Não percebi que eram três da madrugada até pegar o celular do bolso, que vibrava com a ligação.
- Oi - respondi quando vi o nome do meu pai piscar na tela iluminada.
- Nessie, não acha que está um pouco tarde? Vou ter que conversar de novo com esse cachorro sobre limites?
Ri com as lembranças da minha infância de Edward discutindo com Jacob sobre ele passar um tempo exagerado comigo e fazer todas as minhas vontades. Nessas ocasiões eu simplesmente agarrava a perna de Jake ou segurava seu pelo com mais força e dizia "não terminamos de brincar ainda papai".
- Já estou voltando, só vou deixar Jake em casa - respondi ao telefone.
- Você vai deixá-lo em casa?
- Sim, ele dormiu feito uma pedra.
O ouvi resmungar baixo algo do tipo "o chamei para dormir" e lembrei do que Jacob comentou anteriormente.
- Pai, você foi atrás dele para me dedurar?
Edward ficou em silêncio por alguns segundos.
- Você não me deixou escolhas, Nessie. Estava a ponto de enlouquecer toda vez que a via perder horas naquela varanda.
- Pai, mas você não tinha esse direito. Você não sabe o que Jacob está passando.
- Ah, eu sei muito bem, mas não vou deixar que as idiotices dele te afete. Por favor meu amor, não quero que se sinta culpada por isso, o único responsável por estar nessa situação é ele.
Suspirei, era inútil argumentar.
- Acorde ele por favor e venha para casa.
- Tudo bem - disse, derrotada. No mesmo segundo o telefone desligou.
Meu curto período com meu melhor amigo tinha chegado ao fim e sabe se lá quando aconteceria novamente. Havia tanta coisa que eu queria ter perguntado, tanto que eu queria planejar sobre a viagem. Eu sabia que Jacob conhecia pouco do mundo, apenas o que seus momentos de lobo proporcionava. Eu também não viajei muito em minha curta vida, mas não por falta de vontade e sim porque Jake dificilmente poderia acompanhar minha família, então era assunto encerrado, ninguém ia aonde o outro não estivesse.
Tentei aproveitar ao máximo os poucos minutos que nos restava, apreciando seu rosto relaxado e iluminado pela lua.
Sua pele acobreada estava mais pálida, isso era por falta de sol, com certeza, mas seus lábios grossos ainda tinham o mesmo tom avermelhado que eu me lembrava, agora abertos levemente e emitindo alguns roncos. Sua expressão estava tão relaxada que ele parecia mais novo que eu, o que era loucura, mesmo que, fisicamente, nossas idades serem semelhantes.
Percorri os olhos por seu pescoço, ouvindo intenso fluxo de sangue que corria alí, chegando e saindo do seu estranho coração, rápido e irregular como o meu.
Sempre me reconfortei com o fato de sermos biologicamente parecidos, com muitas características em comum, de acordo com avô Carlisle. Isso fazia eu me sentir menos uma aberração e dava a sensação de conformidade com meu melhor amigo, que de alguma forma éramos da mesma espécie, mesmo sabendo que isso era ridículo.
Ele se encolheu mais um pouco quando um vento particularmente gélido passou por nós, levando todos os meus cabelos emaranhados - agora já secos - para a frente. As pontas avermelhadas balançaram sobre o rosto de Jake, fazendo cócegas em seu nariz e o despertando.
Seus olhos se abriram aos poucos e focaram em mim. Era a imagem mais linda que eu já tinha visto.
Eu devia estar abrindo um sorriso abobalhado, porque o sorriso de Jacob em resposta foi igualmente largo, enquanto suas íris brilhavam, fazendo com que o brilho da lua, em comparação, não passasse de uma lâmpada queimada.
Senti sua mão grande no meu rosto afastando uma mecha de meu cabelo para trás e um calafrio percorreu meu corpo.
- Nessie - sussurrou ele, a voz rouca e séria.
Inclinei ainda mais o rosto sobre sua mão, fechando os olhos para apreciar a sensação.
- Oi dorminhoco - respondi, ainda de olhos fechados.
Quando o olhei novamente seu rosto estava confuso, então ele olhou em volta e se levantou de repente, me deixando congelada onde estava.
- Que horas são? d***a, eu dormi! - resmungou ele, um pouco tonto ao se levantar tão depressa.
- Dormiu Jake, você estava exausto.
Ele passou as mãos pelo cabelo nervosamente, tentando domá-los para trás.
- Por quanto tempo dormi?
- Hum… por umas três horas, eu acho. Não estava contando.
Eu ainda estava sentada enquanto ele me encarava em completa confusão.
- Porcaria, eu não devia ter dormido tanto, era para ficar mais tempo com você. Seu pai deve estar querendo minha caveira.
- Ele ligou a poucos minutos. Deixa que eu te levo para a casa.
Eu me levantei e observei seu olhar de culpa e frustração.
- Não precisa, eu te levo - disse, já pegando nossos capacetes no chão - me perdoa meu amor, eu sou um imprestável.
De repente congelei onde estava. Ele nunca tinha me chamado assim antes. Meu coração inexplicadamente começou a bater mais rápido que o normal, mas ele não pareceu notar.
- Err… Não precisa pedir perdão Jake, estou feliz que tenha dormido um pouco. Agora me prometa que vai para cama assim que voltar para a casa.
Ele fez uma careta.
- Não posso, tenho que voltar para a Washington imediatamente, se não vou chegar atrasado de novo na primeira aula. Também preciso ver se foi tudo bem com a ronda de Leah enquanto estive ausente.
Concordei com a cabeça enquanto subia na garupa da moto, onde ele já me esperava com o motor ligado.
Eu não queria pensar no que tinha acabado de acontecer. Não porque aquilo não dava o que pensar, mas era constrangedor demais admitir que mais uma vez meus sentimentos estavam se confundindo, me fazendo enxergar as coisas entre nós de uma maneira totalmente distorcida e errada.
Ficamos em silêncio na maior parte do percurso para a casa dos Cullen, seus pensamentos gritando tão altos quanto os meus, até chegou num ponto do silêncio ser insuportável, então comecei a tagarelar para preencher o vazio.
- E então, eu tenho que vestir alguma roupa de gala indígena para o casamento? - perguntei.
Jake bufou.
- Até parece, é só você colocar a primeira roupa que achar e vai estar mais bem arrumada que todo mundo na festa.
Isso doeu. Será que ele me achava tão vaidosa assim?
- Os casamentos Quileutes são diferentes dos que você está acostumada. Lembra de Paul e Raquel? – continuou ele.
Assenti. Paul e Raquel tinham se casado quando eu tinha apenas três anos de idade, mas aparentava ser uma criança de oito.
Mas ele tinha se enganado, eu não tinha ido a muitos casamentos durante minha curta vida. Além de Paul e Raquel, a única festa foi a de meus tios Rosalie e Emmett, uma celebração muito diferente dos Quileutes, além do fato de ser seu o décimo casamento e eu ser a dama de honra.
- Você promete ir me buscar para irmos juntos?
- Claro que sim - disse ele num tom que indicava que aquilo era mais óbvio quanto o dia seguinte.
Sorri dentro do capacete. Eu iria vê-lo novamente em poucos dias, isso proporcionou dentro de mim uma onda de alegria e agitação inexplicada, e aquela necessidade de tê-lo por perto latejava em todas as terminações nervosas do meu corpo.
Quando paramos em frente ao chalé meus pais já tinham voltado. Eles apareceram em uma das grandes janelas e cumprimentaram Jacob, minha mãe com uma expressão tranquila e meu pai com os olhos semicerrados.
- Ok, agora eles vão ficar controlando seus horários? - disse ele ao interpretar a expressão de meu pai.
- Não ligue para isso, só estão curtindo a fachada de pais protetores.
Ouvi Edward rosnar levemente de dentro da casa.
Coloquei as mãos no rosto de Jacob, de repente muito desanimada e deixei que lesse meus pensamentos. Ele soltou um suspiro.
- Sim, eu tenho que ir, preciso ver como os rapazes estão se saindo.
"Pensei que não fosse a babá da sua matilha"
- Não é tão simples assim - murmurou e pude ver um lampejo de dor intensa por um breve segundo em seus olhos.
Eu conhecia aquela dor, já tinha visto antes em seus olhos, então sabia do que ele estava falando, deixei meus pensamentos fluírem e Jake assentiu brevemente, depois pegou minhas mãos e colocou na minha cintura, não querendo pensar naquilo.
- Me desculpe - sussurrei.
- Está tudo bem.
Ele depositou um beijo suave no meu rosto, como se eu fosse feita de porcelana e me envolveu em seus braços em um abraço. Me arrepiei, mesmo nossos corpos tendo a mesma temperatura quente. Voluntariamente passei meus braços finos em volta do seu corpo e inalei seu cheiro amadeirado e rústico.
Eu poderia ficar ali por décadas e não me importaria de me mexer um centímetro sequer, mas Jake começou a se afastar.
- Boa noite Nessie - sussurrou com sua voz rouca.
Então ele partiu para a floresta e de volta para sua moto.