NARRADO POR RENATO (CARDEAL) — CAPÍTULO: O AÇOUGUE DO CARDEAL O ar dentro daquele galpão não era apenas oxigênio; era uma sopa espessa de amônia, suor frio e o cheiro metálico, quase adocicado, de sangue fresco. É um perfume que me acalma. Para muitos, é o cheiro da morte; para mim, é o cheiro do inventário. Eu estava conferindo o que era meu. Entrei devagar. O som das minhas botas de couro contra o cimento rachado ecoava como batidas de um metrônomo marcando o tempo de vida de cada verme ali presente. Olhei para os rostos à minha volta. Homens feitos, soldados que deveriam ser cães de guarda, reduzidos a carcaças pálidas e trêmulas. — Ajoelhem-se. — Minha voz não precisou de volume. Saiu do fundo da garganta, uma vibração gutural que carregava o peso de cada corpo que já mandei enterra

