Antes
27 de agosto, 2015
03:05 da manhã
Sicilia, Itália
Fabrizio Martinelli
Desde o início da vida eu havia odiado meu pai. Ele havia matado minha mãe e o novo bebê depois do nascimento, apenas por ela ser uma garota, fazendo com que toda minha vida fosse um inferno a partir daí.
O velho havia morrido a dois dias, passando assim a cadeira de novo Capo para mim, e me obrigando a ter mais responsabilidades do que eu realmente queria. Minha mulher estava com oito meses e meio de gestação e eu não passaria mais uma noite em casa para resolver os problemas que precisavam de minha atenção. Odiava deixá-la sozinha nessa altura da gravidez e faria tudo o que fosse necessário para terminar aquilo o mais rápido que podia e deixá-la em segurança.
Puxei uma caixa do fundo falso da estante e a abri, encontrando uma papelada sem fim em português, o que me fez suspeitar um bocado e pegar os papéis. Havíamos cortado todas as rotas que ligavam o Brasil à décadas porém os recibos dentro da caixa eram de poucos meses. Procurei mais a fundo, fazendo a leitura de todos os papéis que podia, gemendo em frustação e desgosto quando encontrei fotos, cartas e uma cópia de certidão de nascimento.
Uma bastarda.
O desgraçado havia tido outro filho no Brasil.
Um irmã. Sangue do meu sangue.
E eu a traria de volta para sua família.
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01 de Março, 2016
19:40 da noite
Moscou, Rússia
Elena Borges
Sempre que eu via na internet ou nos telejornais que alguma garota havia desaparecido a primeira coisa que imaginava era que foi estuprada e morta, tendo seu corpo desovado em alguma caçamba ou córrego. A segunda opção era que havia sido vendida no deep web, tendo seus membros cortados para serem escravas sexuais sem chance de fuga.
Ainda sentia meus membros e até me apalpei para ver se estava mesmo tudo no lugar. Até agora eu estava tendo sorte, usando o otimismo para não berrar em desespero.
Estava a muito tempo no escuro, sentada numa cadeira dura que tinha farpas que cutucavam minhas costas a cada mexida que eu dava. Meus braços estavam soltos, mas minhas pernas amarradas. Lembro-me que havia saído com roupas veraneias, típicas do calor do Brasil mas estava muito frio, do tipo que se bate os dentes e até as lágrimas congelam se saírem. Eu estava rezando, algo que não fazia a muito tempo por motivos idiotas, pedindo a Deus para que não me deixasse morrer e nem ser estuprada. Ou morrer congelada.
Ouvi passos distantes e suspirei, alívio e desespero me invadindo na mesma intensidade; Era a primeira vez que ouvia algum barulho, e bom, aquele bem que poderia ser meu assassino.
A claridade invadiu o espaço e eu grunhi, sentindo os olhos queimarem pela luz forte e repentina. Demorei meio minuto até focar meus olhos no homem de cabelos um tanto mais longos do que eu me lembrava na minha frente, sorrindo com ironia para mim.
— Que p***a é essa Andrei? — Gritei movendo as mãos para esbofeta-lo, mas ele segurou a mesma, apertando meu pulso forte. Me olhou por minutos à fio, enquanto eu tremia, já sentindo os olhos queimarem pelas lágrimas que ameaçavam sair.
— Meu Pakhan ordenou sua vinda, Princesa. — Odiei o apelido de meses pela primeira vez, o tom usado fez com que parecesse podre dessa vez. Sujo. — Desculpe a demora, estava resolvendo alguns assuntos pendentes. Você sabe, não é? — Me sorriu de maneira bizarra, elevando uma sobrancelha com sarcasmo. — Sou um homem ocupado. E você, bem... É burra.
Sim, eu com toda certeza era.
O homem me disse que era um mafioso e eu simplesmente me joguei de cabeça.
Eu era burra porque havia deixado que o charme do maldito me enganasse. E sim, eu era extremamente burra agora, por esperar que ele desse um de seus sorrisos para mim, dizendo que era uma brincadeira.
Mas como eu sabia que não iria acontecer, juntei saliva em minha boca e cuspi em seu rosto, sentindo em seguida sua mão pesada contra o meu.
Eu lia livros sobre mafiosos e sempre soube que os italianos eram os piores, porém, os russos eram sempre os traidores. Os italianos tinham algum problema? Lá estavam os russos como culpados. A grande pergunta era: Por que eu havia confiado justamente em um?
— Agora eu tenho certeza que você é muito burra. — Andrei arrumou a gravata, como se não tivesse acabado de me dar um t**a. Meu rosto formigava e estava quente, quis devolver mas temi a surra que levaria. — O que leva uma pessoa a confiar num estranho perigoso do nada? Você é muito carente, Princesa.
— Não. Como você mesmo disse, você não é f**o. — Sorri , tentando não demostrar fraqueza, tão irônica quanto ele tentava ser, recebendo mais um t**a de sua mão pesada. Dessa vez gritei contra seu rosto, batendo os pés e as mãos exaltada. Aquilo não era justo. Eu fazia post's no f*******: contra agressão à mulheres e quaisquer outros tipos de violência mas estava ali, apanhando por nada.
Ganhei outro t**a.
E outro.
E mais um.
E outro.
Meu rosto estava inchado, minha carne ferida e o coração em pedaços. Andrei havia me ferrado tanto por motivo algum, nunca havia feito nada de r**m ao homem e estava pagando pelos pecados que não me pertenciam.
Meus olhos pesaram, meu corpo reclamou por descanso e achei que ia desmaiar, mas não aconteceu. Senti mexerem em meu corpo, e logo estava aquecida, meus cabelos também receberam atenção e então, senti outra picada em meu braço. Eu não sei o que era, mas achei que iria morrer.
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05 de Março, 2016
04:05 da manhã
Moscou, Rússia
Fabrizio Martinelli
Apontei a arma para o homem grande parado na porta e atirei. O vi cambalear e cair com a mão sobre o peito enquanto berrava desesperado. Malditos sejam os russos.
Eu m*l havia descoberto uma irmã e os desgraçados deram um jeito de pegá-la. Descobri o desaparecimento por acaso, enquanto vagava pela cidade a qual ela morava. A intenção era sequestrá-la e levar para sua verdadeira família, mas alguém chegou antes e a levou. Amigas na escola diziam que tinha fugido com o namorado novo, me fazendo procurar a respeito do maldito, descobrindo assim o plano i****a dos russos. Eu já não era muito paciente e eles ainda testavam.
Abri a porta iluminando o quarto vazio exceto por uma cama ao fundo onde o corpo esguio estava deitado. Me aproximei, colocando a lanterna do celular na garota para ver melhor. Os cabelos que nas fotos se mostravam cacheados estavam lisos e o rosto, completamente inchado como se tivesse levado uma grande surra.
Como se tivesse. É claro que levou.
Praguejei pegando-a no colo para tirá-la dali.
Os soldados apareceram na porta para me dar algum auxílio e p******o enquanto levava minha irmã para fora. Elena rolava os olhos, falando sem parar, tão drogada que eu não duvidava que estivessem dando remédios a ela a dias, sem pausa.
Andrei e o pai haviam fugido, e em outra ocasião eu cuidaria para que eles fossem mortos. No entanto, precisava dedicar minha atenção a garota.
Durante todo vôo de volta a Itália, Elena recebeu ajuda médica, ela estava fraca e debilitada devido as drogas e o tratamento tão hospitaleiro que ganhou. A médica da família que nos acompanhava avisou que seu organismo estava viciado e a abstinência seria uma grande m***a.
Mas algo que não me agradou foi descobrir que minha nova irmã estava grávida de um russo.
18:30 da noite
Sicília, Itália
O suspiro alto saiu por meus lábios, me fazendo torcer para que o barulho a acordasse. Mas não.
Não havia se mexido nem um pouco desde que a colocamos em sua cama, no quarto novo, em minha casa, a qual ele ficaria. Tudo estava silencioso demais enquanto eu me sentava nos pés da cama, apenas eu e minha esposa sabíamos de fato sobre Elena.
Observei o rosto da garota de melhor forma. Havia desinchado bastante desde que havia chegado, deixando assim os traços claros para que eu pudesse analisar: a pele era num leve bronzeado, do tipo que havia tomado muito sol. O rosto bonito e uma boca volumosa. Os fios haviam passado por algum processo químico para ficarem esticados. Os russos haviam tentado mudá-la por algum motivo desconhecido e eu tentaria saber qual era.
Meu celular apitou dentro do bolso e eu o peguei, respondendo a mensagem de Luigi que estava chegando, teríamos uma reunião sobre os novos bordéis que abriríamos em algumas cidades vizinhas . m*l notei a garota se mexer, apenas ouvi seu grito alto e estridente que me fez gritar também.
— Quem é você? — Puxou o travesseiro para se proteger, o apontando pra mim como se fosse uma arma. Deixei a cabeça tombar para o lado, analisando o nível de perigo que aquele ser pequeno e fraco poderia ter. Ela então me bateu com o travesseiro no rosto, e enquanto me recuperava, a vi correr em direção a porta e sair. Pra quem está ainda meio grogue, ela está bem rápida.
Apressado me levantei e fui atrás da minha irmãzinha. Escutei os seus passos pesados nas escadas e assim que a alcancei ela estava parada olhando fixamente para Luigi e Zola, que apontavam uma arma em sua direção.
Puta m***a.
Segurei seu braço, pondo uma das mãos no joelho cansado. Correr não era algo que eu gostava fazer, além de que Elena tinha muito mais energia por ser jovem e sadia. Mais uma vez apesar de estar grogue.
Dei um puxão em seu braço, subindo os degraus enquanto ela se debatia pedindo ajuda. Meus olhos caíram sobre os irmãos D'Angelo e eles me fitavam curiosos. Luigi era a pessoa que eu mais confiava no mundo, e precisava saber.
Após trancar a garota que chorava me pedindo misericórdia, eu a abracei. Elena travou e senti apenas suas lágrimas molhando minha camiseta enquanto sussurrava que queria ir embora, apertei-a em meus braços e sorri, para conforta-la prometendo voltar e lhe explicar tudo.
Luigi e Zola, seu irmão mais novo, ouviram toda a história. Me prometeram ajudar na vingança, mas percebi os olhos preocupados em relação ao bebê russo que vinha por aí.
Um bastardo seria sempre um bastardo.