parte 2EP 3

992 Palavras
Horrorizado, ele viu as esponjas caírem no chão. Uma enfermeira abriu um pacote novo. — Elas devem ser postas no paciente, não no chão — ralhou a enfermeira. E, quando seu olhar encontrou o de Catherine, o mesmo pensamento estava espelhado nos olhos de ambas as mulheres. Esse aí vai ser médico? — Onde coloco? — perguntou Barrows. — Apenas limpe o campo. Não consigo ver nada com esse sangue todo! Catherine deu-lhe alguns segundos para enxugar o ferimento. Então voltou a trabalhar, cortando o epíploo menor. Guiando o grampo a partir do lado esquerdo, identificou o pedículo hepático, através do qual passavam a artéria do fígado e a veia porta. Era apenas uma solução temporária, mas, se conseguisse obstruir o fluxo de sangue nesse ponto, poderia controlar a hemorragia. Com isso ganharia tempo precioso para estabilizar a pressão e bombear mais sangue e plasma para a circulação. Travou o grampo, obstruindo as veias no pedículo Para seu desespero, o sangue continuou a escorrer. — Tem certeza de que pegou o pedículo? — indagou Littman. — Eu sei que peguei. E sei que o sangue não está vindo do retroperitônio. — Talvez da veia hepática? Ela pegou duas esponjas na bandeja. A manobra seguinte seria um último recurso. Posicionando as esponjas na superfície do fígado, apertou o órgão entre as mãos enluvadas. — O que ela está fazendo? — perguntou Barrows. — Compressão hepática — disse Littman. — Às vezes isso pode fechar as bordas de lacerações ocultas. Impede a hemorragia. Cada músculo dos ombros e braços de Catherine retesou-se enquanto ela lutava para manter a pressão, para espremer o sangue de volta. — Ainda está vazando — disse Littman. — Não está funcionando. Catherine olhou para o ferimento e viu o reacúmulo estável de sangue. Mas de onde ele estava sangrando, afinal? E de repente ela notou que também havia sangue vazando estavelmente de outros pontos. Não apenas do fígado, mas também da parede abdominal, o mesentério. As bordas cortadas da pele. Ela olhou para o braço esquerdo do paciente, que se estendia para fora do lençol esterilizado. A gaze que revestia o ponto de entrada do cateter intravenoso estava empapada de sangue. — Quero seis unidades de plaquetas e plasma fresco congelado, para ontem — ordenou. — E inicie uma infusão de heparina. Dez mil unidades de bolus IV, depois mil unidades por hora. — Heparina? — disse Barrows, sem entender. — Mas ele está sangrando... — Isto é uma CID — asseverou Catherine. — Ele precisa de anticoagulante. Littman a estava encarando. — Ainda não temos os resultados do laboratório. Como sabe que é CID? — Quando recebermos os exames de coagulação já vai ser tarde demais. Precisamos agir agora. — Ela acenou para a enfermeira. — Administre. A enfermeira enfiou a agulha na entrada de injeção do cateter. Administrar heparina era um jogo arriscado. Se o diagnóstico de Catherine estava correto, se o paciente estava sofrendo de CID — Coagulação Intravascular Disseminada —, então grande números de coágulos fibrinosos estava se formando por toda a sua corrente sangüínea, como uma tempestade de granizo microscópica, consumindo todos os seus preciosos fatores de coagulação e plaquetas. Traumatismos graves, como um câncer ou uma infecção, podiam acionar uma cascata incontrolável de formação de coágulos fibrinosos. Como a CID gastava os fatores de coagulação e as plaquetas, ambos necessários para que o sangue coagulasse, o paciente começava a sofrer hemorragia. Para deter a CID, precisavam administrar heparina, um anticoagulante. Era um tratamento estranhamente paradoxal. E também um jogo. Se o diagnóstico de Catherine estivesse errado, a heparina pioraria o sangramento. Como se as coisas pudessem ficar piores do que já estão. Suas costas doíam e seus braços tremiam devido ao esforço de manter pressão sobre o fígado. Uma gota de suor correu por sua face e foi absorvida pela máscara. Alguém do laboratório voltou a falar pelo circuito interno. — Traumatismo Dois, tenho os resultados do paciente não identificado. — Prossiga — disse a enfermeira. — A contagem de plaquetas está baixa, menos de mil. O tempo de protrombina chegou a trinta, e ele está com produtos de degradação de fibrina. Parece que vocês estão aí com um tremendo caso de CID. Catherine viu a expressão admirada de Barrows. Estudantes de medicina são tão fáceis de impressionar! — Taquicardia ventricular! Ele está com taquicardia ventricular! Catherine olhou de relance os olhos para o monitor. Uma linha tracejava dentes pontiagudos na tela. — Alguma pressão? — perguntou. — Não. Perdi a pressão. — Inicie ressuscitação. Littman, está encarregado da parada cardíaca. O caos aumentou como uma tempestade, turbilhonando ao redor de Catherine com violência crescente. Um assistente entrou correndo com plasma fresco congelado e plaquetas. Catherine escutou Littman pedir drogas cardíacas. Viu uma enfermeira colocar as mãos sobre o esterno e começar a bombear o peito, cabeça balançando para cima e para baixo como um pássaro de brinquedo fingindo beber água. A cada compressão cardíaca, estavam aspergindo o cérebro, mantendo-o vivo. Também estavam alimentando a hemorragia. Catherine baixou o olhar para a cavidade abdominal do paciente. Ainda estava comprimindo o fígado, ainda contendo o maremoto de sangue. Será que era imaginação de Catherine, ou o sangue, que havia escorrido como fitas vermelhas e brilhantes entre os seus dedos, parecia estar reduzindo seu fluxo? — Vamos aplicar o choque — disse Littman. — Cem joules... — Não, espere. O ritmo está voltando. Catherine correu os olhos para o monitor. Taquicardia sinusal! O coração estava bombeando novamente, mas também forçando sangue para as artérias. — Estamos perfundindo? — inquiriu a doutora. — Qual é a pressão arterial? — Pressão arterial é... 90 por 40. Beleza! — Ritmo estável. Mantendo taquicardia sinusal. Catherine olhou para o abdômen aberto. O sangramento tinha sido reduzido para um vazamento quase imperceptível. Ela continuou segurando o fígado em suas mãos e ouvindo o bipe estável do monitor. Música para os seus ouvidos. — Turma, acho que salvamos uma vida.
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