, né? A boneca não queria tá aqui, a gente também não!
Fiquei alguns segundos apenas encarando o moreno.
— Mas vocês não tem escolha, eu tenho... — dei um risadinha para disfarçar o medo e ele me acompanhou, arqueando uma das sobrancelhas enquanto me olhava de volta.
— Aí cê me pegou, boneca. — apoiou um de seus braços na mesa e fingiu estar concentrado, enquanto me encarava com um sorriso malicioso.
O guarda caminhou até mim, parecendo impaciente e me chamou para o canto, sussurrando no meu ouvido assim que me aproximei:
— Não pretendo ficar para ouvir a aula, professora. — e apontou para um vidro fumê do lado oposto da minúscula sala. — Não se preocupe, estará sendo observada o tempo todo.
Assim que o policial saiu, ouvi a risada maliciosa de um dos presos, o mesmo moreno que estava me importunando a pouco.
— Sabe que ele não está na cabine assistindo, não é, boneca? — um assobio saiu dos lábios dele e me perguntei o que aquilo significava. — e se quisermos, podemos fazer o que bem entendermos com você?
— Te aquieta, Baral! Deixa a moça dar aula.
O da janela, que comandava o morro onde eu morava, por sinal, me encarou, interrompeu seu amigo, e eu respirei aliviada.
Eu sabia que muito provavelmente, o guarda estaria sentado na cabine e mexendo no seu celular, estava longe de prestar atenção no que estava acontecendo aqui dentro, mas mesmo assim, me apeguei ao fio de segurança que me dizia que ele estava prestando atenção a tudo o que acontecia na pequena sala, torcendo pra não ser atacada por nenhum desses homens.
— Você quem manda, Baco. Vai, Mafe, começa!
Ignorei o tom debochado na voz do que se chamava Baral e tentava me provocar. Apenas foquei nos olhos castanhos de Baco me encarando seriamente e me encorajando a continuar e olhei o resto da turma. Certamente, devia estar no meio de um desfile de moda da prisão. Depois de Baco e Baral, haviam mais quatro tão m*l-encarados e igualmente bonitos!
Era de se estranhar que homens tão bonitos quanto aqueles fossem criminosos. Não querendo ser preconceituosa, mas sempre imaginei traficantes como homens asquerosos, barbudos, sujos e afins. Não esperava que fossem uma espécie de modelo do crime, como os que estavam na minha frente.
— Sem futuro. Criminosos. Marginais. Franelinhas. Sem caráter. Deliquente. — encarei lentamente o rosto de cada um, parando fixamente em Baco. Por alguns segundos esqueci como se respirava. — Essa foi a descrição que a direção do projeto EDETEN me deu sobre os seus presidiários. Muitos deles, acham uma bobagem a reintrodução dos presos na sociedade como meros civis, dado o passado de vocês.
Ouve três segundos de silêncio e pude ouvir a risada amarga de Baral, me controlei diante da vontade de revirar os olho e distribui algumas folhas de sulfites, juntamente com alguns lápis de cera. Era frustrante que, no meio de um Wwprocesso de reintrodução, eles não dessem um voto de confiança aos detentos e distribuissem lápis de verdade para eles. Mas, tudo bem! Eu esperava que com o tempo e conforme eles mostrassem dispostos, a direção do projeto oferecesse lápis e canetas.
— Não somos dignos de lápis de verdade? — o moreno me encarava com o mesmo ar debochado e eu me perguntava se essa implicância toda era pessoal ou apenas o jeito dele.
— Isto é para evitar possíveis acidentes... Leva tempo até que confiem em vocês novamente.
— O governo acha que vamos matar uns aos outros?
— E não vão? — um silêncio absoluto se fez presente e cada um dos 6 encarou o outro, desconfiados. — vou encarar o silêncio como um "não" , e é isso que precisam provar para o governo: que são confiáveis!
— E se não formos? — um loiro, de cabelo ralo e barba por fazer se pronunciou pela primeira vez desde que entrou.
— Não acredito que tenham razão para não serem, com essas aulas, o governo juntamente a direção do presídio deu um voto de confiança a todos vocês. Sabem, primeiramente, porque foram escolhidos?
Novamente, encararam uns aos outros e depois, me olharam, cada um com uma sobrancelha arqueada.
— Por que somos bonitos? — Baral encarou seus companheiros rindo divertidamente e eles os acompanharam na gargalhada. Odiava admitir, mas ele era engraçado.
— Essa foi boa, mas não! Dentre todos os detentos daqui, vocês foram os únicos que a direção conseguiu me dar um feedback positivo. — parei meu olhar no de baco, era incrível a capacidade para me prender que ele tinha. Eu simplesmente congelava meus olhos nos dele, incapaz de desviar. — e eu confio fielmente na mudança, que vocês podem ter uma nova vida. Por isso, pro nosso próximo encontro, quero que escrevam uma redação, no mínimo 15 linhas: se tirar a criminalidade de vocês, o que sobra? Respondam e tragam para mim na próxima semana!
O guarda que os trouxe já esperava do lado de fora com a porta aberta e aos poucos, eles foram se levantando e saindo da sala. Menos ele.
Ele não.
É claro que ele ficaria!
Veio até mim tão rápido que não tive tempo de reagir, o perfume de sabonete senador invadiu minhas narinas e eu respirei com dificuldade.
— Posso responder em menos de quinze linhas o que resta de mim se tirar a criminalidade, Dona. — Baco se aproximou o suficiente para eu tremer da cabeça aos pés diante nossa proximidade. — Um homem morto e dezenas cairão comigo. Você não tira a criminalidade de quem já nasceu dentro dela, seria o mesmo que tirar a tirania do d***o.
Procurei pelo o que restava da minha coragem e o empurrei delicadamente no momento que o guarda colocou a cabeça para dentro para checar se faltava mais alguém.
— Tenho certeza que irá se esforçar!
Baco só desviou seu olhar do meu no momento em que o guardou o conduziu para fora da sala. Soltei a respiração que nem me lembrava de prender e limpei a gota de suor que escorria da minha testa. Não fazia a menor ideia do que isso significava, mas meu peito se apertou: além de ser um dos criminosos mais perigosos do Brasil, Baco era o dono do morro de onde eu morava, mesmo preso, eu sabia que ele ainda mandava la...
Eu estava, sem dúvida alguma, lascada!