Como se contrai essa condição? — Ocasionalmente pode se desenvolver devido a um excesso de processamento capilar. Secagens, permanentes, esse tipo de coisa. Mas como provavelmente estamos procurando um indivíduo não identificado do sexo masculino, e como eu não vejo nenhum sinal de clareamento artificial, estou inclinado a dizer que isto não foi causado por meios externos, mas por algum tipo de anormalidade genética. — Como o quê? — Síndrome de Netherton, por exemplo. É uma condição recessiva autossômica que afeta o desenvolvimento de queratina. Queratina é uma proteína resistente e fibrosa encontrada nos cabelos e nas unhas. Também é a camada externa de nossa pele. — Se há um defeito genético, e a queratina não se desenvolve normalmente, então o cabelo é enfraquecido?
Erin assentiu. — E não é apenas o cabelo que pode ser afetado. Pessoas com Síndrome de Netherton também podem ter distúrbios da pele. Irritações e descamação. — Estamos procurando por um criminoso com um caso grave de caspa? — perguntou Rizzoli. — Pode ser até mais óbvio do que isso. Alguns desses pacientes sofrem de uma variação severa conhecida como ictiose. Sua pele pode ser tão seca como couro de jacaré. Rizzoli riu. — Então estamos procurando pelo Homem-Cobra! Isso deve facilitar nossa busca. — Não necessariamente. É verão. — E daí? — O calor e a umidade tornam a pele menos seca. Ele pode parecer completamente normal nesta época do ano. Rizzoli e Moore olharam um para o outro, acometidos pelo mesmo pensamento.
Ambas as vítimas foram assassinadas durante o verão. — Enquanto este calor continuar, ele provavelmente poderá se misturar com todas as pessoas — prosseguiu Erin. — Ainda é julho — disse Rizzoli. Moore fez que sim. — A temporada de caça dele apenas começou. O paciente desconhecido agora tinha um nome. As enfermeiras da Emergência tinham encontrado uma etiqueta de identificação presa ao seu chaveiro. Seu nome era Herman Gwadowski, e tinha 69 anos. Catherine estava em pé no cubículo de seu paciente, analisando metodicamente os monitores e equipamentos dispostos em torno de sua cama. Um ritmo normal de eletrocardiograma bipava através do osciloscópio. As ondas arteriais atingiam seu pico em 110/70, e a leitura de sua linha de pressão venosa central subia e descia como ondas num mar tempestuoso. A julgar pelos números, a operação do Sr. Gwadowski havia sido um sucesso. Mas ele não está acordando, pensou Catherine enquanto dirigia a luz de sua pequena lanterna para a pupila esquerda do paciente e depois para a direita. Quase oito horas depois da cirurgia, ele permanecia em coma profundo. Ela se empertigou e ficou olhando o peito do paciente subir e descer segundo o ciclo do ventilador. Ela o tinha impedido de sangrar até a morte. Mas o que ela tinha realmente salvado? Um corpo com um coração batendo e nenhum cérebro funcionando. Ouviu uma batida no vidro. Através da janela do cubículo viu seu colega cirurgião, Dr. Peter Falco, acenando para ela, uma expressão preocupada no rosto geralmente alegre. Alguns cirurgiões são conhecidos por seus ataques histéricos na sala de operação. Alguns marcham arrogantemente para a sala e vestem seus aventais cirúrgicos como se fossem mantos reais. Outros são técnicos frios e eficientes para quem os pacientes não passam de um amontoado de peças mecânicas necessitando de reparos. E também havia Peter. O engraçado e exuberante Peter, que cantava músicas de Elvis com sua voz de taquara rachada durante as operações, que organizava competições de gaivotas de papel no escritório e que alegremente se punha de quatro para brincar de Lego com seus pacientes da Pediatria. Catherine estava acostumada a ver um sorriso no rosto de Peter. Quando viu sua expressão preocupada através da janela, imediatamente saiu do cubículo de seu paciente.