Lembro como se fosse ontem como minha coleção de constrangimentos familiares começou em grande estilo, cerca de três anos e meio atrás, no mesmo dia em que Carlisle confirmou a meus pais que eu estava entrando na puberdade, que meu corpo não era mais considerado de uma criança e sim de uma adolescente. A tensão foi unânime em minha família. "Tão cedo?" Perguntou minha mãe, e em sua expressão eu percebi que se ela pudesse chorar naquele momento, faria. Nada pude fazer a não ser abraçá-la mais forte. Mesmo com tio Jasper emitindo uma aurea de tranquilidade sobre nós, não pude evitar a melancolia ao voltar para o chalé no final do dia com meus pais. Mas foi apenas quando estava tomando banho antes de dormir que aconteceu, e o choque foi tanto que meu pai no mesmo instante correu para o meu quarto prestes a quebrar a porta do banheiro quando gritei "NÃO! NÃO ENTRE AQUI". Minha mãe já estava ao seu lado perguntando o que estava acontecendo, meu pai respondia apavorado que não sabia.
Mas logo ele saberia, porque eu já tinha entendido.
Pelo jeito fêmeas metade humana e metade vampira podem menstruar.
Eu achava que o pior que poderia acontecer era ser submetida a uma série de exames de vô Carlisle, o que consequentemente levaria a um mutirão familiar de pesquisas. Porém as piadas de tio Emmett conseguiu superar tudo isso, ao ponto de meu pai jogá-lo contra uma pilastra, partindo-a em duas. Mas não foi o suficiente para detê-lo. E daí para frente foi só ladeira abaixo.
Como se tivesse lido meus pensamentos, tio Emmett soltou uma gargalhada estridente, me trazendo de volta ao presente.
– Isso aí Nessie, seja o s*x symbol no meio daquele bando de adolescentes excitados. O pobre Jacob terá de fazer o ritual de acasalamento dos lobos. – disse, rompendo em uma risada maior ainda.
Era uma pena eu não poder apostar uma queda de braço com ele.
– Ainda bem que você se entretém - sibilou tia Rosalie ao meu lado, lançando a Emmett um olhar gélido.
– Sempre, linda.
Revirei os olhos, certa de que a zoação só estava começando. Eu também não era nenhuma santa, embarcava nas brincadeiras do meu tio, por isso acabava me tornando o seu melhor alvo.
– Bom, mas no geral você está indo muito bem Renesmee. - disse avô Carlisle, ainda detrás da sua mesa - Seu desenvolvimento está gradativamente desacelerando. Penso que Rosalie tem razão, caso contrário, se todo o seu corpo estivesse crescendo no ritmo da sua circunferência, provavelmente em um ano você poderia se passar por uma humana de 30 anos.
Estremeci com a idéia, isso era muito mais do que meus pais jamais alcançariam.
– Ainda bem que vamos ao Brasil em breve – disse um tanto desanimada.
– Sim, exatamente. Já adiamos essa viagem mais do que o necessário. Já entrei em contato com Zafrina, as Amazonas vão nos receber em sua aldeia. Tenho esperança de que possamos conhecer as irmãs de Nahuel - disse Edward, abraçando minha mãe e afagando seus braços.
– Talvez Nessie tenha nascido mais humana que vampira - murmurou minha mãe e eu podia ver em seus olhos dourados que tentava esconder seu desespero.
– Tenho certeza que não, Bella - respondeu Carlisle num tom gentil. - O crescimento está desacelerando, Nessie está cada dia mais próxima da imortalidade. Acho ótimo vocês estudarem as irmãs de Nahuel, talvez o gene feminino funcione diferente em híbridos.
Pensei imediatamente em Leah Clearwater, a única híbrida feminina que conhecia, e no dia em que Jacob me contou como ela sofreu mais com a transformação para lobo, além do drama Leah-Sam-Emily, do que os outros. O corpo humano da menina loba foi o que mais se alterou ao parar de envelhecer, mas Jake não sabia explicar exatamente o que houve e também não queria entender o assunto.
Após finalizar as medições voltei para o chalé sozinha, dando uma desculpa qualquer para meus pais. Eles sabiam que eu queria espaço para pensar e o quanto eu tentava manter a fachada bem humorada na frente de toda a família. Honestamente a certa altura todos os Cullen já entendiam o que eu queria e respeitavam. A verdade era que a ausência de Jacob doía mais do que eu deixava transparecer, como se meus dias ficassem mais frios e vazios quando eu não o via. Havia tanta coisa que eu queria contar a ele, tanta coisa que eu gostaria de saber sobre sua faculdade, as noites com a matilha. Queria lhe contar sobre nossa provável viagem para o Brasil e todos os lugares lindos que poderíamos conhecer lá. Percebia que eu estava me agarrando ao último fio de esperança, que essa viagem poderia trazer de volta tudo aquilo que eu sentia tanta falta. Mas e se não trouxesse? E se ao voltar para a casa Jacob retomasse sua rotina maluca? Ou pior, se ele nem conseguisse ir? Não era algo impossível de acontecer, tendo em vista que não tinha tempo nem de me ver mais.
Os quarentas dias que eu não via seu rosto estava mais para quarenta anos, suas ligações rápidas pareciam um sonho antigo. Cada maldito minuto se tornava quase palpável a sua ausência.
Respirei fundo, tentando reprimir meu desespero. Se não me controlasse sabia o que viria a seguir: minha garganta se fecharia, lágrimas inundariam meu rosto e eu levaria o dobro do tempo para voltar ao normal antes dos meus pais retornarem para a casa.
Com muito esforço arrastei os pés até a biblioteca e comecei a organizar os livros já organizados. Depois preparei meu almoço e coloquei tudo para dentro antes de me dar conta. Lavei toda a louça duas vezes, sequei e guardei no grande armário branco laqueado.
Sem conseguir adiar mais, fui para os fundos do chalé e me debrucei no parapeito da varanda, ao lado do grande jardim suspenso. Esse era o lugar em que eu passava a maior parte dos meus dias, olhando para a floresta e esperando que meu melhor amigo de repente surgisse no meio das árvores, talvez com a camisa ainda pendurada nos ombros, mas com certeza com um imenso sorriso no rosto, feito um raio de sol para afugentar as nuvens de chuva que eu carregava.
Eu já tinha desistido de receber qualquer ligação dele, sabia que Jacob tinha uma pilha de celulares quebrados na lixeira de casa, todos presentes meu. Ele dizia que era um objeto inútil para um lobisomem, porque não conseguia carregar enquanto era lobo e vivia constantemente indo ao encontro do chão. Ainda sim eu andava com o meu para todo o lugar, na esperança de que ele me ligasse da casa de Billy.
Já era hora do crepúsculo quando meus pais voltaram da casa. Ouvi seus passos ao cruzarem a porta e o suspiro pesado de minha mãe, juntamente com o trincar de dentes do meu pai ao perceberem onde eu estava. Sinceramente eles já deveriam estar acostumados com meu comportamento, ao menos os ataques de ódio contra Jacob cessaram, porque eles sabiam que só me fazia m*l.
– Charlie ligou querida - disse minha mãe ao entrar na varanda e me abraçar pelos ombros - ele nos convidou para almoçar com ele amanhã, mas como estará sol inventei que seu pai e eu teríamos compromisso, mas disse que você iria com certeza.
Dei de ombros, já fazia algum tempo que não via Charlie mesmo, seria ótimo.
Não passou despercebido o olhar preocupado que ela lançou a Edward quando reagi indiferente a visita de Charlie e voltei ao meu quarto para dormir cedo.
Eu não tinha muito o que fazer, sabia que os pesadelos logo viriam, mas ficar acordada não ajudava em nada, então era melhor acabar com isso de uma vez.
Dessa vez o cenário foi diferente, eu estava em uma floresta tropical, coberta pela som de aves exóticas, mas a sensação era a mesma, uma ansiedade louca enquanto esperava Jacob aparecer, e dessa vez estava pior, porque eu sabia que ele estava mais longe de mim.
– Jacob! - chamei.
– Sabe de uma coisa, você não é tão especial quanto pensa - ouvi uma voz feminina atrás de mim.
Quando virei para saber quem era não encontrei nada, mas de repente uma figura enorme e branca saltou sobre mim e eu despertei.
Acordei com sobressalto, minhas mãos ao peito e a respiração pesada.
– Pesadelos de novo? - ouvi a voz da minha mãe e a encontrei sentada no pequeno sofá carmim ao lado da cama.
– Não foi nada - menti.
A essa altura eu já estava acostumada com meus pais velando meu sono, até porque minhas noites eram agitadas iguais as de minha mãe em sua vida humana.
– Cadê papai?
– Ele precisou sair por um instante - disse Bella e desviou o olhar. Achei estranho, mas não estava com energia para questionar.
Ela se levantou e foi para minha cama, me envolvendo em seu abraço de pedra, pousei minha cabeça confortavelmente em seu colo enquanto ela afagava meus cabelos.
– Estou sinceramente muito preocupada com seu comportamento filha. Você passa muitas horas naquela varanda.
Bufei. Eu sabia que não conseguiria evitar esse assunto por muito tempo, mas resolvi amenizar a situação um pouco.
– Mãe, você sabe que a rotina de vampiro pode ser bem tediosa às vezes.
– Mas não precisa ser assim. Você tem liberdade para ir onde quiser, pode ajudar Carlisle no hospital, eu sei que é algo que você gosta. Nem mesmo treinar com seus tios você quer. Tocar então nem se fala.
Eu sabia que era mais fácil para mim do que para o restante da minha família se misturar com os humanos, além da vantagem de poder sair a luz do sol, minha aparência não causava estranheza a eles.
– Eu sei - negar minha falta de vontade era inútil - mas estou animada com o início das aulas em Forks.
– Eu também estou. Mas me conta uma coisa Nessie, você está assim apenas por causa do Jacob ou tem alguma outra razão?
Estranhei essa pergunta, se houvesse alguma outra razão meu pai saberia. Ela viu meu rosto confuso.
– Eu sei, pergunta i****a. Mas é que você nunca agiu dessa forma por causa dele, e nem seu pai entende o que é. Ele magoou você, além do fato de ter desaparecido? - ela trincou os dentes, a ausência dele mais a aborrecia do que a magoava.
– Não mãe - me apressei em defendê-lo - eu que estou sendo uma chata mimada. Eu entendo totalmente que Jake está sobrecarregado com as responsabilidades da reserva e agora da faculdade. Não consigo deixar de me sentir egoísta por sentir sua falta, o que não melhora em nada a situação.
– Renesmee, pare já com isso. Desde quando sentir falta de alguém é uma atitude egoísta? Você nem liga para ele, o que já é surpreendente.
Suspirei, eu não ligava porque era inútil, ele nunca atendia. Sinceramente já estava cansada disso, como se minha vida orbitasse em torno de Jacob. Minha mãe estava certa, eu poderia fazer tanta coisa, estudar, viajar… Mas eu sabia que esse vazio só seria preenchido quando visse seu sorriso caloroso novamente. Suspirei. Pelo jeito eu não era uma mulher tão independente quanto acreditava que fosse.
Ficamos em silêncio por tanto tempo que pensei que o assunto tinha acabado, mas minha mãe perguntou em seguida:
– O que você sente de verdade por ele.
Precisei de um minuto.
– Não sei se entendi mãe.
Ela puxou delicadamente meu rosto para olhá-la.
– Você está apaixonada por ele?
O que? Como ela chegou nessa conclusão?
Me levantei rapidamente de seu colo e a olhei perplexa.
– Tudo bem - se apressou em dizer, erguendo a palma das mãos como para se proteger - eu não levo o menor jeito para esse tipo de coisa, me desculpe. Rosalie se sairia melhor nisso.
Suspirei, me desarmando totalmente diante de sua postura desolada. Para mim era difícil às vezes encará-la como mãe quando eu via o rosto de uma adolescente.
– Você está indo muito bem mãe, eu apenas fui pega de surpresa - a consolei.
– Esquece o que eu disse.
Tudo bem, eu entendi o que ela quis dizer, eu só não estava a vontade de contar sobre meus sentimentos a respeito de Jacob. Ainda mais para alguém o qual ele já fora apaixonado. Esse pensamento me tirou de órbita por alguns segundos. Claro que eu sabia que minha mãe era louca pelo meu pai e que Jacob não sentia mais nada por ela, mas ainda sim o passado que eles tiveram não era algo fácil de ignorar.
Mas ela era a minha mãe e estava sofrendo com meu comportamento. Talvez justamente essa parte do seu passado poderia me ajudar no momento.
Respirei fundo tentando buscar as palavras mais sinceras.
– Eu sempre vi Jake como meu irmão, meu melhor amigo - mais uma vez os rótulos inadequados - tenho pouquíssimas memórias da infância sem ele mãe.
Pousei minha mão na sua bochecha tentando mostrar a ela todas as lembranças felizes que eu tinha sem Jacob por perto. Quando tia Rosalie escova meus cabelos, os momentos de carinho com meus pais, os desfiles que fazia com tia Alice, as lutas com tio Jasper e tio Emmett, meu pai me ensinando piano e violino, dias no hospital aprendendo enfermagem com Carlisle.
Eram lembranças muito felizes, mas ainda sim em algumas memórias Jacob estava ao fundo, me observando com aquela cara de i****a e os olhinhos brilhando.
Minha mãe percebeu que eu percebi isso também.
– Então eu penso que não passa de uma saudade enorme que sinto dele.
– Mas já houve outros momentos em que ele ficou longe, e você ficava apenas irritadiça e impaciente.
Franzi os lábios, lembrando do meu comportamento vergonhoso na infância, quando Jacob ficava fora por uns dias para resolver algum problema da matilha. Mas não passava de poucos dias e logo ele estava de volta para atender aos meus caprichos.
– Ah, eu cresci né? Não posso mais ficar jogando as coisas no chão e mordendo as pessoas.
Bella riu baixinho com a lembrança, mas de repente seu rosto congelou e eu sabia que ela queria dizer algo difícil.
– Seu pai me contou sobre seu último encontro com Jacob na praia - soltou de uma vez.
– Claro que contou - revirei os olhos. Meu pai não respeitava mesmo minha privacidade mental.
– Não fique brava com ele, eu o fiz contar. Estava ficando doida para entender o seu comportamento e ele disse que tinha uma teoria.
Isso me pegou de surpresa.
– Que seria…?
Vi minha impaciência aumentar enquanto minha mãe lutava com as palavras. Ela tentava manter a postura de mãe aconselhadora desde o início da nossa conversinha.
– Que talvez seu coração esteja se abrindo para outro tipo de sentimento por ele. Algo mais forte e… romântico.
– Pode parar por aí Isabella Cullen! Está ouvindo o absurdo que diz? Não pode achar que eu esteja apaixonada por Jacob Black, ele cuidou de mim desde que nasci, ele é como meu irmão? - o final da frase saiu como uma pergunta enquanto eu tentava controlar meu nervosismo.
– Não falei nada absurdo - disse minha mãe em voz baixa, na defensiva. De repente tive a impressão que essas palavras escondiam alguma coisa. Ignorei a sensação.
Me encostei na cabeceira da cama e cruzei os braços.
– Você e meu pai ficam inventando histórias feito dois desocupados - falei de forma manhosa.
– Mas então o que aconteceu na praia não foi nada? - ela estreitou os olhos.
Mordi o lábio, não queria falar sobre aquilo, até porque nem eu entendia o que tinha acontecido. Então soltei a primeira desculpa que passou pela minha mente.
– Talvez sejam os hormônios adolescentes. Vou para a escola em breve, tenho certeza que vou entender mais sobre isso.
De repente me peguei pensando na possibilidade de me interessar por um humano na escola. Claro que seria muito perigoso para ele, além da questão do segredo. Conhecia bem demais a história de amor dos meus pais para saber que esse tipo de relação envolve muito sofrimento. Tentei espantar o pensamento.
Mas talvez o que eu disse a minha mãe não tenha sido tão absurdo assim. Jacob é o único homem presente constantemente na minha vida que não é meu parente. Talvez os hormônios tenham confundido minha cabeça e agora eu estava sofrendo pela culpa de querê-lo como eu quis.
– Sim, pode ser que seja isso - disse minha mãe - mas por favor não esqueça que você é livre para sentir o que quiser, e Jacob mais do que ninguém vai entender.
Não sei se entendi o que ela quis dizer, se eram palavras otimistas ou pessimistas, mas não queria continuar com esse assunto e voltei a me deitar na cama.
Ela entendeu a deixa e se curvou para beijar minha testa.
– Estou aqui, não esquece tá? Agora tente dormir - disse ao sair pela porta para fazer seja lá o quê.
Eu realmente tentei voltar a dormir, mas estava brava demais com minha mãe e suas palavras me deixaram confusa. Jacob mais do que ninguém iria me entender? Isso significava que se eu de repente declarasse um amor impossível, ele entenderia que eu era uma i****a e passaria a mão na minha cabeça?
Meus pensamentos se tornaram tão incoerentes que não soube em que momento voltei a dormir, mas despertei com o sol entrando pelas frestas da janela e pela sua posição sabia que estava quase a pico. d***a, eu dormi demais. Me levantei rapidamente e fui para o closet escolher o que vestir. Não tive muita dificuldade de encontrar uma bata florida e calça capri creme. Calcei apressadamente minha sapatilhas e encontrei meus pais na cozinha, uma coisa estranha.
– Bom dia bela adormecida - disse meu pai de bom humor, me abraçando gentilmente.
– Ah… o que vocês estão fazendo? - disse ao observar minha mãe pondo para marinar um pedaço de costela enorme.
– Estou adiantando o jantar - respondeu simplesmente.
Tudo bem que aquele pedaço de costela levaria horas até ser levado ao forno, mas eu me virava bem na cozinha e minha mãe deixava eu preparar o meu próprio jantar.
– Quantas Renesmee vão comer isso? - perguntei em tom de brincadeira e fui beijar o rosto de minha mãe.
Ainda me sentia culpada pela forma que a tratei na noite de ontem. Estava disposta a reparar meu comportamento. Seria com muito esforço, mas eu não queria ter aquele tipo de conversa novamente.
– Acho melhor você ir para a casa de Charlie filha, é quase hora do almoço - disse, ignorando minha pergunta e apontando o relógio do balcão que indicava onze e meia.
Caramba, eu tinha dormido umas doze horas.
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No caminho para Forks, parei na mansão e dei bom dia a toda a minha família. Tentei escapar rapidamente para evitar comentários sobre ontem, mas não sem antes passar pelo exame minucioso de tia Alice pelo meu visual.
Como Alice não conseguia ver meu futuro, não poderia saber quais roupas eu escolheria para aquele dia, então eu tinha que receber seu selo de aprovação antes de ser vista por outras pessoas.
– Muito bem - elogiou ela, mas demorou seu olhar em meus cabelos - mas está faltando alguma coisa.
Então sem eu sequer entender, ela já estava atrás de mim e suas mãos eram um borrão no meio da minha cabeleira avermelhada.
– Perfeito, pode ir.
Passei a mão pelo cabelo e pude sentir a trança grossa que começava no topo da minha cabeça e terminava no meio das costas. Dei de ombros, era inútil discutir com ela.
Fui até a garagem e peguei as chaves do Porche azul que ganhei de presente de aniversário de seis anos. Aproveitei ao máximo a velocidade, sentindo o sol na minha pele.
Cheguei na casa de Charlie em menos de 15 minutos e estacionei ao lado da radiopatrulha. Faltava poucos anos para meu avô se aposentar, mas eu tinha a impressão de que ele não deixaria o posto de chefe tão cedo.
Bati na porta duas vezes e vovô abriu ainda segurando o controle da TV, eu já tinha escutado o som do jogo de baseball da esquina.
Charlie me olhou esbugalhado como sempre fazia, tentando fazer o Tico e Teco funcionar enquanto contava quantos anos eu tinha e desistindo com um suspiro um minuto depois. Eu tive que segurar o riso, vovô reagia de forma curiosa com relação a mim e ao restante dos Cullen, tentando ignorar o fato de que tinha algo muito errado com todos nós.
– Oi vovô - disse dando um beijo em sua bochecha e o deixando vermelho feito um tomate. Se Jake estivesse aqui já teria caído na gargalhada com sua reação.
– Er… oi querida, quanto tempo eu não te vejo - disse Charlie ao fechar a porta atrás de mim - está crescida como sempre.
Ignorei seu comentário dando de ombros e entrei. Sue estava a na cozinha terminando jantar, a cumprimentei e fui para o sofá acompanhar o jogo com Charlie.
– E o Jacob? Ele sempre te acompanha quando você vem aqui.
Ainda bem que ele estava olhando jogo e não pode ver a minha careta com sua pergunta.
– Jacob anda muito ocupado com a faculdade ultimamente - não consegui disfarçar a amargura da minha voz o suficiente.
Charlie também percebeu e desgrudou os olhos da tela para me olhar.
– Ah sim, Billy me disse que ele nem o vê mais, só passa em casa para trocar de roupas e dormir por uma hora. Não faz bem alguém daquele tamanho dormir tão pouco, vai acabar pirando de estresse.
Isso me desarmou completamente e a culpa me atingiu novamente como um soco. Jacob não conseguia nem sequer dormir, eu não tinha o direito de ficar irritada por ele não vir me visitar. Até o próprio pai sentia a sua falta.
Sue apareceu em seguida e anunciou que o almoço estava pronto.
Passei uma tarde agradável com Charlie, após do almoço ajudei a limpar a cozinha e terminei de assistir ao jogo, depois ficamos conversando e eu contei sobre a escola que começaria em breve.
Já era hora do crepúsculo quando me despedi deles e voltei para a casa. Estava tão perdida em pensamentos quando estacionei na garagem dos Cullen que quase não reparei na enorme moto desbotada parada ao lado do portão, destoando de todos os carros lustrosos e luxuosos de minha família. Fiquei paralisada por alguns momentos e apurei meus sentidos. Agora eu podia ouvir claramente o som de um coração batendo no primeiro andar… e eu conhecia muito bem a quem pertencia.