CONTRATEMPOS PARTE 2.

1553 Palavras
Quando Beth não estava em casa eu aguentava todos os comentários maldosos a meu respeito. Quando comecei a trabalhar ainda aos 18, insinuaram que eu estava me prostituindo, que era a única coisa que eu seria capaz de fazer. No fundo sempre soube que Duda é melhor que Nanda, Duda não me odeia, só vai na idéia da irmã. Quando Nanda se casou e se mudou nosso relacionamento se tornou menos pior, ela me ignorava como se eu não existisse, mas não havia nenhuma ofensa. Nunca tive vontade de conhecer meus pais biológicos. Beth é minha mãe e isso é tudo que importa, não guardo mágoas, mas também não quero saber o que levou meus pais a me deixarem. É melhor assim. Organizo a cozinha e ajudo Beth a levantar quando vejo que ela tem dificuldade. Ela anda muito cansada e isso me preocupa. Depois de um beijo de boa noite vou para o meu quarto e encontro meu celular tocando. — Oi Ali. — Ela balbuciou um "até que enfim". Conversamos sobre eu parar de fazer hora extra, mas expliquei para ela que é necessário. Depois que deixei o orfanato meu desejo é fazer faculdade, quero fazer farmácia. Mas estudar sempre foi um sonho distante, mesmo que eu trabalhe. A maioria dos meus empregos foram puxados, e o dinheiro das horas extras sempre foi necessário. Além das despesas da casa, Beth assim como muitos precisa de alguns remédios, Duda e Nanda nunca contribuíram muito. Depois que Nanda foi embora nunca mais ajudou, Duda paga algumas contas, mas quanto aos remédios sempre diz que não pode ajudar muito, e o salário de Beth nunca foi alto. Então conciliar as despesas das contas de água, gás, compras do mês, telefone, remédios e outras coisas mais com possíveis gastos da faculdade é impossível. Além do tempo que é zero. O que sempre desafoga são as horas extras. Aline sempre diz querer ajudar, é minha amiga desde criança, ela também cresceu no orfanato, mas foi adotada aos 11 por uma família bem sucedida. Ali está estudando arquitetura e vem com essa idéia de vez em quando. Mas não quero que ela pague meus estudos, quero conquistar isso sozinha e não me sentiria bem deixando ela pagar. Se os pais adotivos encrencarem? Jamais seria motivo de problemas para ela. Ela me pede opinião sobre Brendo, o rapaz estuda na mesma instituição que ela, a convidou para sair duas vezes mas ela recusou. Mas ele é insistente e minha amiga está balançada. No fim da ligação ela decide que vai aceitar o convite se for para saíram como amigos, apenas para conversarem. Conto sobre a mensagem anônima que recebi, Aline diz que vai pesquisar a vida do meu ex. Sou contra mas ela me convence que é a única maneira de confirmar ou descartar a chance de ser ele. Ela sempre foi boa nisso, por que não? °°°°° Acordo as três e vinte da manhã com um barulho na cozinha, quando vou ver é Duda, está bêbada e falando ao telefone. Incrível como ela não tem como ajudar muito em casa mas sempre sai depois do trabalho. Fim de semana quase nem dá sinal de vida. Volto para cama aliviada por não ser Beth na cozinha. Ouço ela rindo por alguns minutos, deve estar falando no telefone. Bufo irritada. Por que as pessoas nunca valorizam o que tem? Nanda e Duda tem a mãe que eu sempre quis ter. Por que não vemos como somos privilegiados pelo que temos ao invés de nos sentir injustiçados pelo que não temos? As duas sempre foram ambiciosas demais, mas são incapazes de ver a mãe que tem. Já de manhã acordo cedo para preparar o café, hoje é minha folga. Enquanto preparo o café vejo que Beth respira como se tivesse acabado de correr uma maratona, vou levar ela para fazer exames. Ela tem pressão alta e diabetes, mas toma os remédios. Ela sorri quando me vê, tentando disfarçar o cansaço. — Tudo bem? — Tudo ótimo.— Ela pega a garrafa térmica e põe sobre a mesa. Depois do café começo a bendita faxina, deixo cozinha e banheiro por último. E nem penso em arrumar o quarto de Duda, ela que lute. Quando termino de almoçar já passa das duas da tarde e não resisto a um cochilo depois. Acordo com meu celular vibrando na minha barriga. — Oi, Aline. — Murmuro ainda de olhos fechados. — Gabi, me diz que você está em casa.— Seu tom é urgente, sorrio, Aline é dramática. — Estou em casa, hoje é minha folga. — Suspiro e viro o corpo um pouquinho entre as almofadas. Se eu pudesse tirar um cochilo desses todos os dias... — Estou indo aí. — Abro os olhos. — Aconteceu alguma coisa? — Nada, mas acho que vai querer saber sobre o que descobri. — Sobre Marcelo? – Me sento no sofá, a tranquilidade de antes se desfaz como fumaça. — Sim, mas não fica desesperada tá? Já chego aí. – Ali desliga sem esperar minha resposta. É claro que fico desesperada. Tento afastar os maus pensamentos e vou para a cozinha preparar um lanche para nós, Beth decide fazer bolo, por mais que eu diga que não precisa ela insiste. Minutos depois ela está na cozinha batendo um bolo, sua bochecha está com farinha e ela nem liga. Ouço o toque de mensagem no celular e vejo que Ali já está na porta. Abro o portão para ela, Ali nem repara no meu estado, mas eu não posso fazer o mesmo com ela. Ela anda sempre bem arrumada. Os cabelos longos e ruivos parecem ter acabado de sair de uma escova, ela usa gloss e perfume. Aline não vive sem produção. — Um pássaro me contou que vai ter bolo nessa casa hoje. — Ali vai até Beth e a abraça, as duas tem muito carinho uma pela outra, já que Ali foi minha única amiga no orfanato por anos. — Daqui a pouco sai um bolo de laranja quentinho. – Beth derrama a massa na forma já untada e eu sei o que vem a seguir. — Posso? – Ali aponta para a vasilha onde Beth fez a massa e ela só sorri em resposta, entregando a vasilha em seguida. — Você é muito abusada, Aline! – Cruzo os braços, não acredito que ela vai tirar a parte que cabe a mim. Ali lava as mãos, pega a vasilha e vem para o meu lado já passando o dedo e levando o resíduo da massa crua até a boca. — Hummm. – Ela fecha os olhos e eu fecho a cara, ela só percebe quando volta a me olhar. — Que foi? Podemos dividir, mas... Eu sou visita, não tenho essa chance sempre. Deixo a vasilha para ela e a levo até o meu quarto, fecho a porta enquanto ela se senta em minha cama. Faço o mesmo e a encaro. — Vai, desembucha. – Gesticulo com as mãos e Ali faz careta, pede tempo para acabar com o conteúdo da vasilha. Quando ela termina ainda espero ela ir lavar as mãos e a vasilha e voltar. — Então... Ontem quando você contou da mensagem eu procurei saber do Marcelo, se ele ainda está morando no interior e tal, se está trabalhando por lá e essas coisas. Eu concordo com a cabeça. Ali começa a estralar os dedos ainda sem desviar os olhos dos meus. — Descobri que ele não mora mais lá, voltou há pouco mais de um mês. – Ela morde o lábio temendo minha reação. — Como descobriu isso? — Tenho alguns contatos. – Ela dá de ombros. Marcelo na mesma cidade que eu? Provavelmente uma hora ou outra vamos nos encontrar. A não ser que... — Ali, você sabe se ele tem alguém? – Ela faz careta, não entende minha pergunta. Pode ser que tenha se apaixonado durante esses anos, que tenha me esquecido de verdade. Mas se fosse assim, então por que ela mensagem? — Eu não sei, amiga. Mas se ele tivesse de boa não ia te incomodar. Né? – Eu concordo e respiro fundo. — Pode ser que ele queira só te irritar, sabe? Esses caras de hoje em dia tem o ego fragilizado, ele pode estar querendo saber como você está, se está melhor sem ele, se tem outro namorado e essas coisas. Faz sentido, mas não quero pagar para ver. Ele me fez ameaças, não quero correr o risco, odeio dizer isso mas tenho medo. Não vou contar nada a Beth agora para ela não se preocupar. O bolo fica pronto e tomamos café da tarde, temos uma tarde e noite entre amigas como não tínhamos há tempos. Naquela noite, antes de dormir minha mente vaga a espera do sono. Preciso cuidar mais de Beth, não posso ficar sem ela. Faço alguns cálculos na minha mente, com bastante esforço, planejamento e uma conversa séria com Duda e talvez com Nanda também, consigo com que Beth não precise mais trabalhar. Na próxima semana vou resolver todos os exames dela na minha folga, mesmo que leve o dia todo. Vou ligar para Nanda e aturar suas provocações, fazer o esforço de falar com Duda, tudo por ela. Eu faria o necessário pela saúde dela.
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