EP 3

1339 Palavras
A Dra. Catherine Cordell correu pelo hospital, as solas dos tênis guinchando no linóleo, e empurrou as portas duplas da Emergência. Uma enfermeira gritou: — Doutora Cordell, eles estão na Traumatismo Dois. — Já estou indo — disse Catherine, movendo-se como um míssil teleguiado até a sala dois da Unidade de Traumatismos. Meia dúzia de rostos fitaram-na aliviados quando ela entrou na sala. Com um único olhar avaliou a situação. Viu instrumentos desarrumados reluzindo numa bandeja, suportes com bolsas de solução de ringer lactato penduradas como frutas pesadas em árvores de troncos metálicos, gazes manchadas de sangue e embalagens rasgadas espalhadas pelo chão. O monitor cardíaco emitia um ritmo sinusal acelerado — o padrão elétrico de um coração correndo para se manter adiante da morte. — O que temos aqui? — perguntou, enquanto as pessoas se afastavam para deixá-la passar. Ron Littman, o chefe dos cirurgiões residentes, disparou seu relatório: — Pedestre não identificado, atropelamento seguido de omissão de socorro. Trazido inconsciente para a Emergência. Pupilas equivalentes e reativas, pulmões limpos, mas abdômen distendido. Peristalse ausente. Pressão arterial 60 por zero. Fiz uma paracentese. Tem sangue na barriga. Pegamos acesso venoso profundo, o ringer lactato está aberto no máximo, mas não conseguimos aumentar a pressão do paciente. — Sangue O negativo fresco a caminho? — Vai chegar a qualquer momento. O homem na mesa estava completamente nu, cada detalhe íntimo impiedosamente exposto ao olhar da doutora. Provavelmente na casa dos sessenta, já estava intubado e num ventilador pulmonar. Músculos flácidos pendiam de membros esquálidos e costelas sobressaíam como arcos. Doença crônica preexistente, pensou a doutora; chutando, câncer. O braço direito e o quadril estavam abrasados e ensangüentados devido ao atrito com o asfalto. Na parte inferior direita do peito uma contusão formava um continente vermelho na pele pálida como pergaminho. Não havia ferimentos perfurantes. Pendurou o estetoscópio no pescoço para conferir o que o residente acabara de lhe dizer. Não ouviu peristalse. Nem um resmungo, nem um estalido. O silêncio dos intestinos traumatizados. Movendo o diafragma do estetoscópio para o peito, prestou atenção nos sons de respiração, confirmando que o tubo endotraqueal fora posicionado adequadamente e que ambos os pulmões estavam sendo ventilados. O coração batia como um punho contra a parede peitoral. Embora seu exame tenha demorado apenas alguns segundos, ela tinha a impressão de se mover em câmera lenta, que tudo ao seu redor naquela sala cheia de residentes estava congelado no tempo, aguardando a sua próxima ação. — A pressão sistólica quase não chega a 50! — disse uma enfermeira. O tempo avançava num ritmo assustador. — Quero um avental e luvas — disse Catherine. — Abra a bandeja de laparostomia. — Que tal levá-lo para a sala de operações? — sugeriu Litman. — Todas as salas estão sendo usadas. Não podemos esperar. Alguém jogou para ela uma touca. Os cabelos ruivos de Catherine, que batiam em seus ombros, rapidamente foram escondidos. A doutora colocou uma máscara enquanto uma enfermeira desdobrava um avental cirúrgico esterilizado. Catherine introduziu os braços nas mangas e as mãos nas luvas. Não tinha tempo para fazer a assepsia, nem para hesitar. Estava no comando, e o paciente não identificado estava morrendo bem na sua frente. Lençóis esterilizados foram postos sobre o peito e a pélvis do paciente. A doutora pegou hemóstatos na bandeja e os usou para pregar os lençóis em seus devidos lugares, apertando os dentes de metal com um clique alto. — Onde está o sangue? — Estou checando com o laboratório — disse uma enfermeira. — Ron, você é o primeiro assistente — disse Catherine a Littman. Olhou à sua volta na sala e fitou um rapaz de rosto pálido em pé ao lado da porta. No crachá dizia: Jeremy Barrows, Estudante de Medicina. — Você aí. Vai ser o segundo assistente! O rapaz esboçou uma expressão de pânico. Mas... eu ainda estou cursando o segundo ano. Estou aqui só para... — Podemos achar outro residente de cirurgia no hospital? Littman fez que não. — Todos estão espalhados. Tem uma contusão de cabeça na Traumatismo Um e uma parada cardíaca no fundo do corredor. — Muito bem. — Olhou novamente para o estudante. — Barrows, você está dentro. Enfermeira, dê um avental e luvas para ele. — O que tenho de fazer? Porque realmente não sei... — Não quer ser médico? Então calce as luvas! Corado de vergonha, o rapaz virou-se para vestir o avental. Estava assustado, mas, sob muitos aspectos, Catherine preferia um estudante ansioso como Barrows a um arrogante. Já vira muitos pacientes serem mortos pelo excesso de confiança de um médico. Uma voz crepitou no circuito de som: — Alô, Traumatismo Dois? Laboratório. Terminei o hematócrito do paciente não identificado. Os níveis estão em quinze por cento. Ele está sangrando, pensou Catherine. — Precisamos daquele O negativo agora! — gritou a médica. — Está chegando. Catherine pegou um bisturi. O peso do cabo e o contorno do metal pareceram confortáveis em sua palma. O bisturi era uma extensão de sua mão, de sua carne. Respirou fundo, inalando o aroma de álcool e talco de luvas. Em seguida pressionou a lâmina na pele e fez sua incisão, direto no centro do abdômen. O bisturi desenhou uma linha de sangue brilhante na tela de pele branca. — Deixe o tubo de sucção e as esponjas de laparotomia preparadas — instruiu. — Temos uma barriga cheia de sangue aqui. — A pressão arterial m*l está chegando a 50. — O sangue tipo O negativo e o plasma fresco congelado estão aqui! Vou pendurar agora! Alguém fique de olho no ritmo. Diga-me como está indo. — Taquicardia sinusal. Ritmo em cento e cinqüenta. A doutora cortou pele e gordura subcutânea, ignorando o sangramento da parede abdominal. Não podia se dar ao luxo de perder tempo com sangramentos menores; a hemorragia mais séria estava dentro do abdômen e precisava ser detida. A fonte mais provável era um baço ou fígado rompido. A membrana peritoneal estava inchada, cheia de sangue. — Vamos fazer uma bela lambança aqui! — alertou a doutora, lâmina posicionada para penetrar. Embora Catherine estivesse preparada, a primeira perfuração da membrana liberou um jorro tão explosivo que ela sentiu uma pontada de pânico. Sangue se esparramou sobre os lençóis cirúrgicos e escorreu para o chão. O avental da médica estava encharcado de sangue, e ela sentia um líquido com cheiro de cobre escorrendo por suas mangas. E o líquido vital continuava a jorrar do paciente. A doutora introduziu afastadores, alargando a a******a do ferimento e expondo o campo. Littman inseriu a sonda de sucção. Sangue gorgolejou para dentro do tubo. Um fluxo de líquido vermelho e brilhante começou a encher o reservatório de vidro. — Mais esponjas! — berrou Catherine para ser ouvida acima do ruído da sucção. Ela havia enfiado meia dúzia de esponjas absorventes no ferimento e visto todas ficarem vermelhas num passe de mágica. Numa questão de segundos estavam saturadas. Ela retirou as esponjas e inseriu novas, posicionando-as em todos os quadrantes. — Estou vendo contrações ventriculares prematuras no monitor! — Droga, já suguei dois litros para o reservatório! — disse Littman. Catherine olhou para cima e viu que bolsas de sangue tipo O negativo e plasma fresco congelado gotejavam rapidamente nas sondas intravenosas. Era como derramar sangue numa peneira. Entrando pelas veias, saindo pelo ferimento. Eles não conseguiam manter o nível. Ela não podia ligar veias submersas num lago de sangue; ela não podia operar às cegas. Catherine retirou as esponjas, pesadas e gotejantes, e enfiou outras. Durante mais alguns segundos preciosos delineou as marcas. O sangue escorria do fígado, mas não havia um ponto óbvio de ferimento. Parecia estar escorrendo de toda a superfície do órgão. — Estou perdendo a pressão dele! — gritou uma enfermeira. — Grampo! — requisitou Catherine, e o instrumento foi instantaneamente colocado em sua mão. — Vou tentar uma manobra de Pringle. Barrows, enfie mais esponjas! Ordenado a agir, o estudante de medicina estendeu o braço em direção à bandeja e derrubou a pilha de esponjas de laparotomia.
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