05 de março, 2016
19:01 da noite
Sicília, Itália
Elena Borges.
Abri a janela e o vento gelado bateu contra meu rosto junto com a imagem das grades que atrapalharam meu plano de fuga. Eu estava na m***a, presa de novo. Sequestrada duas vezes seguidas.
Ou não. Andrei devia ter mandado aquele homem para me tirar daquele lugar e me m***r aqui, e nada podia me livrar do destino a qual eu estava condenada.
Sempre que eu via algo sobre um fim de relacionamento ou tragédias que amor demais ou de menos pode causar, eu pensava que cada escolha gera uma consequência e devemos lidar com ela. Eu não queria lidar com a minha; Doía tanto por fora quanto por dentro e eu me arrependi por chamar algumas pessoas de fracas. Elas davam a volta por cima, levantando a cabeça e lutando apesar de todas as marcas; eu queria me deitar e chorar pela eternidade.
Me encolhi na cama após desistir de tentar arrancar as grades com as mãos. Eu morreria ali, já começava aceitar o fato, simplesmente não tinha como evitar. Sentia meu rosto inchado pela quantidade de lágrimas, e o desespero sendo instalado em meu peito a cada segundo que se passava enquanto minha mente criava situações de morte pra mim. A máfia não tinha pena nem de um deles, quem dirá de mim.
Totalmente fodida. E não no sentido bom da coisa.
Ouvi o trinco da porta e me levantei num pulo, ficando de pé para não demostrar meu estado de fragilidade. Se for pra morrer que seja ao menos tentando lutar.
O homem que havia me trancado apareceu no meu campo de visão com olhos cuidadosos e preocupados. Ele havia dito mais cedo que tudo ficaria bem, mas eu não queria descobrir se eu estaria bem com uma faca cravada no meu peito.
— Olá Elena. — Seu sotaque veio forte novamente, e não era do tipo que Andrei tinha, totalmente carregado, lembrava mais o do motorista do escolar que eu pegava para voltar pra casa, Fábio, o italiano.
Ai m***a.
— Olha, eu não sei de nada e nem fiz nada, me deixe ir... Eu não vou abrir a boca! Prometo. — Meus olhos arderam na medida em que eu castigava meu lábio inferior agoniada. Ele negou lentamente com um movimento e eu senti o gosto de sangue em minha boca. — Eu tenho família. E eu preciso estar com eles. Me deixe ir. — Implorei mais uma vez, me aproximando lentamente do homem. Eu havia estado numa palestra certa vez, onde explicaram sobre como o corpo mostra o que estamos sentindo. Nossas reações perante as outras pessoas. Ele estava calmo, os ombros leves e definitivamente não estava esperando um ataque meu. Mas foi exatamente isso que fiz quando ele negou mais uma vez. — Me deixa ir, seu desgraçado! Eu nunca fiz nada com você ou qualquer pessoa, seu m***a!
Soquei seu peito, gritando que eu precisava ir.
Mas eu era tão hipócrita. Minha família nunca havia ligado pra mim de verdade e eu sempre estive sozinha na realização de um sonho ou ao querer b*******a meta. Sozinha. Era assim que eu era e era assim que eu ia morrer.
Quando ele se cansou daquilo, pegou meus pulsos com força, raspando a garganta em seguida. Um homem entrou na sala com um notebook nas mãos, deu play em um vídeo e o virou pra mim: minha mãe recebia dinheiro do homem a minha frente, sorrindo e falando que finalmente se livraria da cruz mais pesada que carregava. Eu engoli o choro como sempre fiz, tomando coragem para o olhar.
— Sou Fabrizio Martinelli, Elena. E sou seu irmão.
Eu me neguei a acreditar, rindo sem humor e o empurrando enquanto me desvencilhava do seu aperto.
Eu havia passado por muita coisa até ali. Dezessete anos, muitas realizações e falhas que passei sozinha, sem ninguém pra comemorar comigo ou simplesmente me aconselhar. Sempre doía mas também sempre me fez mais forte. Então sim, eu me recusava a acreditar que aquilo poderia ser real. Me recusava a acreditar que eu tinha uma nova família e que essa poderia estar comigo e fazer tudo que a outra não fez.
Mas Fabrizio me provou. Mostrou papéis e uma cópia da minha certidão de nascimento, além de fotos do meu suposto novo pai morto comigo no colo. Era tudo surreal demais, e tudo tão injusto.
Minha vida toda havia sido uma farsa. E eu não queria simplesmente aceitar.
Meu olhar perdido fez com que meu mais novo irmão me abraçasse. Chorei por horas deitada naquela cama e Fabrizio não me deixou nem por um minuto sequer, apenas me confortou e mostrou o que uma família de verdade é.
Ele me apresentou a minha nova família dois dias depois, eu tinha uma cunhada, um cunhado, uma irmã e três sobrinhos, e um deles ainda nem havia nascido. Ele falou também da Família e eu soube que os problemas na minha antiga vida não eram nada perante aos que eu teria agora.
21 de maio, 2016
08:45 da manhã
Sicília, Itália
Senti meu estômago embrulhar ao olhar para o misto quente, junto com a xícara de café a minha frente, e simplesmente empurrei para frente, recebendo olhares curiosos da família que aproveitava o café da manhã. Angelina, minha cunhada desviou o olhar para o seu bebê e todo o resto voltou a comer enquanto Fabrizio dedicou um pouco mais de sua atenção para mim.
Eu não estava boa a alguns dias. Me acostumar com a nova cultura e língua estava sendo fácil, eu tinha aulas de italiano e etiqueta três vezes na semana, além de aulas em casa para completar o currículo do ensino médio. A família me acolheu de uma forma boa, o problema era que eu recebia atenção demais, sendo que antes, sempre preferia estar sozinha , e mesmo quando eu não queria também. Eu era individual em níveis absurdos, e nunca gostei de estar cercada de amigos, mas invejava a capacidade das pessoas conseguirem ter uma conversa fácil enquanto eu me dedicava a conversar apenas necessário. Ansiava ser mais sociável mas aquilo simplesmente não era pra mim.
Eu também sentia falta do Brasil.
Sentia falta das pessoas, do maldito pão de queijo que representava Minas Gerais no país, e até da minha família, disfuncional e cheia de preconceitos, mas minha família.
E sentia falta de Andrei.
Eu não devia, mas coração é um bicho burro. Andrei havia me levado ao céu vezes demais, só para me empurrar lá do alto e me ver caída no chão. E mesmo assim, eu o queria.
Deixei a mesa após pedir licença, indo diretamente para o quarto. Meu dia se resumia em aulas e dormir. Eu não costumava andar tão sonolenta mas era assim que eu ficava na maior parte do tempo.
Escutei toques na porta e me sentei no mesmo momento em que Fabrizio entrou no quarto, junto com os irmãos que me apontaram armas no dia em que cheguei aqui. Eles tinham cargos importantes na máfia, assim como o do meu irmão e só apareciam quando o assunto era urgente.
O mais novo, Zola, me lembrava Andrei. Ele tinha os cabelos grandes, puxados pro loiro, como os de Andrei e o corpo, tão delicioso quanto. A única exceção eram as tatuagens.
Zola tinha o corpo coberto e esculpido por tatuagens que definitivamente o deixavam mais gostoso. Eu tinha uma queda, pra não dizer abismo por caras com essa pinta de badboy, e Andrei era a prova viva disso.
Luigi o irmão mais velho, era só bonito, não no nível extraordinário da coisa mas do tipo que, quando ele passa na rua, você vira e assobia, chamando de gostoso. Ao menos mentalmente.
— Bom dia, Elena. — Luigi cumprimentou e eu me arrastei pra fora da cama, pondo os fios lisos e mais fáceis de domar atrás da orelha. Eu queria meus cachos de volta, mas ali, num momento de desespero, os lisos eram muito mais fáceis de controlar. — Não se preocupe em levantar, sabemos que está se sentindo m*l.
Eu me deixei tombar pra trás e cair sentada, uma tontura terrível havia me atingido e sentia que iria vomitar na frente dos bonitões a qualquer momento.
— Hm, no que posso ajudar vocês? — Engoli o gosto amargo em minha boca e sorri forçada. Eu havia aprendido ali que sempre devemos sorrir porque era a máfia e vivíamos de aparência. Eles fizeram um longo silêncio antes de prosseguir. —Quando uma mulher tem um bebê fora do casamento, essa criança se torna uma bastarda, uma coisa não bem vinda. — Ele era direto. — A mãe vai para um bordel e a criança quando cresce, se transforma num soldado que nos protege. — Era sem dúvida o pior cargo na máfia. Eles tomavam sol e chuva, levavam tiros e davam a vida para protegerem pessoas que nem mesmo sabiam seus nomes, e não podiam questionar. Eu me perguntava se aquilo não era injusto com as crianças, afinal, que culpa elas tinham? — Quando acontece da mãe já vir grávida, como é no seu caso, o que é tão raro, é preciso um conselho dos três chefes: Seu irmão, o capo, o sub chefe que sou eu, e o consigliere, Zola; para repensar. — Ele pontuou, me fazendo franzir o cenho, quase perturbada com a possibilidade levantada, que também passou pela minha cabeça.
Soltei uma risada descrente, mas eles continuaram sérios. Se fosse uma piada, eles eram péssimos na brincadeira.
—Vocês tão de s*******m comigo, não é? — Recebi um olhar nada amigável de Fabrizio pelo vocabulário, mas continuei com os olhos fixos no homem que tomava partido da conversa. — Diz que isso é uma m***a de brincadeira.
— Você está grávida, Elena. Do russo. — Zola confirmou minhas suspeitas e eu preferia ter uma faca cravada em meu peito no momento. A voz do homem era grave, sussurrada e eu teria suspirado se não estivesse fodidamente desesperada.
Pus as mãos na cabeça e puxei os fios para tentar acordar daquilo, mas nada aconteceu. p**a que pariu, eu estava grávida mesmo. c****e. Ai c*****o.
Repassei em minha cabeça quando eu havia falhado e m***a, eu sabia onde.
Havia visto uma vez uma garota falar que ficou grávida porque seu anticoncepcional falhou após ela tomar chá de uma e**a que quebrava o efeito do remédio, e a partir daí fiz uma pesquisa sobre tudo o que poderia fazer isso. Uma semana antes de Andrei aparecer, eu havia ficado doente e estava me tratando com antibióticos. Eles cortaram o efeito, e c****e, como as mulheres ficam calmas quando recebem uma notícia dessas? Quero dizer, m***a, como ensinar uma criança a ser boa pessoa sendo que eu ainda nem sei se sou boa pessoa? Eu queria morrer, só de imaginar os choros do bebê quando tivesse dor de barriga.
A ideia da maternidade me desesperava.
— Eu... Eu... Eu não posso ter esse filho. Eu não quero.— Senti minhas forças vacilarem junto com os olhos sobre mim, surpresos demais com minha reação. Eu não me sentia pronta para ser mãe, tanto física quanto psicologicamente. — Eu vou tirar.
— Não vai p***a nenhuma. — Os olhos de todos foram para Zola, e os deste estavam sobre mim cheios de raiva. Eu só não entendi o que ele tinha haver com aquilo.
— Isso não é da sua conta! — Berrei, me levantando num acesso de fúria e socando o homem que em seguida me agarrou pelos pulsos e me jogou contra a cama, na frente de meu irmão e do seu. Ele veio pra cima de mim, montando sobre minhas pernas e segurando meus braços sobre a cabeça para que eu não pudesse me mover.
— Você não tem a autorização pra tirar essa criança, Elena. Eu, como consigliere, n**o o pedido para a realização desse aborto. — Senti o nojo em sua voz enquanto ele sussurrava as palavras e não me atrevi a abrir os olhos, sabia que não iria aguentar o asco que teria nos seus.
Se fosse antes, eu simplesmente ligaria a m***a do f**a-se, iria a uma clínica e faria o maldito aborto. Mas ali, eu tinha condições, meu filho cresceria bem e nada faltaria a ele. E bem, eu estava sendo ameaçada e intimada a não fazer isso. Mas eu estava com tanto medo, tudo já doía tanto.
Tentei me debater o quanto pude, mas ele era alto e forte demais, então quando me cansei daquilo, comecei a chorar. As lágrimas e os soluços vieram com força na medida em que eu perdia as forças.
Fabrizio não interferiu, e eu achava que a família vinha em primeiro lugar. Percebi então que a Família sempre viria em primeiro e nada no mundo, nem mesmo um dos gêmeos, mudaria isso.
Quando o peso saiu de cima de mim e o aperto em meus pulsos sumiu, eu me virei para o lado, ainda chorando enquanto os três decidiam minha vida e eu não podia interferir. O que de fato chamou minha atenção, foi quando Zola prometeu ao irmão que seria responsável pelo bebê e por mim. Não sabia o que significava de fato, mas coisa boa não era.
Eu senti que odiava Zola D'Angelo.
E se ele agora era o responsável por mim faria da sua vida um inferno.