Os dias que se seguiram ao momento especial no alto do morro foram uma mistura de alegria e ansiedade para Letícia. O beijo de Guilherme tinha deixado seu coração cheio de esperança, mas uma parte dela ainda não conseguia ignorar o peso que vinha com a escolha dele de se envolver com o tráfico. Cada vez mais, ela sentia que o mundo ao redor deles estava mudando, e Guilherme era puxado para uma realidade que o afastava do sonho que haviam compartilhado quando crianças.
Numa tarde, Letícia estava voltando da escola quando ouviu passos apressados atrás de si. Ao se virar, viu Guilherme vindo em sua direção, mas ele estava diferente — o olhar alerta, os ombros tensos, como se estivesse em constante vigilância. Ele usava um boné abaixado e um casaco preto, e isso acentuava ainda mais o ar de seriedade que agora parecia sempre presente nele.
"Oi, Lê," ele disse, sorrindo, mas seu tom parecia distante. "Desculpa ter sumido esses dias."
"Tá tudo bem?" ela perguntou, preocupada. "Você parece... cansado."
Ele hesitou por um momento antes de responder, desviando o olhar para o chão. "É, tô com umas coisas pra resolver. Muita correria."
"Você tem mesmo que continuar com isso, Gui? De verdade, eu fico preocupada."
Guilherme respirou fundo, como se estivesse tentando conter a frustração. "Lê, você não entende. Aqui, ou a gente aceita as coisas como são, ou a gente se vira. E eu tô só tentando... ganhar respeito."
"Mas que respeito é esse que te tira a paz? Você parece sempre... tenso."
Ele abriu a boca para responder, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, um carro preto passou devagar pela rua. Guilherme rapidamente se virou, olhando fixamente para o veículo até que ele desaparecesse na esquina. Letícia observou a expressão dele se transformar, como se algo o tivesse deixado em alerta.
"Quem era aquele?" ela perguntou, inquieta.
"Ninguém que importa," ele murmurou, mas a firmeza em sua voz deixou claro que era mais sério do que ele queria admitir. "Só uns caras que... você não precisa se preocupar."
Eles seguiram o caminho em silêncio até a casa de Letícia. Ao chegarem, ele se despediu rapidamente e foi embora, mas ela não conseguia parar de pensar na tensão que ele parecia carregar nos ombros. Pela primeira vez, Letícia se perguntava se o envolvimento de Guilherme com o tráfico já tinha ido longe demais para que ele pudesse sair.
Nas semanas seguintes, a mudança em Guilherme se tornou ainda mais evidente. Ele aparecia menos no bairro e, quando o fazia, parecia sempre estar olhando por cima do ombro, como se estivesse esperando por algo — ou alguém. Letícia tentava alcançar a versão dele que conhecera na infância, mas era como se o Guilherme que ela amava estivesse escondido por trás de uma fachada que ele criara para sobreviver naquele mundo.
Um dia, Letícia viu Guilherme no ponto de ônibus, conversando com João, o primo que o havia introduzido ao tráfico. Ela sentiu uma pontada de desconforto ao ver o primo, cuja reputação era conhecida no morro. João era um dos homens de confiança do chefe do tráfico local, e Letícia sabia que, com ele, o assunto sempre envolvia dinheiro, armas e respeito, o tipo de respeito que Guilherme parecia estar obcecado em alcançar.
Assim que João se afastou, ela se aproximou de Guilherme. Ele parecia surpreso ao vê-la ali, mas rapidamente disfarçou, com um sorriso nervoso.
"Você sabe que ele é perigoso, Gui. Não entendo por que você insiste em ficar perto dele."
Guilherme suspirou, passando a mão pelos cabelos, impaciente. "João só tá me ajudando. Ele é família, Letícia. E ele me entende. Eu preciso disso."
"Mas, Gui, e se você se machucar? E se alguma coisa acontecer com você?" A voz dela falhou, traindo o medo que sentia.
"Eu sei o que tô fazendo," ele disse, mas Letícia via a insegurança em seu olhar. "E não vou deixar nada acontecer comigo. Eu tenho você, não tenho?"
Aquela promessa, tão carregada de incerteza, fez com que Letícia se sentisse impotente. Guilherme não estava só mergulhando em um mundo perigoso — ele estava arrastando a si mesmo cada vez mais fundo, e ela não sabia como tirá-lo de lá.
Naquela noite, Letícia m*l conseguiu dormir, sua mente cheia de perguntas e preocupações. Sentia-se dividida entre o amor que sentia por ele e o medo constante de que a vida que ele estava levando pudesse levá-lo a um caminho sem volta. Pela primeira vez, começou a pensar se realmente conseguiria mudar algo, se seu amor por ele seria suficiente para afastá-lo de um mundo que só o consumia cada vez mais.
Nos dias seguintes, Letícia tentava encontrar momentos para conversar com ele, para que ele sentisse que ainda tinha uma escolha. Mas Guilherme parecia cada vez mais distante, mais enredado nas teias do tráfico, e as conversas que antes tinham uma leveza quase inocente agora eram cheias de tensão e de palavras não ditas.
Até que, numa tarde, Letícia estava voltando da escola e viu Guilherme mais uma vez parado na esquina, mas, desta vez, ao lado dele estava um homem que ela nunca tinha visto antes. Ele parecia mais velho e estava bem vestido, o que contrastava com a simplicidade do morro. Letícia observou, tentando não ser notada, enquanto o homem falava com Guilherme, gesticulando com autoridade. Guilherme mantinha a postura rígida, ouvindo atentamente, como se estivesse recebendo ordens.
Quando o homem foi embora, Letícia se aproximou, sem esconder a preocupação em seu rosto. "Quem era aquele, Gui?"
Ele hesitou, mas logo tentou disfarçar. "Alguém que cuida dos negócios por aqui. Nada que você precise se preocupar."
"Gui, eu não gosto disso. Cada vez mais parece que você tá se envolvendo com pessoas perigosas. E se um dia você não conseguir sair?"
Guilherme olhou para ela, e Letícia pôde ver um lampejo de arrependimento em seus olhos. "Eu não sei, Lê. Mas… eu tô fazendo isso pra gente. Pra que, um dia, a gente possa sair daqui, pra que eu tenha algo pra te oferecer."
Letícia balançou a cabeça, as lágrimas começando a encher seus olhos. "Eu não quero nada disso, Gui. Eu só quero você, do jeito que você era."
Ele tentou abraçá-la, mas Letícia recuou, sentindo-se incapaz de aceitar a justificativa que ele usava para as escolhas que estava fazendo. Ela virou-se e saiu apressada, com o coração apertado, sentindo que o rapaz que ela conhecia estava cada vez mais longe, cada vez mais envolto em uma escuridão que ela temia não poder combater.
Naquela noite, sozinha em seu quarto, Letícia sentiu pela primeira vez o medo real de que pudesse perder Guilherme para aquele mundo sombrio. Era um medo que a deixava sem fôlego, e uma pergunta ressoava em sua mente: até onde ela seria capaz de lutar para salvá-lo de si mesmo?