SURPRESAS PARTE 1.

1668 Palavras
(Gabriela Calheiros) Hoje é dia de fazer os exames, passamos o dia fora até mais ou menos quatro da tarde, ela ainda está cansada, pergunto se está sentindo alguma coisa e ela diz que não, mas cada dia que se passa mais preocupada fico. Também liguei para Nanda, após um pequeno desgaste ela concordou em ajudar para que a mãe não precise mais trabalhar, ela tem condições, sei disso. Jamais faria isso se não tivesse certeza de que ela pode muito bem ajudar, afinal é pelo bem da nossa mãe. Falei com Duda também, ela ficou mais preocupada que Nanda e prometeu ajudar mais, entrarmos em acordo sobre valores e falamos com Beth. Talvez fosse bom eu procurar um segundo emprego a noite, mas seria impossível sobreviver sem tempo para dormir. Decidi continuar as horas extras, tudo vai ficar bem. Preparo um café reforçado para ela quando chegamos da rua. A noite vou até a casa de Ali, o encontro dela rolou no sábado passado, ela queria me contar tudo. Assistimos um filme na TV de cinema que tem no quarto dela, com direito a pipoca, refrigerante, chocolates e sorvete. Ali sempre prepara tudo quando venho para cá. — Não acredito que perdi duas horas da minha vida. — Ela senta na cama quando o filme termina, gargalho alto enquanto permaneço deitada abraçando as almofadas. O mocinho morreu deixando sua amada triste e desolada. — Só porque não gostou do final não quer dizer que o filme seja r**m. — Quer dizer sim! — Ela levanta e põe em um canal qualquer, sentamos no chão e tomamos sorvete. Jogamos conversa fora por um tempo. Ali vai colocar as taças e o sorvete na cozinha. Fico sozinha no quarto por alguns minutos, sou tão feliz por Ali ter conseguido pessoas boas para adotá-la. Não tenho inveja dela nem de ninguém, mas as vezes imagino como deve ser crescer rodeada de pessoas que te amam. Sonho acordada com o dia que vou poder estudar, será que iria me casar um dia? Uma parte de mim morreu junto com o último relacionamento, como uma praga ouço meu celular vibrando no chão. "Hoje foi um dia lindo. Só não foi perfeito porque não consegui te ver. Você está cada dia mais linda, Gabi." Bloqueio a tela do telefone e o aperto tentando acalmar as batidas do meu coração. Se não conseguiu me ver quer dizer que tentou, hoje é minha folga... Ele foi no meu trabalho. Ele sabe onde eu trabalho. O celular vibra de novo. "Não acredito que está solteira, além de linda, leva uma vida tranquila, ainda é uma boa garota. Vamos nos ver novamente?" É Marcelo, não tenho mais dúvida. Não são as megeras da loja, essa não é uma brincadeira. Ele está me observando de verdade. Deixo o celular de lado, eu devia chamar a polícia? E se eu der de cara com ele na rua? Marcelo vira um monstro quando recebe um "não" e eu não tenho resposta diferente disso para dar. Bloqueio o número, vou esquecer isso, depois aciono a polícia. Ali volta e assistimos um desenho, depois vamos nos sentar na varanda que é cercada com placas de vidro. A vista é linda, o condomínio fica há duas ruas da praia e Aline mora no décimo terceiro andar, dá para ver o mar, as luzes dos outros prédios e casas ao longe, a noite ainda está linda nos presenteando com a vista da lua cheia e estrelas. Observo o vai e vem das ondas enquanto estou sentada em um dos bancos da varanda, Ali está de frente para mim sentada em outro banco. Apoio a cabeça no ferro que está acima da placa de vidro e é parte da decoração. — E o encontro? — Puxo assunto. Ela sorri enquanto o vento passa bagunçando seus cabelos ruivos. — Foi bom, ele meio que me segue na faculdade agora. Ligou segunda e ontem de novo. — Ele gostou de sair com você. — Acho que sim. O restaurante que ele me levou é maravilhoso. Depois fomos ao planetário. — Planetário? – Aline ama planetário. Ele é esperto, subiu um pouquinho no meu conceito. — Ele pesquisou. — Acho que sim. – Seus ombros se encolhem e depois voltam ao normal, indicando que ela não sabe ao certo.— Foi muito bom, Gabi. Ele me disse um monte de coisas bonitas. Ela revira os olhos mas está sorrindo um pouco. — E você acreditou? — É meio difícil não acreditar quando estou vendo toda essa transformação diante dos meus olhos né? Eu estou ferrada. — Ela cobre o rosto com as mãos. — Por quê? — Por que estou a ponto de acreditar em um homem, Gabi. Tem algo pior que isso? – Ela gesticula com a mão que antes cobria o rosto. — Talvez não seja tão r**m assim. — Digo fazendo careta porque a frase parece absurda até para mim. — Nem você acredita nisso. — Sua sobrancelha está levantada e me permito rir. É verdade, não acredito mesmo. Olho toda a extensão da vista, amo ver as pequenas luzes da cidade, cada ponto de luz me passa a sensação de vida, imagino várias vidas acontecendo de formas diferentes. Cada pequeno pontinho é uma realidade diferente. A vida continuando em seu ciclo, acontecendo. — Na verdade eu não acredito nisso. – Afirmo. — Em que, no que acabou de dizer? — Não. Que todos são iguais. Não acredito que todos os homens são iguais. – Aline fica em silêncio e acho que está surpresa. — É claro que acredito que a maioria é imprestável e tudo mais, traidores, mentirosos, cafajestes, imaturos... Mas acho que existem exceções. Devem estar por aí, não é? — Espero que sejamos uma dessas sortudas que vão encontrá-los. – Trocamos um olhar. — Hmm. Podem ser caras comuns, desses que antes é um b****a mas que depois de uma lição da vida se torna o cara certo. — Sorrio para ela. Ali me contou a história de Breno. Ele era o típico líder da turma de idiotas da faculdade, vivia de farra em farra, trocando de namorada como trocava de roupa, tirando péssimas notas. Tinha atitudes horríveis na universidade, preconceituoso, orgulhoso, convencido e tudo que há de ridículo. De dois meses para cá uma tragédia aconteceu, ele e os pais sofreram um acidente de carro terrível. O pai de Breno ficou paraplégico, segundo ela havia chances de voltar a andar mas seria difícil. Breno ficou afastado da faculdade por três semanas, e quando voltou já não era mais o mesmo. Deixou a galera, não era mais o pegador de antes, ele simplesmente mudou radicalmente. Chegamos a conversar sobre a mudança radical dele algumas vezes. Nas últimas semanas se aproximou de Ali, a convidou para sair duas vezes e levou dois nãos. Mas Ali aceitou na terceira tentativa e saíram no sábado. "Sem expectativas" — Eu tenho medo de ser iludida. Já o vi fazendo coisas bem ruins, Gabi. Sei que ele mudou, e bem, a mudança foi antes dele se aproximar de mim. Mas ainda assim sinto receio. — Entendo. – Ajeito uma mecha de cabelo. — Ele disse que o acidente mudou a mente dele, que viu como o pai precisou da mãe quando recebeu a notícia de que estava paraplégico. Viu os amigos próximos se afastarem, mas também viu o quanto a mãe não o abandonou, ela cuida dele. Disse que não sabia o que era amor até ver os pais após o acidente. — O que mais ele disse? — Pergunto. — Que quer ter o que os pais tem, que quer amar e ser amado de verdade porque o amor é capaz de nos fazer superar até os momentos mais difíceis. — Uh, profundo. – Provoco. — Profundo até demais. Parece um irmão gêmeo dele. — Segundo ele, não quer me assustar, só quer que eu saiba o que aconteceu dentro dele após o acidente para justificar a mudança e que está disposto a se comprometer com alguém. Achei isso legal. Ele disse tudo mas deixou claro que não há pressão. Pode ser eu, pode não ser. Ele vai continuar tentando. Isso é bom, é leve. — Está apaixonada. — Murmuro. — Claro que não, Gabi! — Ela me olha brava, o momento romântico se quebra e voltamos a realidade enquanto eu gargalho de sua reação. — Só estamos conversando. Meu celular começa a tocar, olho para dentro do quarto e o avisto ainda no chão. Lembro da mensagem que recebi agora há pouco, será que é Marcelo? Levanto rápido e quando olho o visor vejo que é Beth. — Oi mãe, daqui a pouco vou embora. — Gabriela? — Não é Beth, é Duda. Sua voz está trêmula. Meu coração aperta no mesmo instante. — Duda? Cadê a Beth? Ela está bem? — Não, ela teve um infarto. Estamos no hospital. — Ai meu Deus! — Começo a tremer, meus olhos enchem de lágrimas.— Qual hospital? Vejo Ali se aproximar, ela parece estar ouvindo há algum tempo pois pega papel e caneta, Duda diz o endereço e eu repito para Ali anotar. — O que aconteceu? — Ela pergunta assim que desligo a chamada. — Beth infartou. Está no hospital. Tudo acontece muito rápido. Ali chama um carro e vamos correndo para o hospital. Adentro pelos corredores com os olhos embaçados, as lágrimas descem pelo meu rosto enquanto ando com pressa com Aline ao meu lado, avistamos Duda. — Como isso aconteceu? — Me aproximo dela, sua expressão está ansiosa, fechada. — Não sei... Não estava em casa na hora, quem trouxe ela foi a senhora Marta. — Engulo seco. A vizinha socorreu ela. Eu devia estar em casa, não devia ter saído. — Teve alguma notícia? — Ela balança a cabeça para indicar que não, ela não chora, mas parece em choque. — Pediram para aguardar. — Concordo silenciosamente e me sento ao lado de Ali. — Vai ficar tudo bem. — Ela murmura.
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