(Gabriela Calheiros)
Sete e trinta e cinco!
Dou um pulo da cama me perguntando por que meu celular não despertou? Meu Deus, isso nunca aconteceu antes! Estou frita, frita e atrasada. Tomo o banho mais rápido da minha vida e coloco o uniforme da loja. Faço uma maquiagem simples e seco os cabelos fazendo algumas ondas leves. Exigências do emprego, boa aparência, sempre.
Chamo um carro pelo aplicativo, não vai dar para esperar o ônibus mesmo. Passo por Beth que está na cozinha preparando algo com cheiro maravilhoso mas que não vou poder comer, ela me entrega um pote cheio de pedaços de bolo e eu beijo sua bochecha, agradecendo por ter salvado meu café da manhã.
Assim que entro no carro me permito respirar aliviada, ou quase, ainda estou atrasada, mas a caminho. Chego 15 minutos atrasada, por sorte nenhum dos meus supervisores me vêem chegar e as meninas ainda estão arrumando a loja para abrir. Tomo meu lugar atrás do balcão, é um emprego simples, mas amo ser caixa da boutique. Gosto de lidar com o público, tem seus altos e baixos mas a maioria ainda é gente boa.
Ainda dá tempo de comer bolo junto com Leila e Carina, minhas colegas aqui no trabalho, nem todas se gostam mas nós três nos damos bem. O ritmo aumenta e eu vou me ajustando ao longo do dia. Ganho biscoitos de leite de um cliente e uma cantada de outro, o tempo passa rápido até o almoço.
— Vamos mulher?! Estou com fome.— Leila vem me apressar eu organizo as notas fiscais do meu caixa.
— Você sempre está com fome, Lê.— Levanto os olhos apenas para ver ela fazendo careta, a fome a está afetando. Guardo tudo na gaveta, pego a carteira e a bolsa e saio com ela para almoçar.
Paramos em um restaurante que estamos acostumadas a ir, recebemos alguns olhares enquanto procuramos uma mesa. Conversamos sobre amenidades durante o almoço e tomamos sorvete de sobremesa. Meu celular vibra no meu colo.
"Achei que jamais a veria de novo. Está linda, Gabi. Preciso admitir."
Releio a mensagem, o número é desconhecido. Não tem foto, não tem nome, até imagino quem pode ser. Mas não quero que seja. Seria ele? Se fosse, ele me viu? Onde? Voltou a morar por aqui? Ah, não. Não pode ser.
— O que foi, Gabi? – Leila me chama atenção e vejo que está preocupada. Minha cara deve estar r**m mesmo.
— Nada. – Tento forçar um sorriso. — Só uma mensagem.
Minha amiga ergue uma sobrancelha de um jeito que eu nunca conseguiria fazer.
— Mensagem de quem, senhorita? – Ela leva a última colherada de sorvete até a boca e então puxa sua cadeira um pouco mais para frente, está pronta para me fazer falar.
— Não faço idéia. – gesticulo com a mão livre enquanto a outra revira a taça para misturar o sabor de passas ao de chocolate.
— Nenhuma suspeita? – Ela limpa os lábios finos com um guardanapo. Enquanto eu levo a mistura que fiz a boca, uma pausa no tempo para sentir o sorvete derreter na minha língua, é magnífico.
— Na verdade tenho uma suspeita, mas não tenho certeza se é, e... – Fecho meus olhos respirando fundo, n**o com a cabeça. — Não quero que seja ele, Lê.
Ela faz uma careta, enquanto seus olhos escuros e expressivos me analisam.
— Seu ex?
Aceno que sim.
— Deixa eu ver. – Entrego meu celular e deixo ela ler e reler a mensagem, assim como eu ela tenta verificar qualquer sinal, foto, nome, qualquer coisa.
— Isso é meio assustador.— Lê me devolve o aparelho.
— É sim.
Ter namorado Marcelo é o maior arrependimento da minha vida. Nos conhecemos em um horário de almoço, o qual eu decidi experimentar a comida de outro restaurante, enquanto eu saia do estabelecimento derrubei suco de laranja em sua camisa e ele não quis me m***r, bom, pelo menos não naquele momento.
Ficamos amigos e três meses depois começamos a namorar, seis meses de relacionamento e ele foi um príncipe encantado a maior parte do tempo, apenas para se mostrar o pior dos homens depois. Possessivo, ciumento, e quando eu quis colocar um ponto final na relação disse que jamais aceitaria.
Passou meses me procurando onde quer que eu fosse, fez até mesmo algumas ameaças. Depois de muito esforço consegui que ele me esquecesse, pois seu pai pediu que fosse morar com ele no interior após descobrir que estava doente.
Isso foi há 5 anos.
Nunca mais o vi, nem ouvi sua voz graças a Deus, e espero que isso não mude.
Prometi a mim mesma que não ia cometer uma burrada dessas novamente, e desde então não me envolvi com mais ninguém. Acho que não é trauma, só sou mais madura e cautelosa agora, também nunca achei alguém que realmente valesse a pena.
Meus planos são outros, só consigo pensar em mim em uma faculdade, segurando um diploma, usando uma roupa de formatura. Ainda vou chegar lá.
— Olha amiga, fica de olho. Mas também não cria paranóia sabe, porque isso também pode ser alguém querendo te assustar e fazendo brincadeira de péssimo gosto. – Uma luz se acescende em minha cabeça.
— Lê, será que é alguma das meninas da loja? Você sabe que algumas odeiam a gente. – Ela parece pensar na possibilidade.
— Ah, mas se for aquelas invejosas... Eu juro que eu vou... – Ela gesticula com as mãos como se o vento fosse o pescoço de uma delas.
— Leila, espera. Não sabemos se é realmente, tá bom? Não vejo como elas poderiam saber da minha vida a esse ponto.
— Mas se continuar recebendo mensagens assim e com tom de ameaça vai procurar a polícia. – Meus olhos dobram de tamanho. — Promete?
Eu concordo mesmo não querendo, o horário de almoço está acabando, não dá tempo de começar uma discutir agora. Voltamos ao trabalho e o resto do dia passa se arrastando, só mesmo quando me distraio a hora parece dar um salto e vejo o relógio marcar 18h.
Leila se despede, devia ser meu horário de ir embora também, mas como sempre faço hora extra, acabo chegando em casa depois das oito e meia.
— Boa noite, mãe. — Murmuro para Beth, ela está sentada no sofá, dividindo a atenção entre a tv e o crochê em suas mãos. Ela me olha e sorri.
— Boa noite, minha flor. Demorou. A lasanha está no forno, é só esquentar. — Meus olhos se abrem mais em surpresa. Meu cansaço se transforma em animação.
— Fez lasanha? — Abro um grande sorriso e aperto o passo para o meu quarto, a casa não é enorme e só tem um andar. Deixo meus sapatos no chão e volto correndo para dar um beijo em sua bochecha. — Já disse que te amo?
Ela ri da minha animação, mas comer é uma coisa que amo fazer e não posso evitar.
— Você sempre diz. — Ela ri.
Vou até o meu quarto tomar um banho e me preparar para dormir. Depois vou para a cozinha em busca da lasanha, vou comer no sofá, fazendo companhia para minha mãe e assistir a novela junto com ela.
Beth me conta como foi no orfanato, Beth já tinha Fernanda, na época com dois anos, quando começou a trabalhar lá como cozinheira e estava desesperada por um trabalho, já que sempre foi mãe solteira.
A verdade é que Beth me encontrou com aproximadamente um ano de idade, eu estava abandonada no banco da praça Radial Sul, aqui em Botafogo RJ, no meio de uma noite de inverno.
Ela me levou para casa mas então, no dia seguinte, tomou todas as providências para que eu ficasse no Doce Esperança, o orfanato que ela trabalha até hoje. Beth sempre achou que eu seria adotada logo, disse que vontade de me adotar não faltou, mas faltou dinheiro e condições financeiras, pois ela já tinha Fernanda e era difícil sustentá-la sozinha.
Então Beth cuidou de mim como pôde enquanto eu estive no orfanato, segundo ela sempre fui muito retraída.
Beth soube me conquistar, trazia alguns brinquedos e fazia pratos divertidos para chamar minha atenção, logo virei seu grude.
Cresci assim, fiz poucos amigos, mas sempre ficava triste ao ver que todos eram adotados e eu não. Até as crianças que não gostavam de mim tinham mais sorte que eu. Era sempre assim, os adultos chegavam e olhavam, alguns até se interessavam por mim, diziam que eu era uma criança linda, mas sempre encontravam outra e seus olhos brilhavam. Nunca era eu.
Sempre me questionava por que não eu? O que todas as crianças tinham que eu não tinha? Beth me dizia que o problema não estava em mim e sim nos olhos dos adultos. Que eles tinham uma venda invisível que os deixava cegos para as coisas boas da vida. Eu inocentemente acreditava.
Os anos se passaram, Beth teve Eduarda. Continuou cuidando de mim no orfanato até eu completar dezoito anos. Quando atingi a maioridade ela me acolheu em sua casa já que eu não tinha para onde ir, nessa época Nanda e Duda ainda moravam aqui. Foram três anos difíceis, as duas nunca gostaram de mim, só me toleravam.