Corri em uma velocidade inumana para dentro da grande casa, ansiosa demais para me conter. Quando cheguei na sala principal, vi que toda a minha família estava reunida nos muitos sofás de centro, exceto Jacob, que estava de pé, as mãos secando nas calças e um sorriso enorme se abrindo e iluminando seu rosto.
- Jake - exclamei a meia voz, sem acreditar que ele realmente estivesse ali.
Corri imediatamente para os seus braços e, antes que ele entendesse o que estava acontecendo, pulei sobre seu pescoço, tirando os pés do chão. Jacob levou meio segundo para processar, mas imediatamente passou os braços pelo meu corpo e me girou no ar.
Demos alguns rodopios, pulinhos e rimos feito duas crianças antes de ele me devolver ao chão, sem me soltar de seu abraço.
- Caramba Nessie, eu nem vi você chegar - disse e eu não consegui conter o sorriso ao ouvir o som da sua voz novamente - e aí, qual é a boa?
Ri mais um pouco feito uma pateta.
- Eu estou bem, com muita saudade para falar a verdade. Mas ei, você é o senhor das novidades por aqui. Como estão as coisas? E a matilha? A faculdade é legal?
Eu estava empolgada demais para me atualizar de tudo que tinha perdido.
- Ah, sabe como é - e deu de ombros, como se minhas perguntas não tivessem tanta relevância.
Então reparei pela primeira vez em seu rosto, nas luas arroxeadas embaixo dos olhos, nas pálpebras pesadas e no cabelo desgrenhado, tão longos que cobriam as sobrancelhas.
- Jake, você está péssimo. Charlie tem razão, você não tem dormido nada ultimamente.
- Quando morrer eu durmo - disse dando de ombros. Soquei seu ombro pelo comentário sem graça. - Brincadeira. Mas você também está diferente desde a última vez que te vi. Quando é que vai parar de crescer?
Ele fez essa pergunta a mim, mas seu olhar procurou Carlisle, com uma expressão séria.
- Está desacelerando Jacob - garantiu Carlisle.
- Sei, vocês estão falando isso há três anos.
- Mas é verdade, há três anos nós temos observado um regresso. Ontem mesmo fizemos medição e não houve muita mudança, pelo menos não na altura.
Vi do sofá que tio Emmett tremia para segurar uma risada, eu o fuzilei para que ficasse calado, mas isso só fez com que ele explodisse de rir. Revirei os olhos.
Jacob ignorou nosso pequeno show e voltou os olhos para Carlisle.
- Por isso a ida ao Brasil é tão importante - continuou Carlisle - queremos conversar com as irmãs de Nahuel para descobrir se possuem as mesmas características que Renesmee.
Eu não estava gostando daquele papinho, estava diminuindo meu tempo com Jacob, e tinha tanta coisa que eu queria perguntar a ele.
Mas de repente o som de sua barriga roncando nos interrompeu. Minha mãe levantou do sofá e se dirigiu para a cozinha.
- Venha comer Jake, você também, filha - disse ela ao passar por nós - depois vocês estão livres.
Puxei Jacob pela mão, me recusando a deixar de tocá-lo e sentamos em duas das várias cadeiras da grande mesa da cozinha. Minha mãe colocou na nossa frente o enorme pedaço de costela assada e nos olhou com a expressão "podem atacar". Não pensamos duas vezes, comemos tudo em silêncio. Eu não tinha percebido que estava com tanta fome, mas Jacob estava com um buraco n***o na barriga, comeu três vezes a mesma quantidade que eu e ainda esvaziou uma garrafa inteira de refrigerante.
- Nossa, estava delicioso. Valeu Bells - disse ele sem levantar o volume da voz, sabendo que minha mãe escutaria da sala. Ouvi um riso baixo em resposta. - E aí, quer ir a reserva comigo? Podemos ir até o penhasco ficar de bobeira, mas antes preciso passar em casa e tomar um banho descente, só aqueles banhos no rio como lobo não ajudam por muito tempo.
- Claro, eu iria adorar - disse, empolgada de imediato. Naquela altura se ele me chamasse para ir a Las Vegas, eu iria. Também queria conversar com ele longe dos ouvidos biônicos da minha família.
- Mas por favor tome um banho antes, você está fedendo a vampiro - disse e tampou o nariz teatralmente.
- Deixa eu contar uma novidade para você… - disse de brincadeira, fazendo beicinho.
Eu sabia que Jacob não se incomodava com meu cheiro, mas como eu estava rodeada de vampiros o odor deles era o mais proeminente em mim. Resolvi não contestar, subi as escadas para o banheiro. Por alguma razão queria estar arrumada para ele. Peguei uma roupa limpa de tia Rosalie no caminho, sabia que ela não se incomodaria de me emprestar. Levei a peça ao nariz para me certificar de que o cheiro não era forte. Hum… jeans não era uma boa idéia. Encontrei um macacão preto de viscose perfumado de amaciante e corri para o banho, não me demorando muito. Achei necessário lavar o cabelo para me certificar de que todo o cheiro de vampiro tinha saído, então acabei saindo do com os cabelos ruivos ainda molhados e voltei para a sala, onde Jacob conversava com meu pai sobre os preparativos da viagem.
Quando Jacob me viu, se levantou imediatamente e me olhou dos pés à cabeça. Corei, lógico.
- Vamos de moto? - perguntei timidamente.
- Claro - respondeu.
- Leve o capacete Renesmee e não volte tarde - disse meu pai.
Revirei os olhos. "Minha cabeça é mais segura que o capacete e amanhã vou estar tão atarefada quanto uma folha" pensei ironicamente.
- Não seja teimosa - respondeu ele.
Fomos para garagem, subimos na moto e saímos do terreno dos Cullen em menos de um minuto. Correr pela floresta seria mais rápido, mas a sensação de estar abraçada com Jake e sentir o vento gelado nos meus cabelos era bom demais para abrir mão, então o apertei ainda mais, sem acreditar que ele estava alí. Toda aquela tristeza e angústia desapareceram no momento em que ouvi seu coração, agora parecia só um pesadelo antigo. Finalmente a espera acabou.
- Senti muito sua falta - disse com o rosto colado em suas costas. Mesmo com o barulho do vento, ele com certeza me ouviria.
Senti seu corpo se contrair nos meus braços e ele soltar uma lufada de ar.
- Me perdoa Nessie, por favor. Tenho sido uma pessoa h******l e uma companhia desagradável, nem Billy me aguenta mais. Me perdoe por não ter ligado e nem dado notícias. Acredite em mim, eu senti muito mais a sua falta.
- Dúvido - o interrompi, e mostrei a ele através do meu dom tudo que eu fiz durante sua ausência, editando as piores partes. Não tinha muito o que mostrar, o tédio era predominante nas minhas lembranças.
- Arr… eu me odeio por isso. Você será capaz de me perdoar um dia?
- Não tem o que perdoar, você está com muita coisa agora, eu entendo totalmente.
Ele murmurou alguma coisa ininteligível, mas depois limpou a garganta e continuou.
- Mesmo assim, eu deveria ter arranjado um tempo para te ver, quarenta e dois dias é demais, eu estava quase enlouquecendo. Se o seu pai não tivesse aparecido…
- Espera aí… meu pai foi atrás de você?
Não entendia porque, mas não gostei daqui lo, me sentia traída, se Edward tivesse ido até a reserva para ver Jacob, por que não teria me avisado?
- Ele foi, você não sabia? Acho que ele não queria que você soubesse... Que se dane agora.
- Mas por que?
Apesar de ele estar de costas para mim e o barulho da moto ser ensurdecedor, pude ouvir um murmúrio de lamentação sair de seus lábios. Essa conversa não estava sendo confortável para ele, mas eu não me importava, ardia de curiosidade e frustração para saber o que meu pai andou aprontando.
- Ele me rastreou quase a cinco quilômetros ao sul de Seattle, eu estava a caminho da reserva para começar minha ronda. Ele veio com um papo da viagem ao Brasil e tal, mas logo desconfiei de que não era para isso que ele foi atrás de mim, então o obriguei a desembuchar. Seu paizinho não foi nem um pouco sutil ao me dar uma bronca, dizendo que você estava péssima, que ele estava muito preocupado.
Enquanto falava eu observava seu rosto atentamente através do espelho retrovisor, ele tentava não demonstrar emoção, mas no final pude perceber o canto de seus lábios se contorcendo em uma careta. Como não falei nada, ele continuou.
- Renesmee, se eu soubesse que você ficaria desse jeito eu nunca teria concordado com essa ideia i****a de faculdade. Como disse antes, não preciso disso.
- Não era para ele ter ido atrás de você, eu estou bem - menti para tentar acalmá-lo. Não consegui deixar de me sentir mais culpada do que já estava, ele tinha tantos compromissos e estava perdendo seu tempo comigo só porque fiquei tristinha.
Mas ele ignorou o que eu disse e continuou.
- Quando estou em forma de lobo por tanto tempo, fico s*******o dos dias, estou perdendo várias aulas nessa faculdade estúpida porque as vezes penso que é um dia, e quando na verdade esse dia já passou faz tempo.
- Mas isso anda acontecendo porque você não dorme, Jacob.
Ele fez um biquinho, o que quase me fez rir, mas isso iria estragar a minha bronca.
- Talvez. Mas eu prometo, e agora é sério mesmo, tenho que cumprir essa promessa: vou prestar mais atenção nos dias e te visitar com mais frequência.
- Não precisa fazer isso por mim, Jake. Você sabe como é meu pai, se não fosse um vampiro já estaria velho de tanta preocupação.
- E ele já é bem velho - brincou ele. - Mas não quero fazer isso só por você Nessie, estou quase enlouquecendo esses dias e você é meu único ponto de sanidade.
Fiquei lisonjeada com o elogio, mas não pude ignorar a insanidade daquelas palavras. Uma adolescente meio humana e meio vampira, carente e confusa é o ponto de sanidade de um lobisomem universitário. Ri com o pensamento.
Não tinha me dado conta que tínhamos chegado a reserva, mas ele já estava parando sua moto na entrada de terra da garagem. De dentro da casa eu podia ouvir a cadeira de rodas de Billy arranhando o piso de madeira.
Jake entrou com tanta rapidez que assustou o pai.
- E aí garoto, lembrou que tem pai? - disse Billy da sala. Jake passou por ele e deu um beijo na sua cabeça calva. Foi quando Billy me viu ainda parada na porta - Nessie, que surpresa boa! Você está enorme - seus olhos estavam esbugalhados - e linda - complementou, batendo com o cotovelo na barriga de Jacob.
Jacob revirou os olhos na mesma hora.
- Oi Billy, obrigada - disse, me sentando no pequeno sofá de dois lugares ao seu lado, eu me sentia tão à vontade ali como em minha própria casa.
- Pai, faz companhia para a Nessie enquanto eu tomo um banho - disse Jacob sem esperar uma resposta e indo em direção ao banheiro.
- Você já jantou, Jacob? - gritou Billy.
- Já, jantei nos Cullen - respondeu a voz de dentro do banheiro e logo depois o chuveiro foi ligado.
Billy começou a movimentar sua cadeira para chegar mais perto de mim e pegou minhas mãos que estavam no colo, fiquei surpresa com o gesto, mas não recuei.
- Não sabe o alívio que sinto em ver você querida. Esse garoto anda muito instável ultimamente, vive irritado e sem paciência. Saber que você está aqui o acalma e também me acalma.
Não pude deixar de notar o tom ressentido de sua voz, como se quisesse fazer mais pelo filho lobisomem, mas suas limitações iam muito além de uma cadeira de rodas. Tentei manter o tom mais gentil possível, eu queria confortá-lo.
- Não fiquei assim Billy, Jake só está passando por um momento difícil, cheio de coisas. Mas ao menos ele está fazendo a coisa certa.
- A coisa certa para ele é ficar perto de você - murmurou baixinho, olhando para baixo.
Parecia loucura, mas sua frase indicava um duplo sentido. De qualquer forma não entendi, desde quando ficar perto de mim era melhor para Jacob do que cuidar da sua própria matilha e dos estudos?
Billy percebeu minha expressão, mas abanou as mãos próximo do rosto como se dissesse "esquece".
Ele se inclinou para o sofá para pegar o controle remoto e aumentar o volume da TV Quando voltou a falar seu tom era um sussurro, para que Jacob do banheiro não ouvisse.
- Está sendo duro para ele na matilha também, desde que Sam saiu, alguns membros do bando não confiam na sua liderança.
- O que? Como assim?
Eu não conseguia acreditar no que ele disse, todos da matilha eram amigos a muitos anos e Jacob era um ótimo alfa. Como eles não confiavam nele?
- Desde que Jacob deserdou da matilha de Sam para se unir a sua família a anos atrás, o restante do bando, com exceção de Leah, Seth, Quil e Embry, deixaram de confiar nele, o acharam muito irresponsável. Você conhece essa história, não conhece?
Assenti. É claro que conhecia. Eu conhecia toda a história da minha família, como cada um dos Cullen foi transformado, em especial minha mãe, que perdeu sua vida humana para me dar a luz e como isso quase desencadeou uma guerra com os lobisomens. Mas graças a Jacob minha família foi avisada com antecedência, retardando o ataque de Sam. Ele não permitiu que ninguém tocasse em mim e na minha mãe. Quando pensava nisso meu amor por ele aumentava cada vez mais.
- Claro que eles evitam pensar nisso o máximo possível, digo, o restante do bando - continuou Billy - mas Jacob sabe que eles subestimam sua autoridade.
- Mas isso é ridículo - contestei aos sussurros - Jacob estava fazendo o que era certo.
- Eles sabem disso, mas é contra as regras desobedecer a voz de comando do alfa e criar a própria matilha. Eles pensam que Jacob pode ter outra atitude irresponsável assim que aparecer um problema que não quiser enfrentar.
Eu estava abismada com o que ouvia.
- Até Paul…- não consegui completar a pergunta. Eu sempre pensei que os lobos eram como uma grande mente, uma só família. Aqueles homens eram tão amigos de Jake quanto eu.
- Na verdade, Jared e Paul foram quem começaram a pensar assim e acabaram contaminando todo o bando. Quando Sam saiu e Jacob assumiu a matilha, eles voltaram a ter a mente conectada. Seth e Leah quase começaram uma briga, se Jake não tivesse impedido.
Billy deve ter finalmente reparado na expressão de inconformidade no meu rosto, pois pegou minhas mãos novamente e se apressou em me acalmar.
- Eles estão bem agora Nessie, Jacob não guarda rancor. É assunto passado. Só disse tudo isso para explicar porque meu filho anda tão dedicado a matilha ultimamente. Não é só porque é o alfa, mas também porque ele é muito orgulhoso e está assumindo responsabilidades que poderiam muito bem ser distribuídas com outros rapazes, e isso me preocupa.
Billy se interrompeu quando ouvimos o som do chuveiro ser desligado, ele voltou sua cadeira para onde estava antes, fingindo prestar atenção no jogo.
Jacob saiu do banheiro poucos minutos depois, com a toalha presa na cintura, os cabelos cumprimos ainda pingando sobre o peito largo. Fiquei momentânea desconsertada com a cena, como se estivesse acontecendo em câmera lenta. Abaixei a cabeça tarde demais e torci para Jacob não me ver corar.
- Perdeu as boas maneiras pai? Eu te pedi para ao menos fazer sala a Nessie e não para ficar vidrado nesse jogo i****a.
Billy nem o olhou quando respondeu.
- E você poderia ao menos sair vestido do banho.
Não consegui controlar a risada ao ver a expressão de Jacob quando olhou para si mesmo, totalmente envergonhado, mas tentando disfarçar ao me dar uma piscadela. Ele correu para o quarto e voltou poucos segundos depois, me puxando pelo braço porta a fora, consegui gritar um "até mais Billy" antes de subirmos na moto e Jake dar a partida. O motor engasgou violento antes de ganhar vida.
- Porcaria de sucata velha - murmurou ao sairmos do terreno da sua casa.
- Posso pedir para tia Rosalie dar uma olhada para você.
Jacob sabia que Rosalie era uma mecânica dez vezes melhor que ele, mas nunca admitiria isso, apenas falei para ver sua careta costumeira e rir mais um pouco.
Percorremos o caminho até o penhasco em silêncio, o único som à nossa volta era do vento forte e do motor da moto.
Eu ainda estava perdida em pensamentos sobre o que Billy dissera. Da última vez que Jacob me ligou, ele havia reclamado que estava fazendo rondas mais longas e mais demoradas. Eu tinha lhe perguntado porque não dividia os turnos com outros lobos, mas ele desconversou, então supus que não tinha tanta confiança nos lobos mais jovens, mas ainda sim, eles eram em quinze, podiam cobrir um perímetro enorme. Agora somado ao que Billy me contara, fazia mais sentido. Jake estava assumindo mais responsabilidade que o necessário, fazendo as rondas mais importantes, treinando exclusivamente os mais novos, não perdendo uma reunião do conselho. Tudo isso para provar aos outros que podia ser o alfa ou simplesmente os deixando com a parte "fácil", para que finalmente entendessem o quanto ele era responsável e comprometido com o bando.
Eu queria poder fazer alguma coisa para ajudá-lo, talvez assumir alguma tarefa, mas sabia que ele ficaria furioso com a minha sugestão.
Jacob estacionou a moto a poucos metros na beira do penhasco, onde uma pedra lisa servia de banco para conseguirmos admirar o mar daquela altura. As águas negras quebravam em ondas nas pedras altas e eram iluminadas por uma lua cheia redonda e brilhante. Por um momento lembrei das profundezas dos olhos de Jacob naquela tarde na praia em que quase nos… bem, em que eu quase o beijei. Balancei a cabeça para espantar a lembrança.
Jake sentou na pedra e deu uma batidinha ao seu lado para que eu o acompanhasse, colocando nossos capacetes ao seu lado.
- Então… Brasil hem? - começou ele, cruzando as pernas confortavelmente.
Dobrei meu corpo sobre o joelho e o olhei de lado.
- Você vai, não é? Já estou com a sua passagem, ganhei de Esme.
- Claro que vou! Não perderia isso por nada. Quando vai ser?
- No próximo domingo - respondi.
Jacob se sobressaltou.
- Mas já? d***a, eu preciso tatuar um calendário na minha testa.
- Qual é o problema Jake?
- Nada, só vou ter pouco tempo para ajeitar as coisas na matilha - ele fez uma careta, como se isso fosse uma tarefa desagradável. Quis dizer algo a esse respeito, mas sabia que indicaria que eu sabia demais, e Billy com certeza não queria que Jacob soubesse que me contou.
- Relaxa, você ainda tem o restante da semana.
A cara de Jacob ficou pensativa por alguns momentos, mas de repente ele se aprumou.
- Ah, o que me fez lembrar… - disse ao se virar e retirar do bolso um papel grosso e amassado e me entregou delicadamente.
- O que é isso? - perguntei, mas já estava abrindo o envelope.
No papel, com uma caligrafia elegante, estavam os nomes de Jared e Kim, logo abaixo um endereço e a data do próximo sábado.
- Já não era sem tempo - resmungou Jacob, passando os braços despreocupadamente por meus ombros, me trazendo para mais perto de seu corpo.
- É muita gentileza deles me convidar.
Pensei em Jared e Kim, me perguntando porque tinham demorado tanto para se casar, eu os conhecia desde que me entendia por gente e era óbvia a completa admiração e devoção que sentiam pelo outro. Era um sentimento tão forte e íntimo que me deixava constrangida todas as vezes que eu os via juntos, como se eu fosse uma intrusa observando seu mundinho.
Pensar neles e nesse sentimento forte de lobo me fez refletir sobre outra coisa e de repente me senti i****a por nunca ter pensado nisso antes, e mais i****a ainda por não saber a resposta, então me obriguei a fazer a pergunta, porque, com certeza, assim como a dúvida surgira tão rapidamente, ela também me consumiria na mesma velocidade.
- Jake - limpei a garganta - por que você nunca teve um imprinting?
No momento em que deixei escapar as palavras da minha boca, me arrependi. Não porque minha curiosidade cessara, nada disso, mas porque seu corpo todo se enrijeceu de tal modo que, se eu fosse uma humana frágil, teria deixado hematomas nos meus braços. Senti um grunhido sair de dentro do seu peito e suas mãos tremerem levemente.
- Ei Jake, o que foi? Está tudo bem? - perguntei com a voz trêmula.
- Sanguessuga traidor - rosnou ele entre dentes.
Agora eu estava verdadeiramente assustada, ele passou a tremer tanto que achei que pularia sobre quatro patas a qualquer momento.
- Sanguessuga? Do que você está falando? Quer se acalmar, Jacob? - estava começando a ficar irritada comigo mesma. i****a! Por que fui perguntar uma coisa dessas?
- Que raio de pergunta é essa Renesmee? - ele sussurrou entre dentes, refletindo meus pensamentos. Eu via a força descomunal que ele fazia para tentar se acalmar.
- Desculpe Jake, eu só fiquei curiosa. Não está mais aqui quem falou - respondi com as palmas para cima, num gesto de complacência.
Jacob olhou para a minha expressão e seu rosto se repente ficou pensativo e confuso.
- Er… - ele se interrompeu e percebi que seu corpo não estava mais tremendo - o que você me perguntou mesmo?
- Porque você nunca sofreu imprinting - respondi devagar, com medo de provocar outra onda de raiva.
Jacob ficou alguns minutos em silêncio e seu corpo foi relaxando aos poucos e, por fim, soltou um suspiro.
- Ah, foi isso. Desculpe.
Como Jacob não acrescentou mais nada, não ousei voltar a falar, deixei o silêncio nos cercar. Nunca mais iria tocar naquele assunto, não queria vê-lo daquele jeito novamente. Eu que mordesse minha curiosidade e a levasse para o túmulo, ou melhor, para a eternidade. Quando ocorresse o imprinting eu saberia, porque tinha certeza que ainda não tinha acontecido, ou Jacob não estaria ali comigo, e sim na casa da sua alma gêmea, aproveitando a companhia dela, e não a minha..
Não entendi porque, mas esse pensamento me entristeceu, e quase pude sentir as nuvens escuras flutuar sobre minha cabeça de novo. Eu não cansava de ser tola, pelo amor de tudo que é sagrado.
Me obriguei a esvaziar minha mente, mas era algo muito difícil de fazer, então foquei meus pensamentos nas ondas quebrando lá embaixo, no som das águas e dos animais noturnos, saindo de suas tocas para caçar, e fiquei ali por muitos minutos, ou talvez horas. Jacob estava silencioso e relaxado ao meu lado, seu braço ainda em volta dos meus ombros, ainda perdido em pensamentos.
Mas depois percebi que na verdade ele estava relaxado demais, até sua respiração era mais profunda. Não resisti e o olhei pelo canto dos olhos, sua cabeça estava apoiada no seu braço e ele soltou o primeiro ronco. Ri baixinho. Ele dormia tão pesadamente que não percebeu quando levantei seu tronco delicadamente e o apoiei sobre meu colo, seu corpo quente era tão grande que minhas pernas não passavam de um pequeno travesseiro. Me perdi novamente em pensamentos enquanto acariciava seus cabelos macios e apreciava o som de seu sono.