Pov Mia.
Torci os dedos quebrados e em menos de um minuto eles tinham voltado para o lugar como se nada tivesse acontecido, enquanto eu observava aquele ridículo carro azul sumir de vista. Ótimo, esperava que ela tivesse entendido e não voltasse a aparecer por ali. Mas algo me dizia que eu estava engana, a expressão no rosto daquela garota demonstrava que ela não tinha acreditado em uma palavra sequer do que eu havia dito. Eu precisaria ser mais incisiva se quisesse viver em paz naquela aldeia.
- Mia? – alguém chamou atrás de mim e quando me virei encontrei Leah no começo da rua segurando algumas sacolas de compras.
Escondi as mãos nas costas e coloquei um sorriso no rosto enquanto ia até ela.
- O que está fazendo aqui? Não está se sentindo bem? – perguntou ela.
Sempre enxerida. Precisei lembrar a mim mesma de não torcer a boca e revirar os olhos.
- Estou bem - respondi e sorri – vim te ver.
Ela se iluminou imediatamente e a confusão deixou seus olhos.
- Então venha, vamos entrar.
Deixei-a ir na frente e abrir a porta enquanto eu dava uma última espiada para o fim da rua, para garantir que o carro não estava mais a vista.
Entrei na casa minúscula - assim como todas as outras daquele lugar – e acompanhei Leah até a cozinha, não antes cumprimentar Seth e Sue sem muito entusiasmo.
- Você não viu Nessie no caminho, Le? – perguntou Seth enquanto revirava uma das sacolas de compras que a irmã tinha trazido.
- Eu não. Deveria ver? – respondeu Leah.
- Faz cinco minutos que ela saiu aqui.
- Fazendo o que?
- Atrás de Jake, claro. Parece importante, mas deve ser coisa de namorados. Ela pediu para avisar ele que a procura-se quando possível.
Leah terminou de guardar as coisas e fez uma careta.
- Agora somos os capachos do casalzinho. Como se não fosse ridículo o suficiente Jacob ocupar um dos garotos para ficar mandando recados a ela.
- Engole o veneno, você tá babando – rebateu Seth.
- Parem vocês dois – interveio Sue.
Enquanto Seth voltava para a sala e se jogava no sofá para assistir a um jogo qualquer, Leah pegou um pacote enorme de salgadinhos do armário e duas garrafas de refrigerante.
- Vem Mia, vamos ficar no meu quarto.
Eu que estava encostada num canto da cozinha em silencio a segui até o último cômodo no fim do apertado corretor. Seu quarto era uma bagunça enorme, tinha roupas e livros espalhados por toda a parte, mas pelo menos estava tudo limpo. Me acomodei em um puff enquanto Leah se jogava na cama de frente para mim, me entregando uma das garrafas e abrindo o salgadinho fedorento.
- Sabe, acho que já tive minha cota de aturar pessoas com imprinting por toda uma vida – disse ela. – Teve épocas que eu era doida para sentir isso por alguém, mas conforme os anos passam me convenço de que estou bem melhor assim.
Observei como seus olhos foram escurecendo ao mesmo tempo em que ela tentava disfarçar a tristeza enchendo a boca de salgadinhos. Ela me ofereceu, mas eu não quis, abri apenas a garrafa de refrigerante e tomei um gole.
-Bem, eu não tinha muita ideia sobre o que era o imprinting até chegar aqui. Quando minha avó me contava, parecia ser mais uma lenda - falei.
Leah se remexeu desconfortável na cama, não encontrando uma posição.
-Todos nós pensávamos assim, até acontecer com o antigo alfa.
-Você quer dizer com o Sam.
-Sim - respondeu secamente.
-Vocês eram namorados, não eram?
Leah bufou e encarou o teto do quarto de mau humor.
-Claro que Billy já deu com a língua nos dentes - resmungou.
Leah parecia gostar muito de mim, era sempre solícita e empática com a minha situação. Apesar de seu humor azedo e dos comentários sem graça que fazia, o tempo que passávamos juntas me mostrava cada vez mais traços de sua personalidade. E ali estava um que eu já tinha deduzido: Leah não gostava de demonstrar fraqueza. Então, mesmo sendo muito reservada com relação aos seus sentimentos, era só dizer a coisa certa que ela me daria o que eu queria.
– Se esse assunto te magoa tanto, podemos conversar sobre outra coisa - disse na defensiva
Ela ficou em silêncio por alguns instantes, provavelmente analisando se queria ou não me contar e, como eu supunha, chegando à conclusão que sim. Isso era tão fácil, só pelo fato dela poder escolher falar ao invés de ser obrigada a ter seus segredos expostos a todos, já a fazia se sentir em vantagem.
-O imprinting não passa de uma bela d***a, se quer saber - disse ela - Nada mais é do que ter suas vontades amarradas a uma pessoa que você muito provavelmente não escolheria se pudesse. Por anos desejei sentir isso, para me livrar da culpa, mas hoje eu enxergo como realmente é: uma prisão. Então posso não ser feliz, mas ao menos sou livre.
Continuei em silêncio enquanto ela respirava fundo algumas vezes.
-Eu era louca por ele Mia, pelo Sam. Nós namorávamos a três anos e eu já sonhava estar casada e com filhos que pudessem ser tão lindos como o pai. Tudo o que Emily tem. Se eu tenho inveja dela? Muita, mesmo não sentindo mais nada por ele.
Vi que seus olhos começaram a ficar marejados enquanto tomava um enorme gole de refrigerante.
-Eu era uma boba, ainda sou né, mas em outros aspectos. Me envolvi pessoalmente nas buscas policiais quando ele desapareceu. Sabe porque ele desapareceu, não sabe?
-Sim, quando se transformou pela primeira vez em lobo - disse.
-Levou dias para que voltasse a forma humana de novo. Eu estava maluca de preocupação, mais ainda quando ele voltou todo estranho e distante. Eu sabia que tinha coisa errada nessa história, só não imaginava que era toda essa bizarrice. Mas então aconteceu, ele viu Emily e todo nosso futuro foi para o vinagre.
O silêncio voltou a pairar, mas eu ainda não estava satisfeita.
-Sam não conhecia Emily? - perguntei.
-Já conhecia, ela vinha me visitar todo verão, mas os grilhões só foram amarrados nele quando a viu depois da transformação. No dia seguinte terminou comigo e foi correndo atrás dela.
-Sinto muito - falei e ela me encarou furiosa, como imaginei que faria.
-Para mim eles não passavam de dois traidores mentirosos, mesmo quando Emily teve a cara desfigurada. Foi preciso eu me descontrolar e explodir em lobo dentro da sala aqui de casa para que pudesse finalmente entender tudo o que tinha acontecido e a situação deles. Claro que matei meu pai de infarto no processo.
Lágrimas desciam desobedientemente de seus olhos e ela as limpava com fúria.
-Seth também se transformou no mesmo dia - continuou ela - o coitado ficou assustado – e deu uma risada amarga.
Eu não tinha nada a dizer quanto aquilo, então resolvi continuar em silêncio. Era evidente que Leah acreditava que por sermos duas mulheres únicas massacradas por fenômenos sobrenaturais, compartilhávamos as mesmas angústias. A garota era durona, então tratou logo de se recompor e voltar com a expressão carrancuda de sempre.
-Você já consegue imaginar que a parte mais difícil para mim foi ter os pensamentos compartilhados com Sam, em seguida saber que meu futuro tinha sido apagado da pior forma que eu podia imaginar. Eu não posso ser mãe. Até isso foi tirado de mim. Como você se sentiu em relação a isso?
Por mais que tentasse parecer ter superado esse assunto, o olhar que ela me lançou era de puro desespero.
Sinceramente eu não tinha refletido muito sobre isso. Nunca me imaginei mãe, achava crianças seres barulhentos que privavam as horas de sossego dos adultos. Quando minha menstruação parou eu fiquei surpresa, confesso, mas eu odiava esses ciclos de qualquer maneira.
-Muito m*l, mas não gosto de pensar nisso - respondi a ela, que assentiu devagar como se entendesse minha justificativa.
-Mas na real, sabe qual é a pior parte mesmo?
Mais uma? Quantas piores partes ela colecionava?
-Qual?
-Nada disso teria acontecido na vida de ninguém aqui dessa reserva se os Cullen não tivessem voltado a Forks. Por isso eu apoio sua decisão de querer o tratado de volta, é o mínimo depois de tudo o que aqueles sanguessugas nos causaram.
-Fico feliz que você pense assim.
Sentia gratidão pelo seu apoio, mas não era de muita serventia. Ela podia ser a segunda em comando, mas ainda era submissa às ordens do alfa, e como ele estava engaiolado naquela família de vampiros…
Leah amassou o saco de salgadinhos vazios abruptamente, fazendo um barulho alto
- Bom, o papo está super leve e feliz, mas eu não posso me demorar, hoje é minha noite de ronda. Ainda bem que não divido mais elas com Jacob, ele anda tão insuportável que ontem a noite acabei sonhando com Renesmee Cullen, você acredita? O que eu vou fazer com isso, Mia?
– Você prefere o Jacob quando estava de mau humor? – perguntei.
- Eu o prefiro antes de toda essa palhaçada de imprinting, pelo menos tínhamos uma raiva para compartilhar – respondeu ela com a boca cheia de salgadinhos. – Não sei qual é a pior parte de estar na cabeça dele, se é ouvi-lo pensar em como a meia vampirinha é maravilhosa, linda e perfeita ou quando se afunda em remorso por não ter conseguido contado a ela sobre o imprinting.
- Espera aí – a interrompi – ela não sabe que é alvo do imprinting dele?
- Não, o covarde nunca teve coragem de contar – ela deu uma sugada no fundo da garrafa de refrigerante fazendo um som irritante e se levantou – Quero dizer, se é para ficar sofrendo, conta de uma vez.
- Mas por quê?
- Porque assim acaba com esse drama todo e...
Fechei os olhos com força enquanto ela estava distraída revirando uma das pilhas de roupa.
- Não, por que ele nunca contou a ela?
- Ah, ele acha que pode magoá-la, sei lá. Vai entender.
Depois voltou com o seu falatório, agora sobre como os homens do bando eram ridículos e infantis, fazendo questão de categorizar cada um por grau de imaturidade. Eu parei de ouvir depois de alguns minutos e só concordava com a cabeça e resmungava “hum” ou “pois é” de vez em quando.
Já estava escuro nas ruas quando desci a ladeira de volta a casa dos Black. Os poucos turistas já tinham ido embora e as lojinhas estavam fechando suas portas. O ar da noite estava tão fresco que minha vontade era de mergulhar na escuridão da floresta sobre quatro patas novamente.
Desde que eu descobrira que era uma lobisomem não tive oportunidade nenhuma de aproveitar os benefícios que o restante da matilha tanto falava. Todas as vezes que aconteceu minha transformação eu estava pronta para lutar e o resultado fora dor e ossos quebrados.
Dizer que era fácil controlar a raiva e o animal que existia dentro de mim, isso não era. Os espasmos eram frequentes. Mas era só lembrar do meu objetivo e que eu precisava estar calma para obtê-lo, que conseguia encontrar forças para suprimir a fúria do lobo que gritava para sair.
Passei pela porta da frente e o cheiro de comida invadiu minhas narinas, me entorpecendo. Além do refrigerante, eu não tinha comido nada a tarde inteira. Era nojento ver que esse povo sobrevivia a base de porcarias. Quando tivesse minha própria casa, isso acabaria de uma vez, mas para tal eu precisava de um emprego, algo que Leah estava disposta a me ajudar.
-Mia, chegou bem a tempo. O jantar está pronto - anunciou Billy quando entrei enquanto encaixava sua cadeira de rodas entre a mesa pequena.
-O cheiro está ótimo.
Eu m*l havia me sentado na mesa quando ouvi passos próximos da casa. Apurei mais os sentidos e senti o cheiro único de Jacob. No mesmo instante ele passou pela porta, tomando todo o espaço da sala com sua presença.
-Jake! Que surpresa - exclamou Billy.
Jacob olhou para nós e depois para a comida, o som de seu estômago roncando foi alto até para Billy.
-Oi pessoal.
-Venha comer filho. Chegou na hora certa.
Billy foi até o armário mais próximo e tirou mais um prato e talheres dali.
-Não dá pai, só vim pegar algumas roupas. Preciso voltar em uma hora para próxima ronda.
Ele foi direto para o quarto.
-Não Jacob, mas que d***a, venha comer. Você não aparece faz três dias.
-Eu sei, mas estou em semana de provas, não estou conseguindo nem dormir - gritou do quarto.
-Você não vai morrer se comer alguma coisa antes de ir, pelo contrário. Fiz carne com batata, você adora.
Jacob nada disse, mas o som de sua barriga roncando deu a resposta. Ele soltou um rosnado e em menos de um minuto voltou à cozinha, pegou o prato e o encheu de comida. Apenas depois de ter devorado metade do jantar que finalmente olhou para mim.
-E aí Mia? Como é que você está? - perguntou Jacob.
Tentei colocar o sorriso mais simpático no rosto ao responder.
-Cada vez melhor, graças aos cuidados de vocês.
Ele ergueu a mão num gesto displicente.
-Ah claro, a Sue é ótima.
-Não só a Sue, mas você também tem sido muito generoso. O que eu puder fazer para te compensar tudo isso, pode dizer.
-Já seria de grande ajuda se cozinhasse melhor que meu pai. Essa carne está sem sal, velho - disse encarando o pai.
-Tenho colesterol alto, você sabe.
Me apressei em pegar o saleiro ao lado e fiz questão de depositar na palma de sua mão que descansava sobre a mesa. Mas Jacob nem ao menos me olhou, apenas colocou sal na comida e continuou concentrado no próprio prato.
-Eu estive pensando - voltei a falar - sei que Leah ofereceu a própria casa, para o caso de eu decidir morar mesmo aqui. Mas sabe, eu gosto muito da sua casa, me sinto tão mais à vontade. Quero dizer, isso se a Raquel não se importar que eu fique em seu quarto.
Fiz questão de enfatizar cada última palavra com um tom meloso, mesmo assim Jacob só encarava sua comida. Me controlei para não atirar um pedaço de batata na sua cabeça.
-Sem neura - respondeu ele com a boca cheia - pode continuar no quarto dela, já que ela só aparece nas férias ou quando não aguenta mais de saudade de Paul.
-Ótimo, porque eu já me sinto em casa aqui. Melhor ainda vai ser quando eu entrar na matilha, poderemos passar mais tempos juntos. Você tem sido um bom amigo.
Jacob levantou a cabeça, mas foi para ver a cesta de pãezinhos do outro lado da mesa, então enquanto ele erguia o seu enorme braço para alcançá-la, me levantei no mesmo instante e toquei seus músculos, fazendo carinho com a ponta do polegar.
-Tudo bem, eu faço questão - disse ao pegar a cesta e entregar a ele.
Ele me encarou, mas deu de cara com o meu decote, uma vez que eu estava muito debruçada sobre a mesa. Porém voltou para o próprio prato e começou a molhar um pãozinho no caldo da carne como se o que estivesse acabado de ver fora uma folha de papel no chão, e não um par de p****s bem diante dos seus olhos.
Eu estava me preparando para tentar novamente quando um pigarrear alto de Billy me interrompeu, eu o encarei, mas ele desviou o rosto depressa.
-Er… e como andam as aulas, filho?
-Ah, um porre. Aqueles professores infelizes pensam que só existe a matéria deles, não economizam nas lições de casa. Ainda bem que tenho meu colega de quarto para ajudar.
Jacob terminou de limpar o prato e foi para a pia lavá-lo.
-O que me lembra que eu preciso voltar agora. Amanhã é o último treino antes das semifinais e prometi ajudar o treinador com os reservas.
Ele guardou o prato no escorredor e foi até o pai, dando-lhe um beijo na testa.
-Tchau velho. Boa noite Mia.
-Não quer descansar um pouco? Você parece acabado - exclamou Billy.
-Não posso, vou me atrasar. Durmo perto da estrada se conseguir correr depressa.
Jacob pegou a pequena trouxa de roupas no chão e saiu porta afora. Me levantei de imediato.
-Jacob, espere - disse ao conseguir alcançá-lo do lado de fora.
-O que foi? - falou ele ao se virar para mim.
Pense, pense, pense.
-Será que, quando eu puder voltar a me transformar, vou poder receber algumas aulas de luta? Quero dizer, posso precisar me aprimorar, você sabe.
-Claro, a Leah vai te ensinar.
Cheguei mais perto dele e tentei prender seu olhar no meu.
-Na verdade, eu queria que você me treinasse. Sabe como é, com o alfa é mais… excitante.
Passei a ponta dos dedos levemente por seu braço, ainda o encarando profundamente, imperceptivelmente me aproximando cada vez mais.
-Claro, como quiser - respondeu ele simplesmente, me dando um tapinha no ombro - tchau Mia.
E saiu na direção da floresta.
Fechei os olhos com força e trinquei os dentes ao entrar para dentro e fechar a porta.
Ao me virar avistei a roda da cadeira de Billy indo para o próprio quarto. Claro que ele estava me espionando.
A luz que entrava naquele quarto quente batia bem no meu rosto logo pela manhã, me obrigando a acordar antes de todo mundo. Me levantei e fiz minhas higienes, enquanto admirava a praia ao longe pela pequena janelinha. Era diferente, mas ao mesmo tempo tão semelhante a que eu abandonei.
Eu estava satisfeita com o lugar que eu tinha agora, mas precisava admitir que sentia muita falta de algumas coisas na aldeia makah, a principal delas era minha mãe. Foi muito doloroso no começo lidar com a sua ausência, mas de certa forma estar em outro lugar longe das lembranças de minha antiga casa facilitava em muitos aspectos.
Quando pensava na minha mãe automaticamente lembrava da minha avó. Se eu tivesse dado ouvidos a todas as suas histórias malucas, será que as coisas teriam sido diferentes? Eu achava que não, até porque meu gene de lobo só aflorou quando senti o cheiro daquela criatura maldita. Eu gravara bem aquele odor, e não descansaria até que fosse extinto, nem que para isso eu levasse quantos pudesse da sua espécie no caminho.
Porém sozinha eu era fraca, um alvo até, precisaria de todos aqueles lobos do meu lado. O grande empecilho tinha sido descobrir que todos eles eram amiguinhos de uma família de vampiros, isso com certeza não estava nos meus planos.
Mas eu tinha analisado que o grande elo que unia esses mundos era o alfa com a sua namoradinha monstrinho. Patético. Mas quanto a isso eu já estava trabalhando.
Então o barulho de um telefone tocando me despertou de meus devaneios e logo em seguida ao som das rodas de Billy deslizando pelo assoalho.
-Alô? - disse Billy. - Oi Charlie!... Não acredito, é hoje? Tinha me esquecido… ah com certeza, eles estão evoluindo nessa temporada… Claro, não vou perder isso por nada. Já estou a caminho… não, eu vou de carro com Sue… Beleza, até mais tarde.
E desligou o telefone. Sai para porta logo na sequência.
-Bom dia - murmurei.
-Bom dia Mia - respondeu Billy terminando seu café. - Você pode me fazer um favor? Poderia me ajudar a chegar à casa de Sue? Vou passar o dia em Forks para assistir a final da temporada com Charlie.
-Claro.
Enquanto eu empurrava sua cadeira ladeira acima até casa de Sue, nada disse, porém Billy estava disposto a quebrar o silêncio.
-Está se sentindo melhor? - perguntou ele.
-Sim, estou
-Acha que consegue se transformar?
-Não a esse ponto.
Ficou em silêncio por alguns minutos.
-A situação vai melhorar quando você se adaptar aos costumes daqui e entrar para a matilha.
-Quer dizer, quando eu aceitar que vocês são íntimos de vampiros - falei sem rodeio.
Billy olhou por sobre o ombro para mim antes de responder.
-Você está enxergando apenas os seus preconceitos, assim como eu um dia. Mas aquela família é realmente boa…
-Olha Billy. Eu sei o que vocês pensam deles e o que vocês sabem o que eu penso a respeito disso. Não preciso ficar aqui escutando como os Cullen são maravilhosos, para mim a natureza deles é a mesma que a do vampiro sádico que causou um genocídio na minha aldeia.
Vi Billy se encolher na sua cadeira conforme eu falava.
-Não pode fazer julgamento assim das pessoas - voltou a falar Billy.
-Então me responde uma coisa. Você acha mesmo que eles poupariam a vida de algum de vocês se a família deles estivesse ameaçada?
Billy nada respondeu, apenas pegou as rodas da cadeira com as mãos.
-Obrigada pela ajuda - e foi restante do caminho sozinho, pois o terreno já era plano.
Dei de ombros e comecei a fazer o percurso de volta para a casa, quando uma figura surgiu na esquina.
-Embry - exclamei.
O homem virou-se, vestindo apenas um short velho - devia ter acabado de mudar de forma.
-Ah, oi Mia - e passou a mão nos cabelos longos, tentando arrumá-los.
-Terminado sua ronda?
-Sim, virei a noite hoje - se aprumou ainda mais, todo orgulhoso - como Jacob passaria a noite estudando e Leah estava descansando, eu fiquei no comando.
Hum... uma ideia começou a surgir em minha mente.
-Nossa, que incrível - respondi - Será que você pode me acompanhar de volta a casa de Billy? Eu o ajudei a subir essa ladeira e agora me sinto um pouco fraca.
Ele se apressou a correr a pouca distância que nos separava e passou os braços ao redor de meu corpo, me sustentando. Eu estava prestes a dizer que não precisava de tudo isso, mas me mantive assim. Começamos a andar.
-Você parece cansado - falei bem próxima de seu rosto, fazendo questão de olhar para ele.
Ele me encarou e se sobressaltou com a nossa proximidade de nossos rostos, voltando o rosto para a rua.
-Um… um pouco, tem sido bem puxado para todos nós - falou ele, nervoso.
-Eu imagino. Como moro com Jacob vejo como ele chega, mas ao menos Billy o convenceu de vir para o almoço.
A expressão de Embry que estava tensa ficou confusa.
-Jake vai vir para o almoço? Estranho, ele não falou nada com a gente.
-Deve ter esquecido, anda muito ocupado. Até mesmo a namorada Cullen dele está sentindo sua falta, ontem veio procurá-lo.
-Ah sim, Seth me contou sobre isso.
Me aproximei ainda mais de seu corpo, colando ao meu. Como esperado, seus músculos se tensionaram imediatamente.
-Sabe, me sinto tão m*l pelo meu comportamento da última vez eu me encontrei com ela. Queria compensá-la de alguma forma e eu sei que ela adoraria ver o namorado. Uma pena que eu não consigo ir até lá.
Embry ficou em silêncio por alguns instantes e me apertei ainda mais contra ele uma última vez enquanto me soltava em frente à casa dos Black.
-Eu posso avisá-la se quiser - disse ele com altivez.
-Jura? Nossa, muito obrigada Embry - e lhe dei um beijo no rosto.
Ele ficou vermelho e deu um sorrisinho bobo, como um adolescente.
-Claro, ajudo sempre que quiser.
-Valeu. Só não conte a ela que fui eu quem avisei, não quero contar vantagem.
Dei o sorriso mais esplêndido que consegui e observei como ele foi ficando desorientado.
-Até mais - falei e me virei.
Entrei na casa e tranquei a porta enquanto ouvia os passos de Embry se afastar na direção da floresta. Ótimo, se tudo acontecesse como eu estava pensando, aquela vampirinha metida estaria aqui em menos de quinze minutos. Senti o sorriso se formar em meu rosto ao pensar em como esse povo era previsível.
Fui em direção ao banheiro, liguei o chuveiro e tomei um banho bem quente, depois sequei meus cabelos negros de qualquer jeito com a toalha e fui até o quarto de Jacob.
No tempo esperado, ouvi os pneus de um carro passando sobre a calçada de pedras e estacionando em frente a casa, poucos minutos depois três batidas na porta anunciava sua chagada enquanto eu terminava de vestir a camiseta de Jacob.
Quando abri a porta Renesmee estava bem alí com uma postura cautelosa, os olhos dela me encaram, depois percorreu o cômodo atrás de mim e se voltou para minhas roupas, principalmente nas minhas pernas nuas.
- Pois não? – perguntei num tom inocente.
Ela encarou mais uma vez minha silhueta com a boca entreaberta antes de responder.
- Er... Jacob está?
Eu me sentia naquelas novelas bem clichê, que a mocinha é tão tapada que chega a ser cômico.
- Estava, mas já saiu. Se eu fosse você nem perderia seu tempo indo atrás, ele está bem exausto agora.
Ela semicerrou os olhos e cruzou os braços na frente do corpo.
- Eu mesma posso definir se é perda de tempo ou não ir atrás dele.
Que garota insolente! Não perdi a postura.
- Claro que pode, mas é bem visível, não é? Ele estava aqui agora mesmo me fazendo... companhia, enquanto você o procura desde ontem. Não acha que está sendo inconveniente?
Renesmee me analisava sem parar, minhas roupas, meu rosto e até mesmo as coisas ao meu redor. Eu esperava que ela virasse as costas e voltasse para casa com o rabinho entre as pernas, mas seu sorrisinho no canto dos lábios me indicou o contrário.
- Por favor Mia, isso está ridículo. Essa blusa, esse cabelo bagunçado, o perfume dele. Você vai precisar mais do que isso para me fazer acreditar que Jake está me traindo. Na verdade, pela impressão que você já me passou, eu não acreditaria nisso nem em um milhão de anos.
Senti o sangue pulsando em minhas veias e meu coração acelerando de raiva. Minha vontade era arrancar a cabeça daquela garota com os dentes para descobrir se era feita de pedra morta como os demais da sua família, mas tive que me controlar para não acabar toda arrebentada de novo, temendo ficar presa na cama por mais semanas Cerrei os punhos para segurar os tremores de meus dedos e apertei os olhos com força.
- Você não o merece – sussurrei entre os dentes, temendo explodir em lobo a qualquer momento.
Ela ficou em silencio, mas eu não consegui saber se era por medo ou desafio, pois eu estava concentrada demais em me acalmar.
Depois de algum tempo a encarei e em seu rosto vi... compaixão? Ou seria pena?
-Mia, eu sei que está sofrendo e tudo mais, mas precisa entender que eu não tenho culpa pelo que aconteceu na sua aldeia – disse ela depois de dar um suspiro pesado.
Ela não sabia de nada, a arrogância a cegava.
Mesmo sem suas palavras, eu via em seus olhos, na sua expressão firme de que ela não acreditava em uma palavra do que eu tinha dito ou nada que eu tenha mostrado. Para o inferno com sua confiança inabalável em Jacob, devia ser coisa do imprinting… Talvez se…
Me endireitei e a olhei por cima, a raiva agora longe de mim.
-Me conta uma coisa... garotinha. Como você consegue dormir com a consciência tranquila sabendo que se não fosse o imprinting, Jacob enxergaria em você o mesmo monstro que eu enxergo?
Seu olhar foi de calma para completo choque, seu corpo ficou tão imóvel como uma rocha pálida.
-Co...como é? – gaguejou ela.
Sua cara de i****a me fez rir.
-Ah por favor, vai me dizer que nunca pensou nisso.
E ali estava o que eu queria. Fiquei apenas apreciando seu olhar confuso se transformar em incredulidade para depois em completo horror. Era encantador se não fosse tão trágico.
Pobre Jacob, ele teria um trabalho enorme para conseguir tirar a tristeza daquele rostinho, isso se conseguisse.
-Você é uma mentirosa – resmungou numa voz tão baixa e fraca, que eu nem precisava dizer nada, a situação já estava ganha.
Mas eu não a deixaria sem resposta.
-Sou? Ou você é tão tola que não consegue enxergar o que está bem na sua frente?
Não sei exatamente qual foi a palavra que a fez cair em si, mas ela começava a se afastar da casa devagar e ainda me encarava em completo conflito, mas eu sabia que a compreensão estava dominando sua mente como fumaça.
Bom, quem sabe isso a manteria afastada por um tempo.