Letícia passou os dias seguintes com um aperto no peito, como se um peso invisível pressionasse cada respiração. Os avisos que ela dera a Guilherme pareciam ter caído em ouvidos surdos. Ele estava mais distante, cada vez mais submerso naquele mundo do tráfico. E, ao mesmo tempo, Letícia sentia que ele lutava internamente, dividido entre o amor que ainda nutria por ela e a realidade que havia escolhido.
Numa noite, enquanto estava em casa tentando estudar, Letícia ouviu uma série de passos apressados lá fora. Logo em seguida, um som de batida na porta a assustou. Quando abriu, encontrou Dona Marlene, mãe de Guilherme, com o rosto carregado de preocupação.
"Letícia, você viu o Guilherme? Ele não veio pra casa hoje, e ninguém sabe onde ele tá."
O coração de Letícia quase parou. Ela sabia que Guilherme tinha passado as últimas noites fora, mas nunca por tanto tempo. "Não vi, Dona Marlene… Mas posso ajudar a procurar."
Letícia pegou sua jaqueta e saiu às pressas pela rua com a mãe de Guilherme, os pensamentos correndo. Ela sabia que Guilherme estava envolvido em coisas que preferia não revelar, mas o medo de que algo grave tivesse acontecido fazia seu coração bater forte.
Elas perguntaram a conhecidos e amigos, mas ninguém tinha informações concretas. Até que, em uma esquina escura, encontraram João, o primo de Guilherme. Ao ver Letícia e Dona Marlene se aproximando, ele deu um suspiro cansado.
"Vocês tão procurando o Gui, né?" João perguntou, com uma expressão que misturava cansaço e irritação. "Ele tá se enfiando em coisas que nem eu consigo segurar."
"Onde ele tá?" Letícia perguntou, a voz firme, mas trêmula.
"Tá lá no depósito, perto do campo. Ele se meteu numa briga feia ontem. Uns caras de uma outra facção... Foi feio, Letícia."
Letícia sentiu uma onda de pavor. Antes que pudesse pensar, estava correndo na direção do depósito. João e Dona Marlene chamaram por ela, mas nada a deteria. Ao chegar, encontrou o lugar escuro, m*l iluminado por lâmpadas fracas. O ambiente tinha um cheiro forte de gasolina e poeira, e o silêncio era quase ensurdecedor.
Foi então que viu Guilherme. Ele estava sentado contra a parede, o rosto machucado e os olhos cerrados, como se estivesse resistindo a uma dor profunda. Ao ouvir os passos de Letícia, ele abriu os olhos, surpreso.
"Lê? O que você tá fazendo aqui?" Sua voz estava fraca, e Letícia notou o corte em seu lábio, além de manchas de sangue em sua camisa.
"Gui... o que aconteceu com você?" ela perguntou, ajoelhando-se ao lado dele. Sentia uma mistura de raiva e tristeza, mas acima de tudo, queria apenas que ele estivesse seguro.
"Foi só uma briga, nada demais," ele tentou dizer, desviando o olhar.
Letícia tocou o rosto dele, ignorando sua resistência. "Isso é o que você chama de ‘nada demais’? Gui, olha só pra você…"
Ele fechou os olhos, respirando fundo. "Eu não queria que você me visse assim. Mas isso é o que eu escolhi. E agora… não tem volta."
"Não tem volta? Gui, você pode parar. Pode sair disso. Eu tô aqui com você," ela sussurrou, a voz embargada. "Mas eu não sei por quanto tempo eu vou aguentar ver você se machucar desse jeito."
"Eu sei, Lê. E eu sinto muito." Ele a encarou, e Letícia viu algo de desesperado em seus olhos, uma vulnerabilidade que ele tentava esconder. "Mas eu não tenho outro jeito. Eu já tô dentro, e eles não vão me deixar sair assim, do nada."
Letícia engoliu em seco, uma lágrima escapando de seus olhos. Sabia que o mundo do tráfico não deixava espaço para quem tentava escapar. Mas também sabia que Guilherme ainda tinha escolha, mesmo que ele próprio não visse isso.
Ela ajudou Guilherme a se levantar e o apoiou no caminho para casa. Ele mancava, e Letícia sentia cada passo como uma lembrança dolorosa de que o garoto com quem sonhara um futuro estava cada vez mais distante. Ao chegarem em frente à casa dele, Dona Marlene os aguardava com o rosto carregado de alívio e preocupação.
“Guilherme, o que você anda fazendo, meu filho?” A mãe o abraçou, ignorando as manchas de sangue e as roupas sujas. "Você precisa parar com isso. Essa vida só vai te levar a um fim que nem eu quero imaginar."
Guilherme apenas a abraçou de volta, mas não disse nada. Letícia se afastou, observando a cena com o coração pesado. Era como se Guilherme estivesse preso entre dois mundos — o do amor de sua mãe e o da lealdade ao tráfico, que o segurava com garras de ferro.
Naquela noite, enquanto caminhava de volta para casa, Letícia pensou em tudo o que havia vivido com Guilherme, em todas as promessas que ele fizera e quebrara. Sentia-se desamparada, dividida entre o amor que ainda tinha por ele e a necessidade de se proteger de um mundo que ameaçava destruí-los.
Quando finalmente chegou em casa, se jogou na cama e deixou as lágrimas escorrerem. Ela sabia que não podia obrigá-lo a mudar, mas também sabia que não podia continuar assistindo enquanto ele se afundava em uma vida que ela jamais escolheria para si.
Nas semanas que se seguiram, Letícia começou a se distanciar de Guilherme. Tentava evitar os lugares onde ele costumava estar e se concentrava cada vez mais nos estudos. Sabia que essa escolha era dolorosa, mas estava convencida de que precisava proteger a si mesma. Mesmo amando-o, Letícia começava a entender que, talvez, o melhor para os dois fosse seguirem caminhos diferentes.
No entanto, Guilherme não aceitava a distância dela com facilidade. Ele a procurava, aparecia em sua casa, e insistia em tentar retomar o que tinham, mas Letícia era firme. "Eu não posso ser parte de uma vida que só traz sofrimento, Gui. Eu não posso te acompanhar nesse caminho."
Em um dos encontros, Guilherme segurou sua mão, com uma expressão de tristeza. "Lê, você é a única coisa boa que eu tenho. Sem você, eu... não sei o que fazer."
Ela se afastou, com o coração partido. "Gui, você sabe o que tem que fazer. Eu sempre vou te amar, mas não posso continuar me machucando."
E assim, Letícia começou a construir uma nova vida, focando em sua paixão por ajudar os outros e em seus estudos para, quem sabe, se tornar psicóloga. O peso da decisão era esmagador, mas ela sabia que precisava pensar em si mesma. Cada vez mais, o amor e o cuidado que sentia por Guilherme se transformavam em uma força silenciosa que a motivava a ser alguém melhor.
Letícia sabia que essa história com Guilherme deixaria marcas para sempre, mas estava decidida a encontrar um novo caminho, mesmo que isso significasse caminhar sozinha.