Está tudo certo? — perguntou. — Apenas terminando minhas visitas. Peter olhou para os tubos e a maquinaria em torno da cama do sr. Gwadowski. — Ouvi dizer que você fez um salvamento e tanto. Uma hemorragia de vinte unidades. — Não sei se posso chamar isso de salvamento. — Ela tornou a olhar para o paciente. — Tudo funciona, menos a massa cinzenta. Durante uns momentos eles não trocaram palavra; ficaram ambos observando o peito do Sr. Gwadowski subir e descer. — Helen me disse que dois policiais vieram ver você hoje — disse Peter. — O que está havendo? — Nada de mais. — Esqueceu de pagar aquelas multas? Ela forçou uma risada. — É, foi isso. E estou contando com você para pagar a minha fiança. Eles saíram da UTI. Enquanto desciam no elevador, Peter perguntou: — Você está se sentindo bem, Catherine? — Por quê? Não pareço bem? — Francamente? — Ele estudou o rosto de Catherine, seus olhos azuis tão diretos que ela se sentiu invadida. — Você parece que está precisando de uma taça de vinho e um jantar num bom restaurante. Que tal? — Um convite tentador. Então? — Mas eu acho que vou ficar em casa. Peter levou a mão ao peito, como se tivesse sido ferido mortalmente. — Acertado de novo! Diga, existe alguma cantada que funciona com você? Ela sorriu. — Isso é para você descobrir. — Que tal esta? Um passarinho me contou que o seu aniversário é no sábado. Vamos dar uma volta no meu avião. — Não posso. Estarei de plantão. — Pode trocar com Ames. Vou falar com ele. — Peter, você sabe que não gosto de voar. — Não me diga que tem fobia de avião! — Apenas não gosto de abrir mão do controle da minha vida. Ele meneou a cabeça solenemente. — Personalidade típica de cirurgiã. — Essa é uma forma gentil de dizer que eu sou metida. — Então é um não definitivo para o passeio de avião? Não tenho como fazer com que mude de idéia? — Acho que não. Ele suspirou. — Bem, isso esgota minhas cantadas. Acho que você já rejeitou todo o meu repertório. — Eu sei. Você está começando a reciclá-las. — É isso que Helen diz também. Catherine ficou boquiaberta de surpresa. — Helen está lhe dando dicas sobre como me chamar para sair? — Ela disse que não consegue ver o espetáculo patético de um homem batendo a cabeça contra uma parede intransponível. Ambos riram enquanto saíam do elevador e caminhavam até o conjunto de salas. Era a risada confortável de dois colegas acostumados a brincar desse jeito. Manter a situação nesse nível significava que nenhum sentimento era ferido, que nenhuma emoção estava em jogo. Um flerte inocente que mantinha. ambos isolados de um envolvimento real. De brincadeira, ele a convidava para sair; de brincadeira, ela recusava, e a turma inteira participava da brincadeira. Já eram cinco e meia, e o turno dos funcionários havia acabado. Peter retornou para a sua sala e Catherine foi para a dela, pendurar o jaleco e pegar a bolsa. Enquanto colocava o jaleco no gancho atrás da porta, um pensamento lhe ocorreu. Atravessou o corredor e enfiou a cabeça pela brecha da porta da sala de Peter. Estava revisando prontuários, óculos de leitura enterrados no nariz. Ao contrário da sala bem organizada de Catherine, a de Peter parecia o gabinete da presidência do caos. Gaivotas de papel abarrotavam a lata de lixo. Livros e periódicos de medicina empilhavam-se nas cadeiras. Uma parede estava praticamente coberta por uma trepadeira. Perdidos nessa floresta de folhas, estavam os diplomas de Peter: um curso técnico em engenharia aeronáutica do MIT, um curso superior em medicina de. Harvard. — Peter? Tenho uma pergunta estúpida... Peter olhou por sobre os óculos. — Então veio ao homem certo. — Esteve na minha sala? — Devo telefonar para o meu advogado antes de responder? — Pára com isso. Estou falando sério. Peter se empertigou na cadeira e olhou Catherine bem nos olhos. — Não, não estive. Por quê? — Esqueça. Não é nada de mais. Catherine se virou para sair e ouviu o estalido da cadeira de Peter enquanto ele se levantava. Ele a seguiu até a sala dela. — O que não é nada demais? — Estou ficando compulsivo-obsessiva, só isso. Fico irritada quando as coisas não estão onde deveriam. — Como o quê? — Meu jaleco. Sempre o penduro na porta, e sei lá como ele acaba no armário de arquivos, ou em cima de uma cadeira. Sei que não é Helen ou as outras secretárias. Já perguntei a elas.