21 de maio, 2016
11:36 da manhã
Sicília, Itália
Elena Martinelli D'Angelo
Assinamos os papéis no mesmo dia.
Eu me casei de jeans e regata, chorando pela minha eterna infelicidade enquanto meu irmão apenas administrava a pequena cerimônia. O casamento todo havia sido idéia dele que não aceitaria que a irmãzinha fosse morar com um homem sem um compromisso sério, da forma que a máfia exigia que acontecesse, e Zola acatou toda aquela farsa, zelando pela honra que todos sabiam que eu não tinha mais. Eram hipócritas e eu queria apertar o pescoço de cada um deles o quanto pudesse.
Entrei no meu quarto, me deixando cair de joelhos e abaixei o rosto, esticando a mão para pegar o tênis debaixo da cama. Eu queria poder dizer que fiz uma cena de drama e sofrimento digna de novela mas aquilo não foi possível, todos os olhos estavam voltados pra mim e não daria a eles o gostinho de ver todo meu sofrimento. Enfiei tudo dentro de uma pequena mochila, empurrando nos braços de Zola quando o mesmo apareceu na porta para me chamar.
Eu precisava de um lenço e Anja, a empregada me ofereceu um assim que descemos as escadas. A família inteira estava reunida na sala mas eu decidi que não iria me despedir, não quando me sentia traída por todos eles. Fabrizio havia dito no primeiro dia que queria compensar todo o tempo perdido, mostrando o que uma família de verdade realmente é. Ele mentiu pra mim como todos sempre acabavam mentindo. Eu preferia não ter mais família se fosse doer sempre como vem doendo.
— Ei, Elena. — Ouvi a voz do dito cujo assim que abri a porta. O som de seus passos foram aumentando na medida em que ele chegava mais perto. Eu continuei a andar, não estava ligando e definitivamente eu não queria saber o que ele tinha a dizer. — Elena, espere. — Seu suplico foi alto, mostrando que ele estava logo atrás de mim. Malditas pernas curtas que não me deixam andar mais depressa. — É uma coisa boa no final das contas! Não entendo porque está brava!
Eu explodi. Ele é burro ou coisa do tipo? Eu sou jovem e quero ser livre, agora, estava presa a um filho e um marido e eu não amava nenhum dos dois. E tudo porque Fabrizio decidiu assim.
— Uma coisa boa, Fabrizio? — Me virei, irritada. Meus olhos estavam queimando tanto quando meu corpo, de raiva. — Sabe uma coisa que é r**m? Eu ter acreditado que você como meu irmão fosse zelar pelo que eu quisesse. Que disse me apoiar e me proteger como você falou no dia que eu cheguei. Uma coisa boa seria se Andrei tivesse me matado naquele lugar antes de você chegar. — Eu estava sendo uma p**a m*l agradecida, mas eu queria que ele sentisse tudo o que eu estava sentindo naquele momento. Toda raiva e frustração por não ter nem mesmo liberdade de escolha. — E eu não estou com raiva. Estou decepcionada com você por não ser nem dez por cento do homem que eu achei que fosse.— Cuspi no chão ao meu lado, numa forma de demostrar todo o asco que eu sentia por ele. Se ele sabia controlar a vida das pessoas, eu sabia punir. Sabia tocar onde doía, e onde doía em Fabrizio era em seu orgulho, seu ego de homem alfa.— O grande Fabrizio Martinelli, chefe da máfia italiana, estupidamente rico e dono da razão, não passa de uma criança com bonecos, e eu era seu brinquedo novo. E parece, que você já decidiu minha vida não é? Passou as cordas para Zola e bom, espero que seus filhos se envergonhem do pai que têm tanto quanto eu me envergonho de ser sua irmã.
Me virei, vendo a decepção brotar em seus olhos, entrando no carro e puxando a porta com força. Zola entrou logo em seguida, dando partida e me olhando com o canto dos olhos.
— O que foi ? Perdeu alguma coisa? — Gritei tão alto quanto de costume, enquanto ele ria. Italianos sempre falavam alto e mesmo quando estava no Brasil, eu também era assim, o que foi um bônus pra mim. Eu não costumava ser educada e por hoje, eu já estava cansada de fingir.
— Você foi tão dura com seu irmão, mas é igual a ele. — Zola fez um movimento com a cabeça, negando brevemente. Eu havia notado algumas semelhanças entre nós mas já mais imaginária que nossa personalidade fosse igual, Fabrizio era tão calmo e eu me sentia tão intensa em relação a tudo, como se carregasse o mundo nas costas.— Vocês são teimosos e não levam desaforo pra casa, aposto que você adora mandar assim como ele faz.
Eu ri, totalmente sem humor.
— Sabe porque fui dura com ele? Um coração partido será bom, lembrará que tem um, mesmo que aparentemente não bata. — Meus olhos estavam na estrada, fitando o caminho para não lidar com a culpa que a verdade em suas palavras traziam, mas senti os seus sobre mim.
Ouvi o suspiro do homem ao meu lado, engolindo em seco quando ele continuou:
— Eu já sabia que amigos também podem quebrar seu coração, agora família, é novo pra mim.
Eu sabia muito bem daquilo. Sentia meu coração partido de todas as maneiras possíveis e não tinha idéia de como iria curar aquilo, ou como juntaria todos os meus cacos. Se eu fosse pegar cada pessoa que tivesse contribuído para isso acontecer, haveria uma enorme lista e no topo, o nome de Andrei estaria em neon.
Ele é um cara mau com um coração podre, um vagabundo e não presta de jeito nenhum. E até eu sei que isso não é sensato mas não consigo parar de ama-lo.
Eu queria acabar com o sentimento, mas eu não conseguia pará-lo de forma alguma. Eu sei que tudo isso é e******o e que sou uma i****a, mas eu amo demais e é tão difícil acabar com esse sentimento. Admito que desisti de lutar contra essa maré de sensações , queria muito que a existência de Andrei não me afetasse ao ponto que me afeta, que não me fizesse tanto m*l como faz, mas as malditas lembranças me comem por dentro e eu não sei como e nem se quero m***r isso.
— Zola me responda uma coisa: Por que está fazendo isso? Quero dizer, esse bebê, e... Você sabe que só se pode casar uma única vez e eu não vou amar você, não é? — Perguntei de uma vez, tanto para afastar Andrei da minha cabeça quanto para acabar com essa dúvida. O cara estava na máfia durante toda a vida e era difícil pensar que ele não sabia daquilo. Ele tinha alguma coisa em mente, ou então era muito burro.
— Estamos tentando pegar esses russos a pelo menos algumas décadas e bom, com o filho do futuro capo em mãos será muito mais fácil. — Ele me sorriu. Quando se busca a verdade, ouvi-la pode doer e apesar de não querer esse filho, pensar que ele será usado como moeda de troca me irrita mais do que eu gostaria que irritasse. — E em relação ao casamento, não foi algo tão r**m, vendo que você é irmã de Fabrizio. Além do mais, posso me casar de novo se eu for um viúvo.
Juntei as sobrancelhas, mordendo o lábio inferior enquanto raciocinava novamente para ter certeza que realmente havia ouvido direito. Ele estava me ameaçando?
— E eu achando que você era boa pessoa.— Soltei sem perceber, rolando os olhos pelo deslize. Ele deu de ombros como se aquilo não fosse realmente nada, voltando a se concentrar na estrada.
— Não existem pessoas boas no mundo, Doce. Não se iluda pensando que bondade, fraternidade ou amor de verdade existem. No fim de tudo, é apenas interesse.
Eu queria dizer que ele estava errado. Amor de verdade existe, mas na maioria das vezes nos derruba, nos suga, nos muda e nos destrói. Amor de verdade só não basta, e eu não sei porquê.
E apesar de tudo isso, não deixa de ser amor.
— Espero que você esteja errado, Zola.
— Eu nunca estou, Elena. Saía do conto de fadas ao qual você se afundou e tente viver, vai doer bem menos quando notar que no fim de tudo, você se divertiu. — Um pequeno sorriso brotou em seus lábios e eu inclinei a cabeça ligeiramente para o lado, tentando decifrar sua fala. Ele estava falando de s**o?
Eu ri.
Ele era maluco, aposto que tinha o coração tão fodido quanto o meu ou alguém já havia passado por ali e feito de sua vida um inferno.
— i*****l.
— Eu sei que sou.
Eu estava leve no momento e ele havia me feito rir. Mas isso não significou absolutamente nada. Ele ainda me pagaria por tudo.